Ela, eu, e o parabéns.

Então ela vem
De uma vez só
Muita vezes
Na rua, no quarto, enquanto olho para as paredes
Ou amarro meu turbante
Vem em forma de um cômodo vazio
De um lembrança cheia
Ou de um simples fumante
Alheio a tudo.

É súbita e aguda
Como quando a gente bate o dedo mindinho num canto
E são muitos cantos agora
E a dor não cessa nunca
Só se esconde entre risadas
E volta escancarada
Em lágrimas de saudade

Um quarto de século de vida
Três meses destituída
“Filha, deus te abençoe, muitos anos de vida”.
A dor vem
Eu engulo o seco e respondo
Para todo mundo
Obrigada, gente.

Estado

Status Quo

Acaso me queira, segundas, às oito ou oito e quinze, estarei na estação. Entre a primeira e segunda porta do vagão da frente, onde o sol poetiza a periferia.

Às terças, mais ou menos vinte e duas horas, vou atravessar o farol da Rua Padre Adelino com a Avenida Álvaro Ramos, guiada pela lua mutante, fixamente perdida em pensamentos não-ditos.

Às quartas, treze ou treze e dez, cruzarei algum ponto entre a Japão e a Antônio Felício, conversando com duas, três ou quatro mulheres entre risos pré-gastronômicos, que num lapso de hora transformam-se em tristeza anafada.

Quintas, às dezoito, meus pés apressados alcançarão a Avenida São Gabriel, contando vantagem de ligeirice entre os carros no trânsito, a caminho de alguém pago para me compreender.

Às sextas não me encontro.
Sábado, nem toco.
Domingo, domingo.

Assimetria

Foto by Bukowski
Eu odeio o amor
E em nada tema ver contigo
Com o beijo denegado
Ou o abraço repelido
Eu odeio o amor
E em nada diz respeito às suas noites
Que em nada tiveram a ver comigo
Zero atribuído a você
Que venera o desconhecido
Tanto quanto eu queria que me desejasse
Eu odeio o amor
E nada você poderia fazer
Senão me desse você
Se não me abominasse.

Lúgubre Grifo

O que te leva a insistir no que te angustia e de mim te priva?
Diz-me, amada querida, o que te faz preferir morrer à deriva?
Onde se esconde o desejo outrora tão encarnado?
Ainda existe a beleza por trás do vaso quebrado, eu sei que existe.

Sufocando a saudade no torpor do caminho.
Esganando a verdade no coração sozinho.

Onde arrumaste esta corda que só faz machucar, minha amada?
O pouco tempo que tens só está a passar, e tu marcada.
Cicatrizes não podem ser apagadas, mas pegadas podem se aliviar
O sentimento não morre enquanto se quer lutar.

O que te faz perder o que te faz amar?
Como encontrar coragem onde o vazio está?

Perdeu o jeito de se renovar, amor meu?
Mais uma vez, tarde demais? Eu sou seu.
Peço-te: não se engane e nem fuja menina.
Acasos não determinam uma sina.

Invalidez induzida na estrada comprida.
Morte poética na métrica da vida.

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“Há entendimentos longe de nossas explicações
Há explicações longe de nossos entendimentos”¹
¹ Sir Raphael Trevilato