Máquina de charme

Estava se achando.

A blusinha colada no corpo, com aqueles detalhes rendados que levavam qualquer olhar até seu colo, sem espaço, coitado, de tanto os seios pularem.

E aquela saia super fashion de retalhos? Só retalhos, diga-se de passagem, que quase não cobriam a região da danada.

Nos pés, uma sandália trançada até a batata da perna que contrastava com o próprio humor da garota: nem um pouco amarrada.

As unhas, uma de cada cor, denunciavam o desprezo pela preferência de cores e amores.

O cabelo, geralmente preso, corria pelos ombros ainda molhados, esperando que qualquer um pudesse secá-los. Ou, quem sabe, encharcá-los ainda mais.

Todas as atenções estavam, distraidamente, voltadas para ela.

E a figura, consciente disso, espalhava o charme tanto quanto o ventilador fazia com o cheiro de seus cabelos.

Só um detalhe, um único detalhe, não permitiu que a situação lhe deixasse perfeita: da nuca, sem a menor vergonha, um fio se mostrava, vermelho e vívido, esperando a conexão de vida.

Revelação Contrária

Sua “caneta” digital não se movia há dias. De tão inutilizadas, as teclas de seu teclado eram agora um tapete muito convidativo à poeira já inerente do escritório. Não tinha nada na cabeça e isso o perturbava como nunca.

Desde que entrara naquela sala pela primeira vez, seu ofício era pensar: e fazer com que seus leitores se identificassem com seu sentimento forjado e suas idéias de uma vida melhor propositalmente comerciais e irresistíveis.

O cursor piscava desesperadamente na tela do monitor – também empoeirado – como se dissesse: “Mova-se, mova-me.” inúmeras vezes.

Há anos fora incumbido de desenhar com palavras o caminho para a felicidade dos outros, e isso (pensara inocentemente) lhe serviria como base para o traçado de sua própria felicidade. Coitado.

Escondeu o rosto em suas mãos, esperando que o vazio dos olhos lhe mostrasse a luz que lhe daria o reconhecimento do dia seguinte. Foi em vão. Digitou ao menos 15 vezes a mesma palavra: “pense” , numa tentativa de indução do cérebro pela repetição..
Acordou. Então era isso : a repetição, não! A mudança !

A robótica de suas ações havia, inevitavelmente, enferrujado. Ocorreu-lhe então que as palavras que tanto buscava não podiam ser descobertas sem que ele mudasse o curso de seu raciocínio, justamente a novidade lhe proporcionaria estabilidade, e a mudança lhe traria bonança.

Naquele momento de revelação, seu computador apagou junto com a luz geral do prédio, lamentou não poder colocar sua claridade mental espontânea em ação de imediato, mas sabia que ela seria durável o suficiente para que ele voltasse ao escritório pela manhã e limpasse de bom grado seu teclado empoeirado. Seria então o que havia sido há 47 anos: novo.