Estado

Status Quo

Acaso me queira, segundas, às oito ou oito e quinze, estarei na estação. Entre a primeira e segunda porta do vagão da frente, onde o sol poetiza a periferia.

Às terças, mais ou menos vinte e duas horas, vou atravessar o farol da Rua Padre Adelino com a Avenida Álvaro Ramos, guiada pela lua mutante, fixamente perdida em pensamentos não-ditos.

Às quartas, treze ou treze e dez, cruzarei algum ponto entre a Japão e a Antônio Felício, conversando com duas, três ou quatro mulheres entre risos pré-gastronômicos, que num lapso de hora transformam-se em tristeza anafada.

Quintas, às dezoito, meus pés apressados alcançarão a Avenida São Gabriel, contando vantagem de ligeirice entre os carros no trânsito, a caminho de alguém pago para me compreender.

Às sextas não me encontro.
Sábado, nem toco.
Domingo, domingo.

Máquina da Angústia

Dentro do quarto disforme, alguma coisa se agita incansavelmente, deixando o ar pesado e árido, quase impossível de inalar (antes não fosse possível…)

Líquido vermelho é distribuído e, logo depois, retirado numa carreira de linhas azuis e vermelhas que trabalham com rapidez incomum, como se respondendo às ordens de alguém com muita pressa, ou muita bravura. (Sendo a segunda opção a mais próxima da realidade…)

Algo ácido se mistura com o líquido vermelho, causando uma sensação de enjoo já conhecida pela construção que comporta o quarto: aquela revolta irritante dos fluidos impulsionados pelo liquidificador que, ao mesmo tempo que os mistura, vai dilacerando cada parede de quarto, abrindo feridas que há muito não ficavam expostas, e trazendo à construção um ar cansado e triste.

Para melhorar a confusão, tudo vira-se de cabeça pra baixo, e depois volta ao normal, para tornar a virar, numa sádica brincadeira desordenada que faz o prédio balançar e, por vezes, desabar em cinzas, para reerguer-se em seguida, como Fênix.

No decorrer dessa agitação cotidiana, a garota sente cada vez menos vontade de permanecer, até por que, absolutamente perdida se sente, nos labirintos da construção que a sustenta há 19 anos.

(Que injustiça perder-se nas próprias bases…)

Cinza e frio, o cimento-alicerce à garota serve como consolo, subtraindo o sonho pela necessidade de manter-se erguido.

Lixos de uma quase sexta-feira

Faz tempo que eu não tenho tempo.

E o pouco tempo que me sobrou nesse final de quinta-feira eu estou usando pra falar de algo que não interessa nem a você, e acho que nem a mim.

Algo que eu nem sei o que é, e que só escrevo pelo prazer do barulhinho das teclas no ecoando pelo quarto, junto com o zum zum zum do meu cooler.

Há tanto para dizer e tão pouco pra escrever. Só coisas assim: sem muito sentido, como essa frase.

Insisto em continuar com o barulhinho:

Posso dizer que moro há 13 anos num bairro que, finalmente, foi asfaltado hoje. (Que vergonha, Brasil!)

Hoje a noite estava absurdamente linda e isso, infelizmente, não combinava nem um pouco com o meu humor cansado.

Estou cansada de usar aparelho.

Ando reclamando tanto para mim mesma sobre todas as coisas, que já não me agüento. Nessas que eu realmente desejo ser Bipolar, como os outros costumam dizer que sou.

Nos últimos dias, cogitei a possibilidade de usar salto, hipótese que foi temporariamente descartada, já que isso não só aumenta o meu potencial de desequilíbrio, mas também não acrescenta nada no meu andar deselegante.

Antes de ligar o computador para escrever esse post inútil, pelo menos umas 15 coisas diferentes passaram pela minha cabeça, e sumiram no segundo seguinte.

Preciso de um gravador, e isso foi a única coisa que descobri nesse bla bla bla todo, que ninguém, nem o Google Reader, quer saber. Além de, é claro, constatar que, realmente, eu não acho bacana posts autobiográficos.

PS: Já já volto com os meus minicontos.

O fragmento de prosa poética usurpado pelo “Texto Fantasma”

Se você ler o post anterior a este, vai descobrir que acabei me dedicando a escrever sobre a dificuldade de escrever, do que ao que queria realmente escrever. (confuso, assim mesmo :P)
Posto abaixo um pedaço do que estava tentando redigir, é como o making of do conto Texto Fantasma.

Dessa vez, não tem problema se só eu entender o que eu disse, quero deixar registrado para deixar registrado (pra quem é essa teimosia toda? Hahahaha)

“Here Comes The Sun”, dos Beatles, é a música que traduz o exato sentimento do momento, a musica que traduz o que eu não consegui traduzir em palavras (aliás, consegui, mas ficou um desastre!).

Leia ouvindo-a 😉

Foi só um instante, mas foi xD

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O Fragmento de Prosa poética Usurpado Pelo Texto-Fantasma 

E o imã chegou. Juntando com cuidado cada pedaço de uma sensação há muito não vivida.
A íris distorcida, a pupila dilatada, o olhar prejudicado pelas lágrimas. As mãos juntas em descrença, o coração inflado (e apertado) por segundos suficientes para a respiração falhar.

Quanta surpresa suporta um coração quebrado?

Tum-tum, tum-tum, tum-tum…
Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac…

Naquele instante, o ritmo do tempo pareceu se adequar ao do coração.
Uma nuvem de fogo cobriu o gelo, derretendo até a última molécula de ar, fazendo do minuto – tão atordoante – o melhor em mais de 300 dias congelados. Faltaram palavras, ação, e até um pouco de crença.

Quanta alegria cabe num peito desalmado?

Quem liga? Uma maravilhosa fresta de sol apareceu!
E eu amo o verão.

Branquitude

A mãe o encontrou mergulhado na bacia de água sanitária. Desesperada, tratou logo de puxá-lo de qualquer jeito para fora d’água. Foi difícil.
O garoto esperneava, chorava e se jogava de novo e de novo na bacia, reclamando aos gritos que ainda não dera tempo de ficar branco e limpo como tinha prometido aos ídolos mirins da escola.

Ensandecer

Quarta feira, vinte e três horas e quarenta e cinco minutos de uma noite gelada em São Paulo.
Sentadas nos bancos frios, as pessoas se recostam em seu espaço como podem, ou acotovelam-se no corredor cheio de mochilas e pastas. Estudantes, na certa. Eu também.

Transporte público não é muito divertido, principalmente quando você está perto de desabar de sono ou cansaço, depois da batalha diária. Mas, naquele dia, ao menos alguma coisa aconteceu. Alguma coisa que despertou alguns da sonolência, irritando-os. A mim, apenas divertindo. Até que enfim.

Sentado no banco do motorista, o homem inquieto apertava cada vez mais o fone no ouvido, talvez na esperança que pudesse fazer parte do universo que ouvia; então, durante as manobras nas curvas molhadas pelas quais direcionava o ônibus, ele gritava, num surto de emoção visível em seus olhos repentinamente arregalados:

– TIRA ISSO DAÍ! ….ACABA LOGO COM ISSO PELO AMOR DE DEUS!

Eu ria. Me divertindo com o nervoso do homem, que, no limite das possibilidades, dava pulos em sua cadeira e se mexia sem parar. Alguns passageiros reclamavam aos sussurros da imprudência do homem.

– Como ele pode dirigir desse jeito? Vai acabar batendo o ônibus!
– Gente assim não tem jeito não … é doença.

Foi nessa hora que eu me dei conta da loucura do homem. Não a loucura que era dirigir um ônibus enquanto envolvido em outra atmosfera (ele quase parecia cego), mas a loucura que o fazia dirigir um ônibus, mesmo totalmente disperso. Devia ser doença mesmo, loucura das bravas!Eu nunca via pessoas tão apaixonadas por uma coisa daquele tipo, dava pra ver que a tensão que emanava do motorista envolvia cada um que fazia parte da “espécie”, inclusive eu. Bipolaridade talvez? Quem sabe…

– SAI, SAAAI! … UUUUUHH! AÊÊÊÊ, JÁ DEU! JÁ DEU! 3 MINUTOS? PUTA MERDA!

Os três minutos seguintes, pareceram durar 10, pra mim. O coitado devia estar com a sensação que duravam, pelo menos, mais 45min.

– AEEEEW JUIZÃO! ACABOOOU! TAMO NA FINAL ! VAAAAI CORINTHIANS!!! “AQUI TEM UM BANDO DE LOUCO ….”

E a gritaria durou até que eu deixasse o ônibus, sorrindo com a situação, e com o alívio de saber que tudo tinha acabado bem, pelo menos aquela noite.
O homem, ah, ele não estava sozinho apesar de sua voz ser a única a explodir naquele espaço, pelo menos mais 25 milhões de corações espalhados pelo Brasil gritavam o mesmo hino, a mesma vitória.

Deitei-me aquele dia ainda com a cena em minha cabeça, o sorriso no rosto e uma música de fundo que dava o tom perfeito pro acontecimento.

♪ “…. eternamente, dentro dos nossos corações …” ♪ 

“Yes, Man!”

Vale a pena ver “Yes, Man!” no cinema? Sim, Senhor!

Quarta feira sempre pede cinema certo ? Mais barato e mais vazio que nos finais de semana, então aproveitei a minha última semana livre 🙁
Mesmo sendo suspeita pra falar (eu sempre rachei de rir com as caras e bocas do Jim, ainda que sejam as mesmas caras e bocas em todos os filmes), não posso deixar de reforçar : ele está realmente muito, muito engraçado nesse .. misturando o sarcasmo característico dele e até um pouco de seriedade, dessa vez ele não é um completo palhaço debilóide – com o perdão do trocadilho – como na maioria dos filmes que marcaram sua carreira, obviamente, ser debilóide não tira o mérito de suas atuações.

Hmm, o filme já ganhou a mim pelas paródias que foram feitas com Harry Potter, me identifiquei com o ator que faz o Rony, não sei porquê. Hehe

Bom, é isso.
Rs, poderia mesmo falar apenas isso pois o filme não tem nada de tão extraordinário, de tão diferente dos mas é melhor que uma porção de comédias que lançaram nos últimos tempos: tem nexo, um pouco de romance (na dose – e química – certa), boas piadinhas e… bom , tem o Jim Carrey mostrando sua excelência em comédia 😉

Se você é daqueles que acredita na reação do público como medidor de uma boa arte, então devo ressaltar :
1 – A sala explodia em riso quase o tempo todo
2 – Chegaram a bater palma em uma das cenas (não conto, não conto)
3 – As expressões que se ouviam no final eram : “Muito bom!”, “ Vou trazer fulano pra ver!”, “ Ele ( Jim) é o melhor!”

Bom, é isso. (tive uma professora que dizia pra eu nunca concluir uma coisa dizendo “ É isso.” … hmmm … desculpe Professora.)

“Sim, senhor!” é um ótimo programa pra um fim de dia estressante no trabalho, ou pra um dia tedioso pra quem está de bobeira, afinal, não é todo dia que se pode ver o Terrence Stamp correndo 😛

Saiba mais em: Omelete.

A mosca

Minha mãe diz:
– Parece mosca! Tira e não põe no lugar, tira e não põe, tira e joga …
E eu me pergunto : mosca faz isso ?

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NOTA: Vou passar a postar textos/poemas e frases que eu escrevia num velho caderno que achei, convenientemente, esta noite no meu gurda roupa. São todos de quando eu era bem novinha: 13/14/15 anos.
[Texto escrito no mês 07/2005]

Revelação Contrária

Sua “caneta” digital não se movia há dias. De tão inutilizadas, as teclas de seu teclado eram agora um tapete muito convidativo à poeira já inerente do escritório. Não tinha nada na cabeça e isso o perturbava como nunca.

Desde que entrara naquela sala pela primeira vez, seu ofício era pensar: e fazer com que seus leitores se identificassem com seu sentimento forjado e suas idéias de uma vida melhor propositalmente comerciais e irresistíveis.

O cursor piscava desesperadamente na tela do monitor – também empoeirado – como se dissesse: “Mova-se, mova-me.” inúmeras vezes.

Há anos fora incumbido de desenhar com palavras o caminho para a felicidade dos outros, e isso (pensara inocentemente) lhe serviria como base para o traçado de sua própria felicidade. Coitado.

Escondeu o rosto em suas mãos, esperando que o vazio dos olhos lhe mostrasse a luz que lhe daria o reconhecimento do dia seguinte. Foi em vão. Digitou ao menos 15 vezes a mesma palavra: “pense” , numa tentativa de indução do cérebro pela repetição..
Acordou. Então era isso : a repetição, não! A mudança !

A robótica de suas ações havia, inevitavelmente, enferrujado. Ocorreu-lhe então que as palavras que tanto buscava não podiam ser descobertas sem que ele mudasse o curso de seu raciocínio, justamente a novidade lhe proporcionaria estabilidade, e a mudança lhe traria bonança.

Naquele momento de revelação, seu computador apagou junto com a luz geral do prédio, lamentou não poder colocar sua claridade mental espontânea em ação de imediato, mas sabia que ela seria durável o suficiente para que ele voltasse ao escritório pela manhã e limpasse de bom grado seu teclado empoeirado. Seria então o que havia sido há 47 anos: novo.