Texto Fantasma

00:15

Mais uma vez, o cursor piscava desesperadamente na tela do computador. A música de fundo sorria da cena deprimente: “Just a little patience…”. O copo de café pela metade, as mãos juntas num ritual desconhecido, o olhar distante: meio cansado, meio viajante.

00:30

Mais uma vez, a procura pelas palavras certas no momento errado. A melodia assoviada parecia zombar da situação, aquilo não era nada tranqüilo e calmo. Apesar do silêncio do lado de fora, a cabeça gritava velhos versos e poesias. Por que quando se quer escrever algo novo, as idéias já usadas vem à cabeça? Não pareciam servir pra nada.

01:00

Mais uma vez, o corpo tenso. O backspace sendo esmurrado a cada frase mal desenhada. “Não é isso que eu quero dizer!”, o sentimento é sempre muito maior que as palavras, e esse bendito gosto pela escrita que não deixa a tela preta assumir o lugar desse branco – hoje, tão assustador.

01:30

Mais uma vez, uma página. Uma maldita página que, sozinha (coitada), conseguia destruir tudo o que não foi escrito. A música parou, o café acabou, o ar esfriou. E agora, José?

02:00

Mais uma vez, os motoqueiros começam a curtir a festa. Todos drogados e felizes, irritando a vizinhança e, aqui dentro, fazendo a cabeça começar a latejar. Ah, não! Só mais um pouquinho! Só mais uns minutos de saúde, antes da derradeira explosão da dor noturna. Os lábios contraídos em sinal de alerta, qualquer coisa que sirva de médium para o coração, qualquer coisa serve. Mais uma estrofe. Mais um estrago. “Mais café, por favor!”

02:30

Mais uma vez, os olhos percorrem o quarto. Não pode ser tão difícil assim descrever uma sensação. Não pode ser tão complicado assim ler o coração! Mas é. De repente, uma constatação: o amadurecimento. Os versos pateticamente rimados da adolescência já não servem mais. Uma surpresa tão boa quanto a dessa noite merece coisa melhor que uma recompensa adolescente, ou assim, tão desconexa e confusa, como a mente que escreve esse texto.

03:00

Mais uma vez, a releitura da página escrita, na busca do engajamento literário. Nada. As batidas agudas na cabeça aumentam, os cílios superiores criam, de repente, uma atração avassaladora para com os cílios inferiores. A razão (e o que resta da consciência) fica dividida entre a persistência e o aviso de que a jornada de trabalho está próxima.

03:15 (ou 03:30, quem sabe…)

Mais uma vez, a decepção com a perseverança, abatida pela borracha da incapacidade criativa (a essa altura, mais parecida com uma insensibilidade emocional). Mouse movido para o canto superior da tela. E o clique no “x” do desassossego. “Deseja salvar as alterações?” Nenhuma vale a pena ser salva.

Finalmente, mais uma vez, o escuro psicodélico dos sonhos e os flashes felizes do desejo. Quem dera esses pudessem ser salvos…

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E quando a gente fica assim, como se diz? sentimental demais? Não, eu devo ser menos poética: e quando a gente fica assim..idiota? Sim sim … aqueles velhos sintomas: escutar a mesma música melódica por horas seguidas (que te faz chorar no refrão), tentar escrever algo que alivie o que você sente (na esperança de que alguém leia e sinta o mínimo de compaixão por você [ohh, que triste!]), ou só ficar de olhos fechados olhando pro escuro psicodélico.. forçando releases dos momentos mais marcantes da sua vida. E quando a gente fica assim …idiota? O que a gente faz?Esquecemos o conteúdo intelectual que temos e fazemos joguinhos com as palavras e dizemos nas entrelinhas o que (obviamente) só nós iremos entender? E quando a gente fica assim, idiota, pra quem a gente escreve, Idiota? Talvez eu tenha descoberto a utilidade de uma personalidade dupla: suportar a agonia, desesperança e ilusão de nós mesmos, nesses dias que a gente fica assim..idiota. Quem fica? Idiota! Você fica. Você quem? Eu? Quem de mim sou eu? Quem de mim sou eu AGORA? No final das contas, o diálogo entre eu e eu mesma não é apenas um monólogo? Sozinha … Nem o maior romancista do universo poderia considerar esse texto uma discussão filosófica. Até o mais ignorante dos seres identifica aqui, nessas linhas tortas e inelegíveis, o que é (foi e vai ser) a maior frustração humana. Afinal, quem não ama? Wergeland, Novalis e Goethe me entenderiam. Estou certa de que mais do que qualquer um dos meus “Eus”.

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