Estado

Status Quo

Acaso me queira, segundas, às oito ou oito e quinze, estarei na estação. Entre a primeira e segunda porta do vagão da frente, onde o sol poetiza a periferia.

Às terças, mais ou menos vinte e duas horas, vou atravessar o farol da Rua Padre Adelino com a Avenida Álvaro Ramos, guiada pela lua mutante, fixamente perdida em pensamentos não-ditos.

Às quartas, treze ou treze e dez, cruzarei algum ponto entre a Japão e a Antônio Felício, conversando com duas, três ou quatro mulheres entre risos pré-gastronômicos, que num lapso de hora transformam-se em tristeza anafada.

Quintas, às dezoito, meus pés apressados alcançarão a Avenida São Gabriel, contando vantagem de ligeirice entre os carros no trânsito, a caminho de alguém pago para me compreender.

Às sextas não me encontro.
Sábado, nem toco.
Domingo, domingo.

Assimetria

Foto by Bukowski
Eu odeio o amor
E em nada tema ver contigo
Com o beijo denegado
Ou o abraço repelido
Eu odeio o amor
E em nada diz respeito às suas noites
Que em nada tiveram a ver comigo
Zero atribuído a você
Que venera o desconhecido
Tanto quanto eu queria que me desejasse
Eu odeio o amor
E nada você poderia fazer
Senão me desse você
Se não me abominasse.

Coração Assombrado

Se em uma divagação
Vagar o meu coração
Para um lugar onde
Você não tenha aparecido
Palpita o meu peito espavorido.
Quando a minha razão
Corrompe-se em confusão
E perde a competição
Para o meu ouvido
Segue meu coração reduzido
Às sombras da comoção.
Se eu não tenho você
Nem para vir
Nem para ver
Nem para saber
Que um dia eu tenha tido
Sigo a vida sem sentido
Sigo um rumo amedrontado
Sigo ser ter estado

 

Imobilizo. 

Domingo de Páscoa

Assim que ela fechou os olhos, ele trouxe a caixa à frente do corpo, ajeitou um sorriso superbranco no rosto e disse :
— P… pode olhar.
A primeira coisa que ela viu foi o contraste da embalagem com a pele escura do cavalheiro, depois seu olhar contente. Pulou no pescoço dele, com um entusiasmo inocente.
Antes mesmo de devorar o conteúdo da caixa, ainda empolgada com o acontecimento, decidiu tatuar o vício antigo e o novo: um chocolate branco ao lado do rosto do Marcelo Negão.
Ficou lindo na pele.
Na volta para a casa, contando os minutos para o encontro com o presente, começou a ler as recomendações de cuidados para a nova tattoo.
A segunda linha saltou aos olhos e afundou o estômago:
“Não ingerir: alimentos derivados do cacau.”
Era domingo de Páscoa.

Estranhamento

Mais um delírio literário que volta no tempo, que tenta entender o que é esse tal negócio de “crescer”. Dizem que uma hora isso para, mas eu acho que vamos ter que crescer até quando já formos velhos, porque algumas coisas são eternamente incompreensíveis, até para a suposta maturidade.

Então, sem mais delongas e viagens, o poema abaixo trata:

  • Do garoto cauteloso, ao homem ousado.
  • Da garota romântica, que não mudou de lado.
  • Das mudanças óbvias do que um dia foi o primeiro amor vivido.
  • Da vida, crescida, que não faz sentido.

 __

 Há anos, estranhei sua paciência.

Donde vem tanta presença e companheirismo?

Nessa minha vida que só fazia rodar, sem lirismo algum.

Há meses, estranhei seu estilo

Donde vem esse cabelo da moda e essa calça descolada?

Achei que tu era tu, e mais nada.

Há dias, estranhei seu humor.

Donde vem essa alegria espontânea, gritando a necessidade de sorrir?

Você, que a cada noite calada parecia ruir.

Há horas, estranhei seu olhar.

Donde vem essa coragem para elogiar a garota?

Na testa, do suor, nenhuma gota.

Há minutos, estranhei sua liberdade.

Donde vem essa verdade estampada no rosto?

Onde está a vergonha, seu moço?

Outrora escondida nos versos angustiados

Agora estampada nos olhares falados

Que nem sei como interpretar.

Em segundos, estranhei tu, estranhei a mim.

Sem saber se sentia assado, se sentia assim,

Sobre o que, agora, tu é.
Donde vem esse deslocamento, essa perdição de sentimento, que não sei onde colocar?

Desconhecendo tu,

Acreditando em mim.

Sempre achei que ia ser assim,

No fim,

Uma desconexão rebelde entre nós

Fruto de uma confusão inerte dos nós

Do primeiro amor.

O Crachá

Quarta, dia de revê-la. Será que isso continuará depois das férias?

Provavelmente não.

A voz firme por trás do rosto delicado e corpo quebradiço não nega que é uma moça decidida. Deve estar se formando em advocacia, ou algo sim.

Droga! As aulas reiniciarão em menos de uma semana, e lá se vão as minhas noites iluminadas de quarta feira…

Sete horas. Está perto, logo ela passará pela porta, conversando com um dos amigos, sempre rindo. Como eu queria ser um deles, como eu queria saber o que a faz sorrir daquele jeito, sempre me surpreendendo, como o sol numa tarde de chuva.

Sete e quarenta e três. Lá vem ela. 15 passos até a bilheteria, 35 até aqui. E se ela escolher outra fila? Não. Não posso pensar nisso. Por 2 meses inteiros foi a mim que ela pediu …

— Um Combo Mega, por favor!

Deus, que voz, quantas perguntas ainda tenho até que ela se vá?

— Qual será o refrigerante, Senhora?

— Coca.

— Coca grande, Senhora?

Babaca! Que pergunta besta é essa? Se o Combo é mega, lógico que a Coca é grande!

— Ahm ham.

— A pipoca acompanha manteiga, Senhora?

Como se eu não soubesse…

— Ahn ham. E com capricho, ein?!

Sou incapaz de dizer qualquer coisa que não seja ..

— Pois não.

Acabaram-se as perguntas. Agora vou dizer quanto custou, ela vai pagar, virar a costas e ir embora, mais uma semana até que eu possa ter qualquer vestígio de sua presença, ou de um cheiro que não seja dessas malditas máquinas de pipoca e refrigerante. Ô vida! Será que ela vai se importar se eu fingir que …

— A Senhora quer manteiga na pipoca?

— Sim, por favor.

O sorriso. Quão idiota eu estou parecendo? Idiota e surdo. Provavelmente estou babando no balcão agora mesmo …tudo bem, tudo bem, vale a pena.

— Combo Mega totalizando dezesseis e cinqüenta, Senhora.

Preciso de mais uma pergunta! Mais uma chance de ouvir a voz! Em menos de 20 segundos ela não estará mais aqui. Deve estar atrasada pra sessão pois batuca o cartão de crédito nervosamente no granito. Droga! Não consigo pensar em outra coisa.. nada mais inteligente que …

— Cartão ou dinheiro, Senhora?

Sem dizer nada, nenhum som de impaciência, ela estende a mão. Os dedos demasiados na ponta para que eu possa tocá-la.

Senha.

O “piii” infernal da máquina.

Fim.

— Obrigado e tenha um ótimo filme, Senhora.

O balançar discreto da cabeça em agradecimento, o meio sorriso que eu mais adoro nesse mundo, e ela está de costas para mim em 1…2…

— Gostei do novo corte de cabelo, Mardel.

Deus, o que é isso? Meu coração fugindo do peito? Mais uma vez, sou incapaz de dizer qualquer coisa melhor que … ei!

— Na verdade, é Mardem, Senhora.

 __________

Co-autoria de Telma Amorim. (Perfil no Orkut) =D

Obrigada pela ideia, querida.

Carta de uma jovem velha

Não sei se poder inconsciente de um livro, ou fato consciente da vida, hoje descobri: sinto-me uma velha. Dessas que viveram à toda atrás de um amor, ainda que aqueles de verão.

Invejo quem pode se apaixonar, sem vergonha do colorido das palavras, do sustenido do coração… tão óbvio, tão adolescente. Um coração quente que não se pode gelar, nem pela morte.

Sinto-me uma velha ao observar o comportamento dessas crianças, sempre radiantes, combinando com os dias intermináveis de sol .
Enquanto eu, aqui, sentada a olhar as nuvens sem forma, o ar denso e triste, os passos apressados dos corações descompassados de tanto amor.

Meio século se passou desde o primeiro beijo apaixonado, e nada é como se fosse ontem, mas sim como um futuro do passado. Assim: tão trágico e sem esperança.

Sinto-me uma velha com esses olhos insóbrios de tanto esperar.

Uma velha escondida entre os tantos romances avassaladores e eternos. Aqui, sentada, regando com esforço o hedonismo nas madrugadas de saudade.

O que a gente faz?

E quando a gente fica assim, como se diz? sentimental demais? Não, eu devo ser menos poética: e quando a gente fica assim..idiota? Sim sim … aqueles velhos sintomas: escutar a mesma música melódica por horas seguidas (que te faz chorar no refrão), tentar escrever algo que alivie o que você sente (na esperança de que alguém leia e sinta o mínimo de compaixão por você [ohh, que triste!]), ou só ficar de olhos fechados olhando pro escuro psicodélico.. forçando releases dos momentos mais marcantes da sua vida.

E quando a gente fica assim …idiota? O que a gente faz?Esquecemos o conteúdo intelectual que temos e fazemos joguinhos com as palavras e dizemos nas entrelinhas o que (obviamente) só nós iremos entender?

E quando a gente fica assim, idiota, pra quem a gente escreve, Idiota?

Talvez eu tenha descoberto a utilidade de uma personalidade dupla: suportar a agonia, desesperança e ilusão de nós mesmos, nesses dias que a gente fica assim..idiota.

Quem fica?

Idiota! Você fica. Você quem? Eu? Quem de mim sou eu? Quem de mim sou eu AGORA?
No final das contas, o diálogo entre eu e eu mesma não é apenas um monólogo? Sozinha …

Nem o maior romancista do universo poderia considerar esse texto uma discussão filosófica.
Até o mais ignorante dos seres identifica aqui, nessas linhas tortas e inelegíveis, o que é (foi e vai ser) a maior frustração humana. Afinal, quem não ama?

Wergeland, Novalis e Goethe me entenderiam. Estou certa de que mais do que qualquer um dos meus “Eus”.

“Se o cérebro humano fosse tão simples a ponto de conseguirmos entende-lo, seriamos tão idiotas que não conseguiríamos entende-lo” Jostein Gaarder em O mundo de Sofia.  

Sumida

Sei não.
Uns diziam que havia piorado, mas do quê?
De sua dor fingida?
Acho que não!
Desconfio até que a pobre era frígida.

Sei não.
Alguns cogitavam sua morte
Será?
Ora, que infortúnia sorte a da estranha menina!
Mas, sei não.
Só deve ter seguido a composição línea
Que tecia sua vida esquina após esquina…
Bar após bar
Chão após chão
Sei não.
Só a vi saindo às escuras, já sem coração.

__

Uma semaninha sumida daqui: trabalhos e provas e gripe, muita gripe.
Mas estou voltando … voltando … 😀

Lúgubre Grifo

O que te leva a insistir no que te angustia e de mim te priva?
Diz-me, amada querida, o que te faz preferir morrer à deriva?
Onde se esconde o desejo outrora tão encarnado?
Ainda existe a beleza por trás do vaso quebrado, eu sei que existe.

Sufocando a saudade no torpor do caminho.
Esganando a verdade no coração sozinho.

Onde arrumaste esta corda que só faz machucar, minha amada?
O pouco tempo que tens só está a passar, e tu marcada.
Cicatrizes não podem ser apagadas, mas pegadas podem se aliviar
O sentimento não morre enquanto se quer lutar.

O que te faz perder o que te faz amar?
Como encontrar coragem onde o vazio está?

Perdeu o jeito de se renovar, amor meu?
Mais uma vez, tarde demais? Eu sou seu.
Peço-te: não se engane e nem fuja menina.
Acasos não determinam uma sina.

Invalidez induzida na estrada comprida.
Morte poética na métrica da vida.

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“Há entendimentos longe de nossas explicações
Há explicações longe de nossos entendimentos”¹
¹ Sir Raphael Trevilato

Poema – Para o primeiro amor.

Não sei o que estou escrevendo
Não sei nem mesmo o que estou dizendo
Acho que estou dando um aperitivo ao meu coração
Que está cada vez mais te querendo

Ele grita te chamando
E palpita o tempo inteiro
Me sinto como uma agulha
Perdida num estaleiro

Pego o telefone e te ligo, sem te dizer meu nome.
Procuro algo, um motivo
Pra saciar minha fome.

A fome não é de alimento
A fome não tem sabor
A fome que eu sinto agora,
É a fome do teu amor.

Você não sabe mais quem sou
Só sabe que eu era a sua vizinha
Queria tanto que você se lembrasse das mil e uma cartinhas
Que eu jogava na sua garagem
Todo dia de manhãzinha

Nelas, frases de amor eu escrevia
Na esperança de que você lesse um dia
De que você conseguisse compreender
A intensidade da minha agonia,
De ter só um pouquinho de você.

De sentir ao menos uma vez,
Essa sua boca linda,
Esperando, sempre, que um dia você abrisse os braços e dissesse:
“Gé seja bem vinda!
… seja bem vinda ao meu coração,
À vitória da sua paixão!”

Quem acredita sempre alcança
Quem acredita nunca cansa, nunca desiste,
Porque o amor (Fernando) é a melhor coisa que existe!

___

Poema feito para o meu “1° amor ” que durou uns 3 anos ( absurdo!) , eu tinha apenas uns 6/7 anos quando me dei conta que minhas pernas não me obedeciam quando eu o via ¬¬
O desfecho desse caso foi …. bem, só de eu ter escrito o poema quando já estava com 11 anos .. isso diz tudo. O Amor é triste. Pois é, pois é.
P.S.: Medo da meu próprio sentimento o.O , isso é possível sendo tão pequena ? Eu ein ! 😛

” Foi Apenas Um Sonho” de um final de semana…

Se há uma coisa que tenho pavor, é esse tal de tédio. Fujo do tédio como Harry Potter foge de Lord Voldemort (ok, essa foi horrível :P) , por isso esse final de semana consegui uns programas de final de semana, olha só que divertido!?!

Sábado fui ao ótimo Cinemark do Shop. Eldorado ver o novo filme de Sam Mendes (Beleza Americana): “Foi Apenas Um Sonho”(Revolutionary Road, em inglês), a expectativa – é claro – estava em torno da volta de um dos casais mais famosos da história cinematográfica. Kate Winslet e Leonardo DiCaprio se superaram nesse drama (Globo de Ouro merecido à Kate), que te envolve de tal forma a ponto de você sair com os ombros pesados e uma estranha sensação de angústia da sala. Uma história terna e contundente, cotidiana e extraordinária que se faz plausível em cada duelo de interpretação do casal (que passa o filme inteiro entre crises e discussões de arregalar os olhos).

Triste, o filme não é pra quem está esperando uma bela história de amor como Titanic; você pode até se emocionar com as poucas demonstrações de carinho que Frank Wheleer (Di Caprio) e April (Kate) fazem um ao outro e até mesmo rir com o leve tom de humor irônico que é trazido por Michael Shannon ( no papel de John – ótima atuação, diga-se de passagem), mas prepare-se para viver uma história pelejante e trágica. Um dica : não deixe de reparar na sensacional ambientação do filme… e se a obra não te agradar, passe o tempo tentando encontrar algum homem sem chapéu entre as cenas. Haha

Bom, eu não ia mesmo falar tanto sobre o filme, criticá-los não é meu ponto.. eu gosto mesmo é de assisti-los, mas enfim .. o resto do final de semana foi regado à Led Zeppelin, truco e cerveja ( essa última, não pra mim é claro).

Sabe, acho que as pessoas deviam fazer nada mais vezes: é estranho que eu tenha dito no começo desse post que tenho repúdio de tédio e agora expressar a minha disposição em não fazer nada, e essa é uma controversa que eu não saberei explicar; escutar boa música e rir com alguns amigos soa como corriqueiro, soa como “ não fazer nada”, e é sobre isso que eu falo: esse tipo de divertimento custa barato e vale muito a pena; é um trocar de informações.. um tocar de violões… um embaralhar de emoções que – se você parar pra reparar – é cada vez mais raro nesse dia-a-dia globalizado, por isso deve ser praticado e deleitado sempre que possível ou, de modo mais desesperado: sempre que necessário, afinal .. quem não precisa de um dose de rock e baralho nesse mundão de guerra e cascalho ? Ein? Ah, por favor .. comprem minha mensagem barata! Ela só precisa entrar na sua cabeça por um minuto, te fazer esboçar um sorriso amarelo no rosto e ir embora …

Depois você poderá voltar para os seus próprios conflitos e diversões e eu voltarei pra minha luta diária sem causa primária, rs ..

Boa semana !

Verão

Verão. Dia ócio e frio… estranho? Pois sim, ela acordou cega.

Sem o seu mais precioso sentido, passou a ignorar todas as outras coisas.
Não falava, não chorava, não sentia quando tocada, nem mesmo sorria enquanto abraçada.
Sentia-se traída pela vida, por não ter o que julgava seu destino… ficava enraivecida todo o tempo…não compreendia a razão de tanta ilusão e isolamento, mas estava convencida de que não se importava com isso.

Não se arrependia de nada, não considerava soluções para nenhum problema, nem mesmo cedia à vontade de voltar atrás.

“O que os olhos não vêem, o coração não sente” ? Ótimo, vida eterna à sua cegueira.

Estava certa de uma coisa: aquele ordinário acontecimento a qual todos cediam não lhe ocorreria mais, a paixão era uma palavra riscada de seu, ora tão rico, vocabulário.

Das coisas que só o coração poderia entender, tornar-se-ia ignorante, rendida à cega frieza da ociosidade em que se encontrava.

Estranho, era verão.