Estado

Diário de um golpe

Aqui onde
A mulher preta tampa
O rosto, a cor, a alma
Com base branca
Onde são quatro
Os filhos da moça
Dois descalços
Dois sem touca
Na cinza manhã fria
O orelhão ainda é
Uma ponte pra Bahia
Aqui onde
Sente como uma mocinha!
Preto não sai da linha
Que a senhora tricota
Com o cerne entristecido
Aqui onde
O homem vende espetinho
Alheio aos direitos dos bichos
E dos humanos
O chicote estrala na viela
O soco cala a boca dela
Eles invadem
Sem mandado, sem sequela
E eu sou livre
Para cobiçar o pulo
Da plataforma de ferro acobreado
Aqui onde todo dia é 64
E nada está nos trilhos.