Máquina da Angústia

Dentro do quarto disforme, alguma coisa se agita incansavelmente, deixando o ar pesado e árido, quase impossível de inalar (antes não fosse possível…)

Líquido vermelho é distribuído e, logo depois, retirado numa carreira de linhas azuis e vermelhas que trabalham com rapidez incomum, como se respondendo às ordens de alguém com muita pressa, ou muita bravura. (Sendo a segunda opção a mais próxima da realidade…)

Algo ácido se mistura com o líquido vermelho, causando uma sensação de enjoo já conhecida pela construção que comporta o quarto: aquela revolta irritante dos fluidos impulsionados pelo liquidificador que, ao mesmo tempo que os mistura, vai dilacerando cada parede de quarto, abrindo feridas que há muito não ficavam expostas, e trazendo à construção um ar cansado e triste.

Para melhorar a confusão, tudo vira-se de cabeça pra baixo, e depois volta ao normal, para tornar a virar, numa sádica brincadeira desordenada que faz o prédio balançar e, por vezes, desabar em cinzas, para reerguer-se em seguida, como Fênix.

No decorrer dessa agitação cotidiana, a garota sente cada vez menos vontade de permanecer, até por que, absolutamente perdida se sente, nos labirintos da construção que a sustenta há 19 anos.

(Que injustiça perder-se nas próprias bases…)

Cinza e frio, o cimento-alicerce à garota serve como consolo, subtraindo o sonho pela necessidade de manter-se erguido.

Lixos de uma quase sexta-feira

Faz tempo que eu não tenho tempo.

E o pouco tempo que me sobrou nesse final de quinta-feira eu estou usando pra falar de algo que não interessa nem a você, e acho que nem a mim.

Algo que eu nem sei o que é, e que só escrevo pelo prazer do barulhinho das teclas no ecoando pelo quarto, junto com o zum zum zum do meu cooler.

Há tanto para dizer e tão pouco pra escrever. Só coisas assim: sem muito sentido, como essa frase.

Insisto em continuar com o barulhinho:

Posso dizer que moro há 13 anos num bairro que, finalmente, foi asfaltado hoje. (Que vergonha, Brasil!)

Hoje a noite estava absurdamente linda e isso, infelizmente, não combinava nem um pouco com o meu humor cansado.

Estou cansada de usar aparelho.

Ando reclamando tanto para mim mesma sobre todas as coisas, que já não me agüento. Nessas que eu realmente desejo ser Bipolar, como os outros costumam dizer que sou.

Nos últimos dias, cogitei a possibilidade de usar salto, hipótese que foi temporariamente descartada, já que isso não só aumenta o meu potencial de desequilíbrio, mas também não acrescenta nada no meu andar deselegante.

Antes de ligar o computador para escrever esse post inútil, pelo menos umas 15 coisas diferentes passaram pela minha cabeça, e sumiram no segundo seguinte.

Preciso de um gravador, e isso foi a única coisa que descobri nesse bla bla bla todo, que ninguém, nem o Google Reader, quer saber. Além de, é claro, constatar que, realmente, eu não acho bacana posts autobiográficos.

PS: Já já volto com os meus minicontos.

Sua filha que se chama Ideia

Li um post no twitter hoje: “como concretizar a criatividade?”, e fiquei me perguntando como pode uma pergunta que está na sua cabeça há dias ser proferida pela boca – no caso, pela timeline – de outra pessoa?

Putsgrila, quando você acha que tem a ideia mais incrível do universo (alguém acha isso?), um santo criativo vai lá e pimba! Transforma a sua genialidade em uma cópia muxuruca.
Às vezes, eu acho mesmo que, assim como as ondas sonoras estão passando por nós sem que possamos vê-las, os pensamentos também trafegam pelo ar e – para o azar de muitos publicitários, por exemplo – entram na cabeça de alguém alheio, ou pior: alguém do seu lado.

Ok, você vai pensar que isso que eu estou dizendo é uma viajem (mais que as das ondas sonoras), que eu provavelmente bebi antes de escrever esse post, ou coisa assim.

Bingo! Para a primeira hipótese. Dizem que viajar faz bem.

Pois então, o que eu quero dizer com esse blá blá blá não é blá blá blá: nesse mundo com tantas cabeças pensantes, é importante que sejamos como nossa mãe assim que nos deu à luz: saiu contando para todo o universo que tinha criado algo novo.

Imagina se ela tivesse escondido a novidade? Que graça teríamos nós? Saca qual é?

Uma ideia é como um filho: tem que ser posto para fora de qualquer jeito.
Esconder uma ideia é ir contra a natureza humana. Viu como é filosófico?
Mas não é para ser filosófico, é para ser prático.

Escrevo isso não só para todos que lerão esse post algum dia, mas também para mim mesma, que – como qualquer criativo – sempre estou grávida. E, muitas vezes, parto uns bichos esquisitos, feinhos, tipo E.T. mesmo.

E, enquanto o meu lado anjinho diz “Assume que o filho é teu”, o diabinho cutuca “Isso não serve para nada”.

Serve. Sempre serve. Mesmo que só para lotar a lixeira do seu PC.

A única serventia que tem uma ideia guardada, é ser agonia de não ter dito nada.  

#etenhodito
__________

Gessica Borges é publicitária em formação, leitora por vocação, escritora em construção e criativa em constante contradição: tem um montão de idéias guardadas. 

Estado

O meu 2009 e que 2010 seja 10 (?!)

Todo ano é a mesma coisa: fim de ano, renovação, e blá blá blá vida nova .. Ei! Vida nova? A minha já tem 19 anos!!! *suspiro*

Ano passado não teve o último post do ano, porque o blog ainda não fez aniversário, mas esse ano aqui estou eu, escrevendo o que vai aparecer como último da lista nas “postagens de 2009.”

Chamo esse post de “Os 3”. Primeiro porque 3 é um número cabalístico (666), e depois porque listarei a seguir 3 coisas de cada coisa que marcou, para mim, o ano de 2009.

 Nada abaixo é crítica, certo? Já disse que não tenho o dom pra discriminar o que é ou não bom pra humanidade. Até porque, já dizia a minha mãe, gosto é que nem ahnn .. umbigo, cada um tem o seu 😉

 (isso soa bem diplomático, e é pra soar mesmo (Y))

MÚSICA

And the Oscar goes to …

 Ninguém, porque (já disse, caramba!) isso não é uma crítica. Além do mais, cada momento pede uma música, né? Pois é.

 Destaco entre as marcantes “Paciência” do Lenine e Dudu Falcão.

UAU.

A letra me pegou de jeito, porque paciência é uma virtude para poucos, que eu tive que praticar MUITO esse ano.

Paciência pra não abrir a boca

Pra esperar a próxima hora, mês, nota.

Paciência pra lidar com as expectativas (minhas e de todos)

Paciência pra não mandar pra aquele lugar o meu vizinho que resolveu fazer Festa Sertaneja quase todos os sábados do ano. hehe

Ainda com música, tivemos o lançamento do novo CD do 30 Seconds to Mars, uma banda pela qual eu sou apaixonadamente fascinada.

Aliás, “This is War” já está nas lojas de todo o Brasil! … e também nos sites de downloads de sua preferência 😉

E o eletrizante CD “Death Magnetic” do Metallica? PQP, não foram poucas as vezes que eu gritei Cyanide até ficar com dor de cabeça . Foda, foda mesmo. Nem preciso dizer que é imperdível pra quem gosta de Metal, né? Preciso? Tá, então, PORRA! É IMPERDÍVEL!

Já foram 3. E eu nem falei de Rammstein, Kiss, e Diana Krall- Live in Rio (é isso mesmo!).

E … e .. e… bom, gente que ama música tentando escolher “prediletas” é complicado u.u

FILMES

Complicou ainda mais …

God, acho que vou desistir de listar “Os 3”.

(tic tac tic tac tic tac tic tac)

Pronto, desisti.

Mas não posso deixar de falar da minha excitação com Watchmen (tive ataques de prazer na sala do cinema com a excelência com que o Zack Snyder tratou a história Zack, sou sua fã, beijomeliga!

Como uma fã que se preze, também tive crises (não tão prazerosas assim) com Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Apesar dos pesares (com exceção do 3º filme da série, todos os outros excluíram uma parte que, para mim, era crucial pra qualidade da película), eu gosto da direção do David Yates, ele é sombrio e ousado, o que traz pros filmes uma áurea mais “adulta”, por assim dizer.

Bastardos Inglórios (Quentim, meu amor!), Inimigos Públicos, O Lutador, Up.

Felicíssimos filmes, que me deixaram extremamente satisfeita xD

E – notícia de última hora – um gadget será adicionado ali do ladinho na tela, listando os filmes que eu vi (e lembrei de ter visto) esse ano. Isso significa que: por algum motivo eles marcaram. A legenda é:

¬¬ Aff

:S Chatinho / Clichê demais / Perdi meu tempo

🙂 É bom, ein?!

XD ADOREI! (esses vocês podem tomar como indicação, se ainda não conhecerem)

Há alguns já velhinhos, que eu só conheci agora 😛

Segredo: eu guardo praticamente todos os tickets de cinema, por isso lembrei da maioria deles 😀

Avatar? Pô, Avatar é legal. E nada mais que isso. A maior colagem de clichês que eu já vi na vida, uma colcha de retalhos absurdamente comum. Que pena.

E o que eu disse no twitter, repito aqui: O comercial da Centauro em 3D que passa antes de começar, ficou melhor que o 3D do filme todo :S

Não posso negar que o filme tem um visual lindo, a personagem da Neytiri consegue tocar, e as cenas finais com os Banchees voando por Pandora é encantadora.

Infelizmente, nada disso conseguiu me tirar a sensação de “Puta merda, já vi isso antes!”.

LIVROS

Conheci o gênio Gabriel García Márquez. Uau. Recomendo, o cara é muito, muito bom no que faz, não é à toa que tem um Prêmio Nobel de Literatura.

Na área da publicidade, Criação sem Pistolão me fez ter certeza de que, por Deus, é isso MESMO o que eu quero fazer da minha vida. Muito Obrigada Carlos Domingos!

Finalmente comecei e terminei de ler O Mundo de Sofia por Josien Garder. Fascinante. O cara vai traçando a história com um jeito muito especial de ensinar filosofia. O livro exige dedicação e concentração para não perder o fio da meada, mas quando a história engaja na sua cabeça, pronto! É só se divertir aprendendo. Leiam , faz bem pra inteligência.

NOVIDADES

No começo do ano estava totalmente sem expectativas. Fim da escola (um ciclo de 11 anos!), inevitavelmente, menos tempo com amigos. E agora? Quem poderá me defender?

Eis que surge a faculdade! Aêêê!

A notícia da bolsa de estudos foi, com certeza, a melhor do ano.

Sonhar eu até sonhava, mas só nessa perspectiva eu poderia estudar na Anhembi Morumbi, no curso que eu quero fazer há tempos e de grátis!

Dear God… *-*

Pra balancear (não apagar) com a falta que algumas coisas fizeram esse ano, eu tive pouquíssimo tempo livre e um grupo ABSOLUTAMENTE fodástico em sala de aula. Colaboradores, divertidos, criativos, e Nerds! Ueeeeba 😀

Sem falar nos professores! E as matérias e, e , e … nossa! A faculdade me trouxe tanta coisa bacana, que nem cabe em um post só.

Trouxe o Tiago Moralles junto com a paixão pelos minicontos, que trouxe, inclusive, esse blog.

Dois mil e nove foi mesmo um ano NOVO (como a gente costuma desejar que seja, todo dia 31 de dezembro).

O ano de trabalhar com um tal de Walter Merege. Gerente de Tecnologia da SEMP e um dos caras mais legais que já conheci. Sarcástico, irônico, seco, inteligente, educado, metaleiro nato, maluco por HQs e Filmes. (é bem possível ser tudo isso, believe me) o/

Me levou pro show do Kiss e fez (sem precisar fazer nada) com que eu viciasse em The Beatles.

Infelizmente, eu não posso colocar aqui tudo que me fez sorrir ou chorar, sorrir E chorar, mas vale o post pra eternizar mais um ano de vida, surpresas e aprendizados.

E eu posso falar, com uma segurança ainda nova para mim, que… poxa vida! Eu cresci.

 A todos, o pior slogan do mundo, de coração: Que 2010 seja 10!

Texto Fantasma

00:15

Mais uma vez, o cursor piscava desesperadamente na tela do computador.
A música de fundo sorria da cena deprimente: “Just a little patience…”. O copo de café pela metade, as mãos juntas num ritual desconhecido, o olhar distante: meio cansado, meio viajante.

00:30

Mais uma vez, a procura pelas palavras certas no momento errado.
A melodia assoviada parecia zombar da situação, aquilo não era nada tranqüilo e calmo. Apesar do silêncio do lado de fora, a cabeça gritava velhos versos e poesias. Por que quando se quer escrever algo novo, as idéias já usadas vem à cabeça? Não pareciam servir pra nada.

01:00

Mais uma vez, o corpo tenso.
O backspace sendo esmurrado a cada frase mal desenhada. “Não é isso que eu quero dizer!”, o sentimento é sempre muito maior que as palavras, e esse bendito gosto pela escrita que não deixa a tela preta assumir o lugar desse branco – hoje, tão assustador.

01:30

Mais uma vez, uma página.
Uma maldita página que, sozinha (coitada), conseguia destruir tudo o que não foi escrito. A música parou, o café acabou, o ar esfriou. E agora, José?

02:00

Mais uma vez, os motoqueiros começam a curtir a festa.
Todos drogados e felizes, irritando a vizinhança e, aqui dentro, fazendo a cabeça começar a latejar. Ah, não! Só mais um pouquinho! Só mais uns minutos de saúde, antes da derradeira explosão da dor noturna. Os lábios contraídos em sinal de alerta, qualquer coisa que sirva de médium para o coração, qualquer coisa serve.
Mais uma estrofe. Mais um estrago. “Mais café, por favor!”

02:30

Mais uma vez, os olhos percorrem o quarto.
Não pode ser tão difícil assim descrever uma sensação. Não pode ser tão complicado assim ler o coração! Mas é. De repente, uma constatação: o amadurecimento. Os versos pateticamente rimados da adolescência já não servem mais. Uma surpresa tão boa quanto a dessa noite merece coisa melhor que uma recompensa adolescente, ou assim, tão desconexa e confusa, como a mente que escreve esse texto.

03:00

Mais uma vez, a releitura da página escrita, na busca do engajamento literário.
Nada.
As batidas agudas na cabeça aumentam, os cílios superiores criam, de repente, uma atração avassaladora para com os cílios inferiores. A razão (e o que resta da consciência) fica dividida entre a persistência e o aviso de que a jornada de trabalho está próxima.

03:15 (ou 03:30, quem sabe…)

Mais uma vez, a decepção com a perseverança, abatida pela borracha da incapacidade criativa (a essa altura, mais parecida com uma insensibilidade emocional). Mouse movido para o canto superior da tela. E o clique no “x” do desassossego.
“Deseja salvar as alterações?”
Nenhuma vale a pena ser salva.

Finalmente, mais uma vez, o escuro psicodélico dos sonhos e os flashes felizes do desejo.
Quem dera esses pudessem ser salvos…

Branquitude

A mãe o encontrou mergulhado na bacia de água sanitária. Desesperada, tratou logo de puxá-lo de qualquer jeito para fora d’água. Foi difícil.
O garoto esperneava, chorava e se jogava de novo e de novo na bacia, reclamando aos gritos que ainda não dera tempo de ficar branco e limpo como tinha prometido aos ídolos mirins da escola.

Carta de uma jovem velha

Não sei se poder inconsciente de um livro, ou fato consciente da vida, hoje descobri: sinto-me uma velha. Dessas que viveram à toda atrás de um amor, ainda que aqueles de verão.

Invejo quem pode se apaixonar, sem vergonha do colorido das palavras, do sustenido do coração… tão óbvio, tão adolescente. Um coração quente que não se pode gelar, nem pela morte.

Sinto-me uma velha ao observar o comportamento dessas crianças, sempre radiantes, combinando com os dias intermináveis de sol .
Enquanto eu, aqui, sentada a olhar as nuvens sem forma, o ar denso e triste, os passos apressados dos corações descompassados de tanto amor.

Meio século se passou desde o primeiro beijo apaixonado, e nada é como se fosse ontem, mas sim como um futuro do passado. Assim: tão trágico e sem esperança.

Sinto-me uma velha com esses olhos insóbrios de tanto esperar.

Uma velha escondida entre os tantos romances avassaladores e eternos. Aqui, sentada, regando com esforço o hedonismo nas madrugadas de saudade.

O que realmente importa?

Apesar do título aparentemente “polêmico” o poema abaixo não trata de nada político, também não diria que social.
Na verdade, não sei do que o poema abaixo se trata, já que foi escrito em 10 minutos numa sala de aula muito barulhenta. Eu tinha 16 anos e estava realmente entediada com a aula, aí peguei um papel qualquer e fui “telepatiando” o que vinha na cabeça.
Saiu isso aí.

______

O que realmente importa?
A beleza meio morta?
Ela entra em sua porta?
Ela chove na sua horta?

O que realmente importa?
A paixão incandescente?
O que o seu coração sente?
Quem você quer de presente?

O que realmente importa?
Você está apaixonado?
Pela vida ou por um lado?
Só o lado comentado …

Quem te invade a porta?
A beleza de não ser morta?
A alegria mórbida?
O conformismo importa?

O que é ser belo?
O cabelo?
O camelo?
Seu espelho te reconhece?
Me confessa a sua prece!

O pé feio
Nariz no meio
Da cara murcha
Parece a Xuxa
Cara de bruxa!

A Keka
A Cuca
A Luka
“To nem aí!”

O que realmente importa?
Você não me suporta?
Eu passo na sua porta?
Eu nasço na sua horta?

Cara de cú
Bunda de cara
Torta na cara!
A cara torta …

O que realmente importa?
O meu conceito?
O seu direito?
Você não gosta?
Cianureto.

O que a gente faz?

E quando a gente fica assim, como se diz? sentimental demais? Não, eu devo ser menos poética: e quando a gente fica assim..idiota? Sim sim … aqueles velhos sintomas: escutar a mesma música melódica por horas seguidas (que te faz chorar no refrão), tentar escrever algo que alivie o que você sente (na esperança de que alguém leia e sinta o mínimo de compaixão por você [ohh, que triste!]), ou só ficar de olhos fechados olhando pro escuro psicodélico.. forçando releases dos momentos mais marcantes da sua vida.

E quando a gente fica assim …idiota? O que a gente faz?Esquecemos o conteúdo intelectual que temos e fazemos joguinhos com as palavras e dizemos nas entrelinhas o que (obviamente) só nós iremos entender?

E quando a gente fica assim, idiota, pra quem a gente escreve, Idiota?

Talvez eu tenha descoberto a utilidade de uma personalidade dupla: suportar a agonia, desesperança e ilusão de nós mesmos, nesses dias que a gente fica assim..idiota.

Quem fica?

Idiota! Você fica. Você quem? Eu? Quem de mim sou eu? Quem de mim sou eu AGORA?
No final das contas, o diálogo entre eu e eu mesma não é apenas um monólogo? Sozinha …

Nem o maior romancista do universo poderia considerar esse texto uma discussão filosófica.
Até o mais ignorante dos seres identifica aqui, nessas linhas tortas e inelegíveis, o que é (foi e vai ser) a maior frustração humana. Afinal, quem não ama?

Wergeland, Novalis e Goethe me entenderiam. Estou certa de que mais do que qualquer um dos meus “Eus”.

“Se o cérebro humano fosse tão simples a ponto de conseguirmos entende-lo, seriamos tão idiotas que não conseguiríamos entende-lo” Jostein Gaarder em O mundo de Sofia.  

Estado

Um quase-melodrama sobre a amizade

Tantas pessoas já dedicaram tanto tempo de suas vidas tentando definir a amizade! Sim, isso é quase um lamento caros leitores, porque é muito, realmente muito complicado expressar em palavras, gestos, músicas, filmes, etc … a relação entre verdadeiros amigos.

Não me isento desta condição de pensadora , eu mesma já escrevi poemas para quase todos os meus amigos. É claro, nenhum deles ficou realmente bom, digo até que esta série “Poemas para Amigos” foi a pior que já fiz. Porque, mesmo que usasse as palavras mais bonitas e descrevesse belamente os momentos íntimos que tive com cada um deles, nada seria suficiente pra tratá-los com tamanha grandeza da qual eu sempre fui tratada pelos que prezo.

Lá vamos nós de novo, a caminho de mais um texto melodramático sobre a importância da amizade, a singular relação com uma pessoa que está do seu lado pra tudo e blá blá blá …
Não vamos, não.
Eu realmente ficaria horas por aqui se tivesse que falar desse assunto. Tantas águas claras e tantas tavernas, tantas fantasias e realizações e tantas outras privações eu passei, que nem mais sei o que dizer sobre isso. Isso. O ser amigo: fiéis, volúveis, rancorosos, ignorantes, amáveis, compreensivos, inteligíveis, misteriosos, instáveis e permanentes.

Tenho todos eles. E sou muito (muito mesmo), grata por isso.

Abaixo, três pensamentos sobre a amizade que eu postei no meu twitter no Dia do Amigo (20 de Julho, provável potência comercial nos próximos anos ¬¬)

No meio da noite você lembra dele, sorri com isso e volta a dormir com uma inexplicável sensação de alívio pela sua existência.

Provavelmente não vai poder te ajudar em porra nenhuma quando alguém próximo da sua família morrer, mas vai estar por ali. Óh.

É claro que vai insistir pra dormir no colchão quando for pra sua casa. Puta psicologia inversa. E de manhã ainda pisa em você.

A todos os companheiros que estão comigo hoje, que já estiveram e os que voltarão a estar ( I believe), o meu abraço-do-urso-flácido e riso escandaloso.

Gessica com ge em fotos com alguns de seus amigos . 

Ensandecer

Quarta feira, vinte e três horas e quarenta e cinco minutos de uma noite gelada em São Paulo.
Sentadas nos bancos frios, as pessoas se recostam em seu espaço como podem, ou acotovelam-se no corredor cheio de mochilas e pastas. Estudantes, na certa. Eu também.

Transporte público não é muito divertido, principalmente quando você está perto de desabar de sono ou cansaço, depois da batalha diária. Mas, naquele dia, ao menos alguma coisa aconteceu. Alguma coisa que despertou alguns da sonolência, irritando-os. A mim, apenas divertindo. Até que enfim.

Sentado no banco do motorista, o homem inquieto apertava cada vez mais o fone no ouvido, talvez na esperança que pudesse fazer parte do universo que ouvia; então, durante as manobras nas curvas molhadas pelas quais direcionava o ônibus, ele gritava, num surto de emoção visível em seus olhos repentinamente arregalados:

– TIRA ISSO DAÍ! ….ACABA LOGO COM ISSO PELO AMOR DE DEUS!

Eu ria. Me divertindo com o nervoso do homem, que, no limite das possibilidades, dava pulos em sua cadeira e se mexia sem parar. Alguns passageiros reclamavam aos sussurros da imprudência do homem.

– Como ele pode dirigir desse jeito? Vai acabar batendo o ônibus!
– Gente assim não tem jeito não … é doença.

Foi nessa hora que eu me dei conta da loucura do homem. Não a loucura que era dirigir um ônibus enquanto envolvido em outra atmosfera (ele quase parecia cego), mas a loucura que o fazia dirigir um ônibus, mesmo totalmente disperso. Devia ser doença mesmo, loucura das bravas!Eu nunca via pessoas tão apaixonadas por uma coisa daquele tipo, dava pra ver que a tensão que emanava do motorista envolvia cada um que fazia parte da “espécie”, inclusive eu. Bipolaridade talvez? Quem sabe…

– SAI, SAAAI! … UUUUUHH! AÊÊÊÊ, JÁ DEU! JÁ DEU! 3 MINUTOS? PUTA MERDA!

Os três minutos seguintes, pareceram durar 10, pra mim. O coitado devia estar com a sensação que duravam, pelo menos, mais 45min.

– AEEEEW JUIZÃO! ACABOOOU! TAMO NA FINAL ! VAAAAI CORINTHIANS!!! “AQUI TEM UM BANDO DE LOUCO ….”

E a gritaria durou até que eu deixasse o ônibus, sorrindo com a situação, e com o alívio de saber que tudo tinha acabado bem, pelo menos aquela noite.
O homem, ah, ele não estava sozinho apesar de sua voz ser a única a explodir naquele espaço, pelo menos mais 25 milhões de corações espalhados pelo Brasil gritavam o mesmo hino, a mesma vitória.

Deitei-me aquele dia ainda com a cena em minha cabeça, o sorriso no rosto e uma música de fundo que dava o tom perfeito pro acontecimento.

♪ “…. eternamente, dentro dos nossos corações …” ♪ 

Agora ela era bixo

Agora ela era bixo, pode?

Aquela menina magricela do cabelo de bombril que, por artimanhas com a diretoria da escola (era o que diziam) foi jogada na 2º série do Fundamental, quase sem passar pela primeira.
Coitada!
Vieram os apelidos.
– Aêêê, “primeira série”! Sabe soletrar a palavra BOCHECHUDA sem errar?

Ela não sabia. Mas acabou aprendendo, pela força do hábito.
Agora ela era bixo, pode?

Aquela estranha que se vestia da cabeça aos pés de vermelho, sentava na primeira carteira, de cara com a professora e mesmo assim falava pelos cotovelos. Na reunião bimestral de pais era sempre a mesma coisa:
– Ela tem ótimas notas, só precisa calar a boca.

Ela não calou. Força do hábito.
Agora ela era bixo, pode ?

Aquela vizinha esquisita, não brincava com as garotas da mesma idade, vivia em casa, trancada à chave, o que gostava fazia lá dentro? Ninguém sabe.
– Oxem,tinha era se entrosar, parece até bicho do mato!

Ela não se entrosou. Eles estavam certos.
Força do hábito?
Agora ela era bixo.

___

Me perguntaram o que eu espero do 1º dia de Faculdade.
Resposta:
– De verdade? Só espero que não me pintem muito 😉

Verão

Verão. Dia ócio e frio… estranho? Pois sim, ela acordou cega.

Sem o seu mais precioso sentido, passou a ignorar todas as outras coisas.
Não falava, não chorava, não sentia quando tocada, nem mesmo sorria enquanto abraçada.
Sentia-se traída pela vida, por não ter o que julgava seu destino… ficava enraivecida todo o tempo…não compreendia a razão de tanta ilusão e isolamento, mas estava convencida de que não se importava com isso.

Não se arrependia de nada, não considerava soluções para nenhum problema, nem mesmo cedia à vontade de voltar atrás.

“O que os olhos não vêem, o coração não sente” ? Ótimo, vida eterna à sua cegueira.

Estava certa de uma coisa: aquele ordinário acontecimento a qual todos cediam não lhe ocorreria mais, a paixão era uma palavra riscada de seu, ora tão rico, vocabulário.

Das coisas que só o coração poderia entender, tornar-se-ia ignorante, rendida à cega frieza da ociosidade em que se encontrava.

Estranho, era verão.

Confessionário 1 – Adotando livros

Ok, essa é a nova tag do blog. Veio na minha cabeça, depois que o assunto #twittesuainfancia bombou no twitter. Aí pronto. Comecei a lembrar das maluquices que fazia e surgiu esse primeiro texto.

Recentemente, o twittero @RapaduraMan postou coisas que ele aprontava quando menor, com a hashtag #crimesdeinfancia

POPUP: Hashtag é, basicamente, um link que “identifica” sobre o que o seu post se trata, isso facilita a pesquisa de interesses e assuntos relevantes, e serve como forma de ranquear os melhores papos.

 Foi o sopro que faltava para que eu iniciasse essa “série” por aqui.

Identifiquem-se, revoltem-se, divirtam-se, mas o mais importante: leiam.

Enfim?

Eu roubava livros da biblioteca da escola.

É isso mesmo, e quase chego a me orgulhar disso, e explico:

A Biblioteca da minha antiga escola não era bem assim…uma biblioteca. Era uma sala totalmente desorganizada e esquecida, em que se amontoavam os melhores escritores do século, apertados e perdidos no que deveria ser uma forma de divulgar cultura.

Olha o que diz em um dos livros que peguei:

“Este livro faz parte do acervo do Programa Nacional Biblioteca da Escola, composto por diversas obras literárias. Eles foram encaminhados a sua escola com o objetivo de garantir a vocês, alunos, alunas, professores, professoras, e demais profissionais da escola, o acesso à cultura, à informação, estimulando a leitura …”

 Aquilo, definitivamente não era “uma forma de garantir acesso à cultura informação e estímulo à leitura.” Aquilo era é uma forma de juntar ratos e baratas e, muitas vezes, um esconderijo para os casais mais assanhadinhos ºO

Então, eu resolvi “divulgar a cultura” por mim mesma (depois de ter me oferecido várias vezes para organizar a biblioteca e até ter tentado, uma vez). E aposto que faço direitinho o trabalho que o Ministério da Educação deveria fazer.

 Ok, se a minha mãe lesse esse post, ela diria:

Não interessa se a biblioteca funcionava ou não! Os livros não são seus, então você não pode pegar!

 Hmmm, é. Ou não. Acontece que, já naquela época, era ela quem se matava para trabalhar, garantindo o meu sustento. E 4 meses desse trabalho já iam para o governo! Que deveria destinar uma parte desses impostos pagos num programa de acesso à cultura que realmente ajude o povo a ser menos cabeça dura, e não que tranque numa sala de 4m² um montoeira de livros, implorando para serem usados 😉 #drama.

Então, foi assim que eu conheci Machado de Assis, Franz Kafka, Marcos Rey e Pedro Bandeira. Foi assim que eu consegui uma fileira de livros do que viria a ser (e está se tornando!) a minha coleção de títulos.

E eu empresto pra qualquer um que tenha o mínimo de cuidado.

Como “roubar” é uma palavra forte demais (hehe), eu digo que adotei os livros 😀

Porque era disso que eles precisavam, de alguém que lhes tratasse com cuidado e ouvisse o que tinham pra falar.

Esse post tem quase um cunho político, foi sem querer, mas se tiver que ser, então …

Hoje, sempre que posso, doo livros para uma biblioteca em Santo Amaro, de coração, porque ela é uma biblioteca viva. Amém, forever.