Nota

E não sou a causa dessa cicatriz

Nem vem

Que não tem

Eu não tenho culpa se não és feliz

Eu não sou a culpa da tua desculpa

Escuta,

Não existe multa

Pra direção escolhida.

E se sofre,

E se alegra,

E se irrita,

Eu não sou a causa da sua birita.

E a sua alma

Tão viva

Aplástica

Açoitada

Eu não produzi

Veio de fábrica.

Coração Assombrado

Se em uma divagação
Vagar o meu coração
Para um lugar onde
Você não tenha aparecido
Palpita o meu peito espavorido.
Quando a minha razão
Corrompe-se em confusão
E perde a competição
Para o meu ouvido
Segue meu coração reduzido
Às sombras da comoção.
Se eu não tenho você
Nem para vir
Nem para ver
Nem para saber
Que um dia eu tenha tido
Sigo a vida sem sentido
Sigo um rumo amedrontado
Sigo ser ter estado

 

Imobilizo. 

Domingo de Páscoa

Assim que ela fechou os olhos, ele trouxe a caixa à frente do corpo, ajeitou um sorriso superbranco no rosto e disse :
— P… pode olhar.
A primeira coisa que ela viu foi o contraste da embalagem com a pele escura do cavalheiro, depois seu olhar contente. Pulou no pescoço dele, com um entusiasmo inocente.
Antes mesmo de devorar o conteúdo da caixa, ainda empolgada com o acontecimento, decidiu tatuar o vício antigo e o novo: um chocolate branco ao lado do rosto do Marcelo Negão.
Ficou lindo na pele.
Na volta para a casa, contando os minutos para o encontro com o presente, começou a ler as recomendações de cuidados para a nova tattoo.
A segunda linha saltou aos olhos e afundou o estômago:
“Não ingerir: alimentos derivados do cacau.”
Era domingo de Páscoa.

Estranhamento

Mais um delírio literário que volta no tempo, que tenta entender o que é esse tal negócio de “crescer”. Dizem que uma hora isso para, mas eu acho que vamos ter que crescer até quando já formos velhos, porque algumas coisas são eternamente incompreensíveis, até para a suposta maturidade.

Então, sem mais delongas e viagens, o poema abaixo trata:

  • Do garoto cauteloso, ao homem ousado.
  • Da garota romântica, que não mudou de lado.
  • Das mudanças óbvias do que um dia foi o primeiro amor vivido.
  • Da vida, crescida, que não faz sentido.

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 Há anos, estranhei sua paciência.

Donde vem tanta presença e companheirismo?

Nessa minha vida que só fazia rodar, sem lirismo algum.

Há meses, estranhei seu estilo

Donde vem esse cabelo da moda e essa calça descolada?

Achei que tu era tu, e mais nada.

Há dias, estranhei seu humor.

Donde vem essa alegria espontânea, gritando a necessidade de sorrir?

Você, que a cada noite calada parecia ruir.

Há horas, estranhei seu olhar.

Donde vem essa coragem para elogiar a garota?

Na testa, do suor, nenhuma gota.

Há minutos, estranhei sua liberdade.

Donde vem essa verdade estampada no rosto?

Onde está a vergonha, seu moço?

Outrora escondida nos versos angustiados

Agora estampada nos olhares falados

Que nem sei como interpretar.

Em segundos, estranhei tu, estranhei a mim.

Sem saber se sentia assado, se sentia assim,

Sobre o que, agora, tu é.
Donde vem esse deslocamento, essa perdição de sentimento, que não sei onde colocar?

Desconhecendo tu,

Acreditando em mim.

Sempre achei que ia ser assim,

No fim,

Uma desconexão rebelde entre nós

Fruto de uma confusão inerte dos nós

Do primeiro amor.

Carta de uma jovem velha

Não sei se poder inconsciente de um livro, ou fato consciente da vida, hoje descobri: sinto-me uma velha. Dessas que viveram à toda atrás de um amor, ainda que aqueles de verão.

Invejo quem pode se apaixonar, sem vergonha do colorido das palavras, do sustenido do coração… tão óbvio, tão adolescente. Um coração quente que não se pode gelar, nem pela morte.

Sinto-me uma velha ao observar o comportamento dessas crianças, sempre radiantes, combinando com os dias intermináveis de sol .
Enquanto eu, aqui, sentada a olhar as nuvens sem forma, o ar denso e triste, os passos apressados dos corações descompassados de tanto amor.

Meio século se passou desde o primeiro beijo apaixonado, e nada é como se fosse ontem, mas sim como um futuro do passado. Assim: tão trágico e sem esperança.

Sinto-me uma velha com esses olhos insóbrios de tanto esperar.

Uma velha escondida entre os tantos romances avassaladores e eternos. Aqui, sentada, regando com esforço o hedonismo nas madrugadas de saudade.

Depoimento

Sonhou por semanas com o sujeito. Daqueles sonhos forçados pelo pensamento constante, e quando acordava, era atacada pela frustração de voltar à realidade, somada com o espírito preguiçoso de ter que viver, sem ele.

Quem se importa?

A cada passo da rotina, procurava o olhar que (lá no fundo, sabia) nunca mais poderia desfrutar.
Nenhum indício de sua presença poderia amenizar a dor da ausência. Até um pequeno pedaço de pano estampado com aquelas manchinhas, trazia à tona a sentença tão dolorosa: há muito tempo já não era sua companheira e amiga. E vice-versa.

Agora, sua mais fiel companheira era a saudade.

Não sabia se era mágica (das mais macabras), ou apenas força do pensamento (ela não era cética à isso?), acontece que o encontrava sempre que, quando andando distraída, seu pensamento chamava inconscientemente – e calorosamente – o nome. Era assim mesmo, como convocar com varinha mágica, ou teletransportar com a mente: só um nome e, shaaazaaan! Ele aparecia.

Falar em “magia do amor” quase soava cômico perante o instante de angústia.

A reação era sempre a mesma: com o pulo do coração, as mãos se moviam num movimento de aceno enquanto os lábios se levantavam num sorriso, que frustrado, esperava que o outro lhe espelhasse. Enquanto isso, a mente, com a ajuda dos olhos levemente distantes (será que ele perceberia?), captava o máximo possível da cena, que seria repassada pelas noites seguintes.

Afinal, os olhos não mentem, não é mesmo?

Presa ao histórico da vida meio esquizofrênica que tinha com o dito cujo, espantava a vontade de ter qualquer contato mais próximo, pois tinha medo do que poderia fazer quando o a corrente elétrica do corpo do indivíduo a alcançasse. Lembrava vagamente das conseqüências desse contato, já que seu cérebro insistia em guardar apenas a sensação dos toques, mas ainda assim, estava certa que era preferível que evitasse.

Hora após hora de um mês, ano após ano das cinco décadas seguintes, a pobre mulher repetia a cena. Sempre que o via, e sempre que deitava a cabeça nas películas do cinema que se tornava o seu quarto à noite.

Ignorava todas as datas românticas do ano: dia dos namorados, do pais, das mães e até o natal familiar… que passaram a significar apenas a evidência de que estava sozinha, sem seu mais querido e admirável gato malhado.

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Beatriz tem 68 anos e é fascinada por gatos. Para compensar a perda do primeiro, que teve o coração (e o corpo) roubados por uma felina de rua, hoje convive com 13 siameses, 4 balineses e 2 bengalis, mas nenhum deles conseguiu ocupar espaço do malhado em sua vida, que nunca mais retornou à sua casa. 

” Foi Apenas Um Sonho” de um final de semana…

Se há uma coisa que tenho pavor, é esse tal de tédio. Fujo do tédio como Harry Potter foge de Lord Voldemort (ok, essa foi horrível :P) , por isso esse final de semana consegui uns programas de final de semana, olha só que divertido!?!

Sábado fui ao ótimo Cinemark do Shop. Eldorado ver o novo filme de Sam Mendes (Beleza Americana): “Foi Apenas Um Sonho”(Revolutionary Road, em inglês), a expectativa – é claro – estava em torno da volta de um dos casais mais famosos da história cinematográfica. Kate Winslet e Leonardo DiCaprio se superaram nesse drama (Globo de Ouro merecido à Kate), que te envolve de tal forma a ponto de você sair com os ombros pesados e uma estranha sensação de angústia da sala. Uma história terna e contundente, cotidiana e extraordinária que se faz plausível em cada duelo de interpretação do casal (que passa o filme inteiro entre crises e discussões de arregalar os olhos).

Triste, o filme não é pra quem está esperando uma bela história de amor como Titanic; você pode até se emocionar com as poucas demonstrações de carinho que Frank Wheleer (Di Caprio) e April (Kate) fazem um ao outro e até mesmo rir com o leve tom de humor irônico que é trazido por Michael Shannon ( no papel de John – ótima atuação, diga-se de passagem), mas prepare-se para viver uma história pelejante e trágica. Um dica : não deixe de reparar na sensacional ambientação do filme… e se a obra não te agradar, passe o tempo tentando encontrar algum homem sem chapéu entre as cenas. Haha

Bom, eu não ia mesmo falar tanto sobre o filme, criticá-los não é meu ponto.. eu gosto mesmo é de assisti-los, mas enfim .. o resto do final de semana foi regado à Led Zeppelin, truco e cerveja ( essa última, não pra mim é claro).

Sabe, acho que as pessoas deviam fazer nada mais vezes: é estranho que eu tenha dito no começo desse post que tenho repúdio de tédio e agora expressar a minha disposição em não fazer nada, e essa é uma controversa que eu não saberei explicar; escutar boa música e rir com alguns amigos soa como corriqueiro, soa como “ não fazer nada”, e é sobre isso que eu falo: esse tipo de divertimento custa barato e vale muito a pena; é um trocar de informações.. um tocar de violões… um embaralhar de emoções que – se você parar pra reparar – é cada vez mais raro nesse dia-a-dia globalizado, por isso deve ser praticado e deleitado sempre que possível ou, de modo mais desesperado: sempre que necessário, afinal .. quem não precisa de um dose de rock e baralho nesse mundão de guerra e cascalho ? Ein? Ah, por favor .. comprem minha mensagem barata! Ela só precisa entrar na sua cabeça por um minuto, te fazer esboçar um sorriso amarelo no rosto e ir embora …

Depois você poderá voltar para os seus próprios conflitos e diversões e eu voltarei pra minha luta diária sem causa primária, rs ..

Boa semana !