Nota

O Nimoy e a Dona Rute

Essa semana morreu Leonard Nimoy, ícone nerd/pop intérprete do personagem Spock, cujo jargão, “Vida longa é próspera” é uma das frases mais famosas da história do entretenimento.
Nimoy tinha DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), resultado das décadas como fumante.

Essa semana está numa sala de UTI do Hospital Regional Sul a senhora Rute Correia Borges, vulgo minha mãe, ícone de luta pessoal/étnica/socialmente minimizada cujo jargão “au au” e “o que é certo é certo e o que é errado é errado” tornou-a conhecida entre muitas pessoas.
Dona Rute tem DPOC, resultado das décadas como fumante.

Nimoy parou de fumar 30 anos antes de morrer, aos 83 anos.

Dona Rute parou de fumar um dia antes da internação que já dura 56 dias, dos 67 anos que ela tem de vida.

Nimoy teve uma vida brilhante em seu ofício, criando, dirigindo, atuando e, então, consagrando-se como um dos atores mais talentosos da história do entretenimento.

Dona Rute, em seu ofício, deixava brilhante diversas superfícies, do chão à móveis, loucas, roupas. Consagrou-se como uma das empregadas mais talentosas da história de suas patroas. Não restava uma mancha.

Em seus últimos tweets, Nimoy escreveu sobre as consequências gravíssimas de seus anos como fumante, aconselhando seus seguidores a jamais darem chance ao vício, extremamente nocivo e cruel.

Em suas últimas palavras audíveis antes de colocarem um cano em sua garganta, Dona Rute, com a respiração ofegante e desesperada, balbuciou as palavras “Me dá… vida”.
A cena, que não ficará famosa como tantas já protagonizadas por Nimoy, seria altamente recomendada para qualquer pessoa que, por incentivo traumático, possa vir a nunca – ou nunca mais – levar um cigarro à boca.

Nimoy não conheceu Dona Rute e Dona Rute nunca ouviu falar de Nimoy, apesar de seus pulmões compartilharem da mesma história.

Confessionário 1 – Adotando livros

Ok, essa é a nova tag do blog. Veio na minha cabeça, depois que o assunto #twittesuainfancia bombou no twitter. Aí pronto. Comecei a lembrar das maluquices que fazia e surgiu esse primeiro texto.

Recentemente, o twittero @RapaduraMan postou coisas que ele aprontava quando menor, com a hashtag #crimesdeinfancia

POPUP: Hashtag é, basicamente, um link que “identifica” sobre o que o seu post se trata, isso facilita a pesquisa de interesses e assuntos relevantes, e serve como forma de ranquear os melhores papos.

 Foi o sopro que faltava para que eu iniciasse essa “série” por aqui.

Identifiquem-se, revoltem-se, divirtam-se, mas o mais importante: leiam.

Enfim?

Eu roubava livros da biblioteca da escola.

É isso mesmo, e quase chego a me orgulhar disso, e explico:

A Biblioteca da minha antiga escola não era bem assim…uma biblioteca. Era uma sala totalmente desorganizada e esquecida, em que se amontoavam os melhores escritores do século, apertados e perdidos no que deveria ser uma forma de divulgar cultura.

Olha o que diz em um dos livros que peguei:

“Este livro faz parte do acervo do Programa Nacional Biblioteca da Escola, composto por diversas obras literárias. Eles foram encaminhados a sua escola com o objetivo de garantir a vocês, alunos, alunas, professores, professoras, e demais profissionais da escola, o acesso à cultura, à informação, estimulando a leitura …”

 Aquilo, definitivamente não era “uma forma de garantir acesso à cultura informação e estímulo à leitura.” Aquilo era é uma forma de juntar ratos e baratas e, muitas vezes, um esconderijo para os casais mais assanhadinhos ºO

Então, eu resolvi “divulgar a cultura” por mim mesma (depois de ter me oferecido várias vezes para organizar a biblioteca e até ter tentado, uma vez). E aposto que faço direitinho o trabalho que o Ministério da Educação deveria fazer.

 Ok, se a minha mãe lesse esse post, ela diria:

Não interessa se a biblioteca funcionava ou não! Os livros não são seus, então você não pode pegar!

 Hmmm, é. Ou não. Acontece que, já naquela época, era ela quem se matava para trabalhar, garantindo o meu sustento. E 4 meses desse trabalho já iam para o governo! Que deveria destinar uma parte desses impostos pagos num programa de acesso à cultura que realmente ajude o povo a ser menos cabeça dura, e não que tranque numa sala de 4m² um montoeira de livros, implorando para serem usados 😉 #drama.

Então, foi assim que eu conheci Machado de Assis, Franz Kafka, Marcos Rey e Pedro Bandeira. Foi assim que eu consegui uma fileira de livros do que viria a ser (e está se tornando!) a minha coleção de títulos.

E eu empresto pra qualquer um que tenha o mínimo de cuidado.

Como “roubar” é uma palavra forte demais (hehe), eu digo que adotei os livros 😀

Porque era disso que eles precisavam, de alguém que lhes tratasse com cuidado e ouvisse o que tinham pra falar.

Esse post tem quase um cunho político, foi sem querer, mas se tiver que ser, então …

Hoje, sempre que posso, doo livros para uma biblioteca em Santo Amaro, de coração, porque ela é uma biblioteca viva. Amém, forever.