Pinga

Não há pinga que cure. Pinga pura, descendo quente na garganta de fome. Dorme que passa. Trabalha que cansa. Lava, torce, amassa. Coloca na cabeça e atravessa a mata. Em casa, pinga. Dose para criança. Solução homeopática de vida miserável. Vai para a cidade, moça. Lá não pinga, escorre fartura. Só que pinga, sim. Pingão grosso que escorre da parede e molha o colchão surrado. Alaga o quarto. Vai, menina: lava, puxa, limpa. Se não guentar, pinga que passa. Pinga que passa a tristeza. Passa canseira, passadeira, passa até saudade da terra onde há tempos não pinga. A gente aqui não tem vereda, só vive. Vai vivendo, assim, nesse pingue-pongue, às vezes punga, e no final sempre pinga, queimando a garganta. Alívio de alma vendida. Já no fim da vida, a menina, azoada, cai de boba. Não dorme sem pinga. Não acorda sem pingar o olho. História que amarga a boca. O rosto enruga, murcho de esperança. Lá se foi a criança. Não há pinga que cure.

(Des)engano

Eu me espreguicei e desenrolei só para me enrolar de novo na coberta por mais um tempo. É tipo um jogo que eu faço, sabe? Para enganar a vida. Eu finjo que vou fazer uma coisa, quase faço, mas aí volto atrás e faço outra coisa diferente. É legal enganar a vida assim, faz eu me sentir no comando das coisas, como uma garota esperta.

Eu não estou na minha casa de verdade. Na verdade, eu não tenho uma casa. Eu, a Mãe e o pai dormimos num só quarto, que é cozinha e sala também. Não sei dizer o nome do lugar. Eu sei que aqui é Parelheiros. Mas eu sempre erro o nome, porque é uma palavra difícil. A minha mãe diz que eu tenho que ficar aqui com a Mãe Sara e o Pai Nê durante a semana, para ela poder trabalhar bastante e construir uma casa pra gente.

A Mãe Sara é minha madrinha e o Pai Nê é meu padrinho, e eu chamo eles assim desde quando dava para contar minha idade numa só mão. Agora, eu conto a minha idade com todos os dedos da mão direita e mais um dedo da mão esquerda.

Dessa vez eu acordei para levantar de verdade. Fico escutando o barulho da casa, mas hoje está tudo superquieto. A minha barriga está falando comigo, então o plano é descer até a cozinha e ficar sentadinha até a madrinha perguntar se estou com fome. Aí eu digo que sim, e ela me dá alguma coisa.

Eu saio do quarto e o Pai Nê está no corredor. — Mas você dorme, ein, mocinha? Não sei o que responder, então só sorrio e fico esperando ele dizer outra coisa. Ele não diz nada. Em vez disso, estende os braços para me pegar no colo. Ele nunca fez isso antes, mas, como tenho que ser obediente, simplesmente subo.

Não saímos do lugar. Os segundos estão passando rápido e devagar ao mesmo tempo quando a mão trêmula dele toca a minha calcinha por debaixo do vestido. Meu coração começou a bater tão forte que acho que dá para escutar. Ele continua não dizendo nada, e parece que passou tempo demais até eu arregalar os olhos, e começar a lutar para descer do colo. Ele me segura mais um pouco. Mas aí eu empurro o peito dele com força, ele me solta, e eu corro para a escada.

Tenho que respirar fundo e disfarçar a cara de susto antes de entrar na cozinha, para o caso da Mãe Sara estar aqui. Mas ela não está. Eu não sei se sinto medo ou alívio. Vou ficar lá na frente da casa esperando ela voltar da rua. Quando ela voltar, eu conto o que ele fez. Mas o que ele fez? Acho que eu não estou pensando direito. Deve ter sido sem querer. Eu devo estar exagerando. Acho que a madrinha vai ficar brava comigo, pensar que eu estou vendo coisa. Acho que a Mãe ia ficar triste e começar a beber mais. Também tem que eu fico aqui de favor. Se eu conto pra Mãe, ela ia ficar sem saber onde me deixar. Fora a amizade delas, desde antes de mim. Ai meus Deus, e se? Mas, nem. E agora? Agora não posso chorar. Nem sei como estou pensando tudo isso.

Acho que só vou ficar aqui sentada. Se ele fizer de novo, eu conto pra Mãe. Se não fizer, eu vou enganar a vida de novo: vou fingir pra ela que inventei isso. Sei lá, criança é boa em inventar as coisas.

Nota da autora: primeira vez que escrevo sobre a #meuprimeiroassedio. Assumi o papel narrativo da Gessica de 6 anos de idade e… foi libertador.

Carinhoso

Ele cantarolou Pixinguinha a manhã inteira. Arrumou a cama, tirou o pó da estante de livros, limpou o banheiro com desinfetante de lavanda, colocou as roupas na máquina e preparou o almoço, ninando a abóbora ao som de Rosa. Estátua majestosa.

Depois de almoçar, lavar e guardar a louça, assistiu o jornal da tarde e tirou um cochilo. Acordou para um banho e um bom moletom. O perfume da vez era cítrico. Ao sair, virou a chave quatro vezes, para garantir. O encontro com  Leco estava combinado às catorze, no posto de saída da Rua 19.

Quando chegou, ela ainda estava lá. Escondida entre galões estocados num canto. Encaixou-a com cuidado na cueca, ao lado direito do pênis. Minutos depois, Leco buzinou duas vezes, e ele embarcou no banco do passageiro.

Não teve papo no caminho e, ao entrar no restaurante, tudo aconteceu muito rápido. Todos do chão. Quietinhos. Vai, moça, eu quero só o dinheiro. Leco mira os clientes. Vários com boca cheia, olhos de desespero. A moça ia pegando o papel do caixa e depositando no saco verde e amarelo com as duas mãos. Habilidade e cabeça baixa.

Então ele decidiu checar a área. Leitura dinâmica, como de costume. Viu a criança. O coração bateu feliz não-sei-porquê. Foi até a menina com o cuidado de esconder a arma. Ninguém se mexia. O cafuné foi sincero e o sorriso esforçado. Sob os seus dedos, ela só estremeceu um pouco. Calma, linda, não vou fazer nada com você.

Nem ele nem o Leco perceberam a Juíza lá no fundo. Não deu tempo de assimilar o estampido, nem os gritos, nem o choro instantâneo da garota. O encontro dos joelhos com o chão fez um barulho oco, mas Leco não ouviu, já cruzando a porta.

Na redação do jornal, pairou a dúvida em publicar a versão Preto & Pólvora.

E aí, chefe, sessão Cotidiano?

Não, bora variar um pouco. Foca no carinho.

___

Texto baseado na manchete:

Criminosos invadem restaurante e ‘acalmam’ criança com carinho” Globo.com, 02/08/2016.

Nota

Mais do mesmo

“ […] Ela fitou João, incrédula, e disse:

— Mas, casar?

— Casar.

— Hmmm, só com casa.

— Casa?

— Pra casar, ué.

— Se casar, vai coser?

— Casualmente.

— Êêê, sua Coisa!

— Coisa, é?!

— … — Assim não caso.

— Ah! Casa, vai?! …

— Tá bem, caso. Se…

— Qual coisa?

— A casa.

— Cozinhar?

— Caso sério…

— Cacete! Não me dá coisa nenhuma?

— Uma coisa.

— ?

— Cu.

— Casaremos!

— Com casa?

— Com tudo!”

Malu terminou de ler, fechou o livro, se recostou na cama, e constatou com tristeza:

— Meu Deus, que coisa machista.

Hugo, que tinha lido o mesmo texto minutos antes e achado engraçado, apenas disse:

— Pois é. E você vê, né… escrito por uma mulher. Tá vendo como é?

— Isso também é machista, Hugo. Machista e sexista, aliás.

— O quê?

— Atribuir características negativas necessariamente ao sexo feminino. Se fosse um homem o autor do texto, você provavelmente não teria dito isso. É a mesma lógica de “mulher no volante, perigo constante” e outras tantas asneiras machistas.

— Nossa, Malu, eu só fiz um comentário. Deixa de ser doida, paranoica. Tudo pra você é motivo de discussão.

— Gaslighting.

— O quê?

— Isso que você está fazendo. É gaslighting. Um termo em inglês que explica como abusadores, majoritariamente homens, distorcem e desacreditam o que mulheres dizem, querendo que elas duvidem da própria memória e sanidade. Não é à toa a nossa fama de histéricas. Mais um joguinho do patriarcado pra manter a gente sob controle.

— Nossa senhora. Lá vem! Então tudo que eu disser agora é machismo?!

— Eu não disse isso, Hugo. A gente mal começa a conversar e você já perde a paciência. Por que será? Mulher é tudo burra, né? Deve ser difícil descobrir que você faz parte da escória masculina. E o machismo nosso de cada dia? Não pode. Não pode mais elogiar a coleguinha gostosa da firma. Não pode mais fiu-fiu. Se chegar em casa e não tiver comida pronta e roupa lavada, não pode mais reclamar. Também não pode…

— Ai, Malu. Chega! Você me cansa. Tá vendo como você é louca? Você tem que entender, é natural mulher fazer as coisas de casa, Deus fez cada um de um jeito…

— Lá vem você com o mansplaining! Tem que explicar tudinho, até desenhar, pra ver se eu entendo, né? Um mais um é dois. O sol é redondo. Homem é forte e mulher é fraca… sempre a mesma ladainha. Qual a próxima babaquice que vai sair da sua boca?

— Tô achando melhor eu ficar quieto. Não dá para discutir com você assim. Não vamos chegar a lugar nenhum.

— Esse é justamente o problema, Hugo! Ultimamente a gente quase não conversa. Tudo que eu falo parece exagero, parece briga. Faz um exercício: imagina você ter nascido mulher. Sempre gorda demais ou magra demais. Atirada demais ou se faz de sonsa. Se a roupa é curta, vadia. Se é longa, brega ou crente do rabo quente. Se o cara erra, ele é filho da puta. Veja bem, o filho, porque a puta ninguém quer ser, né? Aí toda vez que eu tento falar disso, você me interrompe, diz que não é bem assim, quer me explicar que o mar é azul. Caralho! É ou não é pra ficar possessa? Tenho que colocar pra fora mesmo! Até ver se algo do que eu falo entra na sua cabeça!

— …

— Vai ficar quieto dessa vez? Não vai dizer nada?

— … Você até que é uma mulher inteligente.

Estado

Instavida

instavida

Daí a gente muda o filtro e a vida fica mais bacana.

É como aquela foto não-tão-boa-assim que você tirou, ficou em dúvida se valia postar no Instagram, mas quando postou, com um toque de Earlybird, teve gente pra caramba curtindo.

O filtro, no caso, da vida, pode ser um objetivo novo, um romance, a cor do cabelo, ou a combinação de tudo isso.

Se for a combinação de tudo isso, as chances são que você transpareça confiança e então ganhe mais coraçõezinhos. Se for uma coisa só, também é ótimo, basta usar as hashtags certas e voilà!

As hashtags, no caso, da vida, são as coisas as quais você dá prioridade. Se forem coisas #materiais e #físicas, as chances são que acabem mais rápido, mas não tem problema, você pode ostentar e ser feliz enquanto dura.

Se forem coisas #espirituais e #abstratas, pode ser que as pessoas não entendam, nem valorizem, nem apoiem, mas também não tem problema, internamente você continuará feliz e o melhor: isso ninguém bloqueia.

O importante é escolher um bom filtro.

Pode demorar um tempo, daí você vai se sentir perdido, inerte e meio inútil, mas – de novo  – não tem problema: quando você olhar sua imagem final vai saber que valeu a pena.

Nota

Valentina, 16 anos, Engenheira de Aviõezinhos de Papel.

Acordou aquela manhã e leu sua bio do blog repetidas vezes, como que com dificuldade de entender a frase que outrora era a descrição perfeita de si mesma: “Só sei que nada sei”.
Sócrates era o seu filósofo grego favorito, não pela premissa de busca constante pelo conhecimento através do questionamento, mas porque ela gostava da ideia de não precisar se esforçar para dizer que sabia das coisas, quando sabia tão pouco. Tímida e reservada como era, sonhava alto com planos baixos e achava que tudo bem ser assim, porque 1 – era melhor criar e cuidar de seu próprio mundo do que tentar viver no mundo dos outros 2 – quanto menores os desejos, menores os tombos e 3 – não havia nada mais significante no fato de viver do que isso estar intrínseco ao fato de ter uma vida (as pedrinhas decorativas de sua janela concordavam).

Ainda que satisfeita com sua autodefinição limitada (e um tanto incerta), decidiu que precisava de uma frase que expressasse algo que ela realmente era. Nada de “uma garota muito legal” ou “garota de 16 anos à procura da felicidade” e essas babaquices todas que não dizem nada. Precisava de algo puramente exclusivo. Algo que ela pudesse defender com garra e dizer “é, eu sou isso mesmo!” e talvez, usar num cartão de visita quando fosse adulta.

Ficou mastigando algumas ideias por uns minutos, enquanto escutava música e trabalhava no nobre ofício de fazer aviõezinhos de papel.

Daí começou a acontecer uma coisa engraçada.

Quanto mais tentava se concentrar na frase, mais se preocupava com a simetria e design do aviãozinho. Dobrou e desdobrou o papel pelo menos sete vezes antes de conseguir juntar as pontas com perfeição. Depois recortou várias figuras coloridas, juntou as canetas que tinha e resolveu fazer uma mistura surrealista para decorar as asas. A base pintou minuciosamente com canetinha. Curou a obra como se a peça mais importante da sua estante criativa.

De repente, soltou o aviãozinho, escancarou os olhos para tela do computador e lutou para conter o sorriso entusiasmado. Começou a digitar sua nova bio e pensou com algum pesar em Sócrates e em sua filosofia. Assim, de repente, “eureka!”, e Arquimedes mudou a sintonia.

Refluxo

No último dia, ele fumou um cigarro com a lentidão de um domingo. Era quarta-feira e ele estava pensando nela, em como o lado esquerdo dos seus lábios subiam quando ela falava, especialmente se o comentário era perspicaz. Depois do sorriso torto, ela tragava no estilo bonequinha de luxo, fazia uma careta adorável e cruzava as pernas distraída. Tudo muito excitante. Depois subia levemente com a cabeça, indicando que era a vez dele de falar e então estreitava os olhos enquanto escutava. Ele nunca soube se por causa da fumaça ou por causa do discurso, mas lembrar da cena deu vontade de fumar. O celular tocou e era o Dr. Rubens libertando-o do devaneio. Não era supersticioso, nem nada, mas soube antes de atender.

No penúltimo dia, ele mascou o chiclete com um prazer incomum. O ônibus jogava seu corpo pro lado direito nas curvas e fazia a cabeça dançar espremida contra a janela. O sol brincava um pouco em seu colo coberto por um cachecol azul. Ele fechava os olhos na esperança de absorver a sensação do calor aconchegante e de movimento, mas a viagem em sua cabeça ficava demasiada obscura e ele voltava forçado à realidade das ruas passantes e fachadas cinzentas com um lento piscar de olhos. A falta de controle sobre seus pensamentos e o fato de que eles exerciam uma força angustiante sobre ele ao simples gesto de fechar os olhos fez ele ter vontade de fumar. Como alternativa, abriu a embalagem de chicletes que trazia no bolso.

No antipenúltimo dia antes do resto, uma mulher sacudiu seu ombro e ele tentou distinguir as palavras em meio ao torpor matinal. Mas não era dia. Alguns segundos e solavancos depois ele acordou e tentou focar o rosto da mãe. Ela trazia uma xícara de café forte. O dia tinha passado sob seu sono altamente intoxicado e ele se mexia devagar. Sentou-se na cama e começou a tomar o café devagar. A mulher abraçou sem permissão seu ombro magro e disse que ficaria tudo bem, mas as palavras não faziam sentido. Ele não tinha mais mulher, nem trabalho, nem nada que o fizesse parecer um homem digno. Sua vida era tragada junto com os cigarros que se acumulavam nos bolsos das roupas sujas e nas gavetas do quarto mofado.

Sua esperança de recuperação fora lentamente engolida como o líquido das garrafas que ele largava pelas ruas por onde passava aos tropeços. A depressão, outrora um mito para frescos, agora tinha sido injetada de uma só vez na rotina dele que só tinha algum prazer enquanto injetava heroína.

Ela quebrou o silêncio contando-lhe que o Dr. Rubens tinha dito que assim que saísse o resultado ele avisaria pelo celular. Que os exames apontavam para uma alteração no número de linfócitos, mas que ele precisava de outros exames para ter certeza. Ele olhou-a sem expressão, respirou fundo e teve vontade de fumar.

Práxis

Eles voltam das férias falando de uma porção de lugares que só depois vou conhecer, através das minhas pesquisas cibernéticas.
Da minha cadeira dura, finjo estar atenta às tarefas entediantes ao computador, enquanto minha atenção viaja para a sala ao lado, cheia de gravatas, ternos importados e abotoaduras descoladas. Pouca coisa entendo das palavras, mas insisto na atenção, como se tivesse sido convidada a participar dos relatos das visitas aos lugares aos quais os nomes aliciam minha imaginação e movem meus dedos à Wikipedia.
Eu contribuo com o silêncio.
— E a Capadócia?
Imagino uma igreja cheia de cores e estátuas, como me parece ser tudo que tem a ver com a Europa.
— Sim, fui lá! Lindo! Rodei por tudo… ah, sim! os balões, claro.
Segundos depois entendo o que são os balões, resgatada intelectualmente pela internet.
Os sorrisos da sala ao lado evoluem e agregam às palavras a mim nunca apresentadas. Na tentativa de capturar todas, me perco entediada em um sonho desperto, em que eu viajo num balão por um cenário parecido com os filmes de Indiana Jones. Uma câmera na mão, uma paixão ao lado e uma sensação singularidade que, na segurança da minha implicância social, duvido que eles tenham experimentado em suas vidas blindadas e seus esforços colossais em completar dezoito anos, os quais são recompensados com um carro automático.
Enquanto pairo por terras imaginárias de cor marrom (fruto da minha breve pesquisa de “Capadócia” no Google), visualizando balões coloridos, pessoas deslumbradas e a sensação utópica de vento no rosto, não percebo quando um deles entra em minha sala, furando o balão com uma quente pontada de realidade:
— Lia, leve três cafés até a minha sala, por favor.
Levanto apática e infeliz.
Ao caminhar até a copa, tropeço no nada e dobro os joelhos no carpete. A cena soa como uma metáfora maldosa da minha vida primária, em detrimento das biografias relevantes dos que aguardam as xícaras de porcelana.
Atesto a minha insignificância, sorrio amarelo para o vidro que testemunhou a queda e preparo caprichosamente os cafés, que sirvo como se aquele fosse o ofício mais valioso que pudesse realizar.

Máquina da Angústia

Dentro do quarto disforme, alguma coisa se agita incansavelmente, deixando o ar pesado e árido, quase impossível de inalar (antes não fosse possível…)

Líquido vermelho é distribuído e, logo depois, retirado numa carreira de linhas azuis e vermelhas que trabalham com rapidez incomum, como se respondendo às ordens de alguém com muita pressa, ou muita bravura. (Sendo a segunda opção a mais próxima da realidade…)

Algo ácido se mistura com o líquido vermelho, causando uma sensação de enjoo já conhecida pela construção que comporta o quarto: aquela revolta irritante dos fluidos impulsionados pelo liquidificador que, ao mesmo tempo que os mistura, vai dilacerando cada parede de quarto, abrindo feridas que há muito não ficavam expostas, e trazendo à construção um ar cansado e triste.

Para melhorar a confusão, tudo vira-se de cabeça pra baixo, e depois volta ao normal, para tornar a virar, numa sádica brincadeira desordenada que faz o prédio balançar e, por vezes, desabar em cinzas, para reerguer-se em seguida, como Fênix.

No decorrer dessa agitação cotidiana, a garota sente cada vez menos vontade de permanecer, até por que, absolutamente perdida se sente, nos labirintos da construção que a sustenta há 19 anos.

(Que injustiça perder-se nas próprias bases…)

Cinza e frio, o cimento-alicerce à garota serve como consolo, subtraindo o sonho pela necessidade de manter-se erguido.

Um quase-conto idiota adolescente que não vale a pena ser lido (parte 2)

Hey, caros navegantes!

Estou voltando com a reforma de uma postagem já feita, na qual eu implantei uma outra continuação, estimulada pela culpa de não ter sido dedicada o suficiente quando escrevi “Um quase-conto idiota que não vale a pena ser lido”.
Sem mais delongas mais longas que as demoras para postar aqui, enjoy:

___

Prometeu não exercitar lembranças do bendito, mas a cabeça fazia questão em ser uma parte separada do corpo.

Aquelas aulas de ciências!

— O corpo humano é constituído por três partes principais: o tronco, os membros e a cabeça.

Não entendia onde entrava o pescoço nessa idéia, mas que diferença fazia? Se pudesse simplesmente deixa-lo de lado (ela morreria?), como a professora fazia na escola, talvez pudesse ver-se livre da maldita tatuagem na nuca, que quase parecia uma escarificação: pesada, irremediável…eterna. Ugh. Eterna.

Não era cômico, não, lembrar de todas as aulas em que a professora dizia:

— O corpo e a cabeça constituem um corpo humano. O que controla tudo- …

Tentava cortar essa parte, na esperança de que a avalanche de frustração não lhe atingisse, porque ultimamente sua mente andava rebelde, tipicamente…..adolescente. Ugh! Ela odiava essa palavra, sempre surgindo como uma sombra pra todas as coisas inexplicáveis que sentia, como se a maturidade fosse lhe arrancar de vez as angústias que vivia desde os 13 anos. Até parece.

— O corpo e a cabeça constituem um corpo humano…

Por que quando se referiam à nós separam a cabeça do corpo? Ela não era parte integral de nós, então? Parecia uma piada de mal gosto que flertava com a situação atual: a essa altura da paixonite, a morada da mente tinha vida própria.

Por que isso? Perder o controle dos seus próprios pensamentos e, assim, por tantos anos? Não reconhecia mais suas emoções, molhadas de encanto e, no entanto, secas de atenção.

A indignação, que outrora era característica adolescente, foi mais forte que a vontade de, um dia, voltar a ter o controle de seu corpo e mente. Resolveu o problema com um simples cálculo matemático, destes que ainda praticava na escola: 50 miligramas de bolinhas pretas, 30 mililitros de soda cáustica que a mãe lhe dera pela manhã para lavar o chão do banheiro e, pronto, em 20 minutos estaria morta, com 100% de chance.

O azar de todos os inconsoláveis no velório era que, ao contrário das infernais aulas de ciências, Mariana era a melhor da classe em matemática.

Domingo de Páscoa

Assim que ela fechou os olhos, ele trouxe a caixa à frente do corpo, ajeitou um sorriso superbranco no rosto e disse :
— P… pode olhar.
A primeira coisa que ela viu foi o contraste da embalagem com a pele escura do cavalheiro, depois seu olhar contente. Pulou no pescoço dele, com um entusiasmo inocente.
Antes mesmo de devorar o conteúdo da caixa, ainda empolgada com o acontecimento, decidiu tatuar o vício antigo e o novo: um chocolate branco ao lado do rosto do Marcelo Negão.
Ficou lindo na pele.
Na volta para a casa, contando os minutos para o encontro com o presente, começou a ler as recomendações de cuidados para a nova tattoo.
A segunda linha saltou aos olhos e afundou o estômago:
“Não ingerir: alimentos derivados do cacau.”
Era domingo de Páscoa.

Máquina de charme

Estava se achando.

A blusinha colada no corpo, com aqueles detalhes rendados que levavam qualquer olhar até seu colo, sem espaço, coitado, de tanto os seios pularem.

E aquela saia super fashion de retalhos? Só retalhos, diga-se de passagem, que quase não cobriam a região da danada.

Nos pés, uma sandália trançada até a batata da perna que contrastava com o próprio humor da garota: nem um pouco amarrada.

As unhas, uma de cada cor, denunciavam o desprezo pela preferência de cores e amores.

O cabelo, geralmente preso, corria pelos ombros ainda molhados, esperando que qualquer um pudesse secá-los. Ou, quem sabe, encharcá-los ainda mais.

Todas as atenções estavam, distraidamente, voltadas para ela.

E a figura, consciente disso, espalhava o charme tanto quanto o ventilador fazia com o cheiro de seus cabelos.

Só um detalhe, um único detalhe, não permitiu que a situação lhe deixasse perfeita: da nuca, sem a menor vergonha, um fio se mostrava, vermelho e vívido, esperando a conexão de vida.

O Crachá

Quarta, dia de revê-la. Será que isso continuará depois das férias?

Provavelmente não.

A voz firme por trás do rosto delicado e corpo quebradiço não nega que é uma moça decidida. Deve estar se formando em advocacia, ou algo sim.

Droga! As aulas reiniciarão em menos de uma semana, e lá se vão as minhas noites iluminadas de quarta feira…

Sete horas. Está perto, logo ela passará pela porta, conversando com um dos amigos, sempre rindo. Como eu queria ser um deles, como eu queria saber o que a faz sorrir daquele jeito, sempre me surpreendendo, como o sol numa tarde de chuva.

Sete e quarenta e três. Lá vem ela. 15 passos até a bilheteria, 35 até aqui. E se ela escolher outra fila? Não. Não posso pensar nisso. Por 2 meses inteiros foi a mim que ela pediu …

— Um Combo Mega, por favor!

Deus, que voz, quantas perguntas ainda tenho até que ela se vá?

— Qual será o refrigerante, Senhora?

— Coca.

— Coca grande, Senhora?

Babaca! Que pergunta besta é essa? Se o Combo é mega, lógico que a Coca é grande!

— Ahm ham.

— A pipoca acompanha manteiga, Senhora?

Como se eu não soubesse…

— Ahn ham. E com capricho, ein?!

Sou incapaz de dizer qualquer coisa que não seja ..

— Pois não.

Acabaram-se as perguntas. Agora vou dizer quanto custou, ela vai pagar, virar a costas e ir embora, mais uma semana até que eu possa ter qualquer vestígio de sua presença, ou de um cheiro que não seja dessas malditas máquinas de pipoca e refrigerante. Ô vida! Será que ela vai se importar se eu fingir que …

— A Senhora quer manteiga na pipoca?

— Sim, por favor.

O sorriso. Quão idiota eu estou parecendo? Idiota e surdo. Provavelmente estou babando no balcão agora mesmo …tudo bem, tudo bem, vale a pena.

— Combo Mega totalizando dezesseis e cinqüenta, Senhora.

Preciso de mais uma pergunta! Mais uma chance de ouvir a voz! Em menos de 20 segundos ela não estará mais aqui. Deve estar atrasada pra sessão pois batuca o cartão de crédito nervosamente no granito. Droga! Não consigo pensar em outra coisa.. nada mais inteligente que …

— Cartão ou dinheiro, Senhora?

Sem dizer nada, nenhum som de impaciência, ela estende a mão. Os dedos demasiados na ponta para que eu possa tocá-la.

Senha.

O “piii” infernal da máquina.

Fim.

— Obrigado e tenha um ótimo filme, Senhora.

O balançar discreto da cabeça em agradecimento, o meio sorriso que eu mais adoro nesse mundo, e ela está de costas para mim em 1…2…

— Gostei do novo corte de cabelo, Mardel.

Deus, o que é isso? Meu coração fugindo do peito? Mais uma vez, sou incapaz de dizer qualquer coisa melhor que … ei!

— Na verdade, é Mardem, Senhora.

 __________

Co-autoria de Telma Amorim. (Perfil no Orkut) =D

Obrigada pela ideia, querida.

Texto Fantasma

00:15

Mais uma vez, o cursor piscava desesperadamente na tela do computador.
A música de fundo sorria da cena deprimente: “Just a little patience…”. O copo de café pela metade, as mãos juntas num ritual desconhecido, o olhar distante: meio cansado, meio viajante.

00:30

Mais uma vez, a procura pelas palavras certas no momento errado.
A melodia assoviada parecia zombar da situação, aquilo não era nada tranqüilo e calmo. Apesar do silêncio do lado de fora, a cabeça gritava velhos versos e poesias. Por que quando se quer escrever algo novo, as idéias já usadas vem à cabeça? Não pareciam servir pra nada.

01:00

Mais uma vez, o corpo tenso.
O backspace sendo esmurrado a cada frase mal desenhada. “Não é isso que eu quero dizer!”, o sentimento é sempre muito maior que as palavras, e esse bendito gosto pela escrita que não deixa a tela preta assumir o lugar desse branco – hoje, tão assustador.

01:30

Mais uma vez, uma página.
Uma maldita página que, sozinha (coitada), conseguia destruir tudo o que não foi escrito. A música parou, o café acabou, o ar esfriou. E agora, José?

02:00

Mais uma vez, os motoqueiros começam a curtir a festa.
Todos drogados e felizes, irritando a vizinhança e, aqui dentro, fazendo a cabeça começar a latejar. Ah, não! Só mais um pouquinho! Só mais uns minutos de saúde, antes da derradeira explosão da dor noturna. Os lábios contraídos em sinal de alerta, qualquer coisa que sirva de médium para o coração, qualquer coisa serve.
Mais uma estrofe. Mais um estrago. “Mais café, por favor!”

02:30

Mais uma vez, os olhos percorrem o quarto.
Não pode ser tão difícil assim descrever uma sensação. Não pode ser tão complicado assim ler o coração! Mas é. De repente, uma constatação: o amadurecimento. Os versos pateticamente rimados da adolescência já não servem mais. Uma surpresa tão boa quanto a dessa noite merece coisa melhor que uma recompensa adolescente, ou assim, tão desconexa e confusa, como a mente que escreve esse texto.

03:00

Mais uma vez, a releitura da página escrita, na busca do engajamento literário.
Nada.
As batidas agudas na cabeça aumentam, os cílios superiores criam, de repente, uma atração avassaladora para com os cílios inferiores. A razão (e o que resta da consciência) fica dividida entre a persistência e o aviso de que a jornada de trabalho está próxima.

03:15 (ou 03:30, quem sabe…)

Mais uma vez, a decepção com a perseverança, abatida pela borracha da incapacidade criativa (a essa altura, mais parecida com uma insensibilidade emocional). Mouse movido para o canto superior da tela. E o clique no “x” do desassossego.
“Deseja salvar as alterações?”
Nenhuma vale a pena ser salva.

Finalmente, mais uma vez, o escuro psicodélico dos sonhos e os flashes felizes do desejo.
Quem dera esses pudessem ser salvos…

Carta de uma jovem velha

Não sei se poder inconsciente de um livro, ou fato consciente da vida, hoje descobri: sinto-me uma velha. Dessas que viveram à toda atrás de um amor, ainda que aqueles de verão.

Invejo quem pode se apaixonar, sem vergonha do colorido das palavras, do sustenido do coração… tão óbvio, tão adolescente. Um coração quente que não se pode gelar, nem pela morte.

Sinto-me uma velha ao observar o comportamento dessas crianças, sempre radiantes, combinando com os dias intermináveis de sol .
Enquanto eu, aqui, sentada a olhar as nuvens sem forma, o ar denso e triste, os passos apressados dos corações descompassados de tanto amor.

Meio século se passou desde o primeiro beijo apaixonado, e nada é como se fosse ontem, mas sim como um futuro do passado. Assim: tão trágico e sem esperança.

Sinto-me uma velha com esses olhos insóbrios de tanto esperar.

Uma velha escondida entre os tantos romances avassaladores e eternos. Aqui, sentada, regando com esforço o hedonismo nas madrugadas de saudade.

Depoimento

Sonhou por semanas com o sujeito. Daqueles sonhos forçados pelo pensamento constante, e quando acordava, era atacada pela frustração de voltar à realidade, somada com o espírito preguiçoso de ter que viver, sem ele.

Quem se importa?

A cada passo da rotina, procurava o olhar que (lá no fundo, sabia) nunca mais poderia desfrutar.
Nenhum indício de sua presença poderia amenizar a dor da ausência. Até um pequeno pedaço de pano estampado com aquelas manchinhas, trazia à tona a sentença tão dolorosa: há muito tempo já não era sua companheira e amiga. E vice-versa.

Agora, sua mais fiel companheira era a saudade.

Não sabia se era mágica (das mais macabras), ou apenas força do pensamento (ela não era cética à isso?), acontece que o encontrava sempre que, quando andando distraída, seu pensamento chamava inconscientemente – e calorosamente – o nome. Era assim mesmo, como convocar com varinha mágica, ou teletransportar com a mente: só um nome e, shaaazaaan! Ele aparecia.

Falar em “magia do amor” quase soava cômico perante o instante de angústia.

A reação era sempre a mesma: com o pulo do coração, as mãos se moviam num movimento de aceno enquanto os lábios se levantavam num sorriso, que frustrado, esperava que o outro lhe espelhasse. Enquanto isso, a mente, com a ajuda dos olhos levemente distantes (será que ele perceberia?), captava o máximo possível da cena, que seria repassada pelas noites seguintes.

Afinal, os olhos não mentem, não é mesmo?

Presa ao histórico da vida meio esquizofrênica que tinha com o dito cujo, espantava a vontade de ter qualquer contato mais próximo, pois tinha medo do que poderia fazer quando o a corrente elétrica do corpo do indivíduo a alcançasse. Lembrava vagamente das conseqüências desse contato, já que seu cérebro insistia em guardar apenas a sensação dos toques, mas ainda assim, estava certa que era preferível que evitasse.

Hora após hora de um mês, ano após ano das cinco décadas seguintes, a pobre mulher repetia a cena. Sempre que o via, e sempre que deitava a cabeça nas películas do cinema que se tornava o seu quarto à noite.

Ignorava todas as datas românticas do ano: dia dos namorados, do pais, das mães e até o natal familiar… que passaram a significar apenas a evidência de que estava sozinha, sem seu mais querido e admirável gato malhado.

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Beatriz tem 68 anos e é fascinada por gatos. Para compensar a perda do primeiro, que teve o coração (e o corpo) roubados por uma felina de rua, hoje convive com 13 siameses, 4 balineses e 2 bengalis, mas nenhum deles conseguiu ocupar espaço do malhado em sua vida, que nunca mais retornou à sua casa. 

Ensandecer

Quarta feira, vinte e três horas e quarenta e cinco minutos de uma noite gelada em São Paulo.
Sentadas nos bancos frios, as pessoas se recostam em seu espaço como podem, ou acotovelam-se no corredor cheio de mochilas e pastas. Estudantes, na certa. Eu também.

Transporte público não é muito divertido, principalmente quando você está perto de desabar de sono ou cansaço, depois da batalha diária. Mas, naquele dia, ao menos alguma coisa aconteceu. Alguma coisa que despertou alguns da sonolência, irritando-os. A mim, apenas divertindo. Até que enfim.

Sentado no banco do motorista, o homem inquieto apertava cada vez mais o fone no ouvido, talvez na esperança que pudesse fazer parte do universo que ouvia; então, durante as manobras nas curvas molhadas pelas quais direcionava o ônibus, ele gritava, num surto de emoção visível em seus olhos repentinamente arregalados:

– TIRA ISSO DAÍ! ….ACABA LOGO COM ISSO PELO AMOR DE DEUS!

Eu ria. Me divertindo com o nervoso do homem, que, no limite das possibilidades, dava pulos em sua cadeira e se mexia sem parar. Alguns passageiros reclamavam aos sussurros da imprudência do homem.

– Como ele pode dirigir desse jeito? Vai acabar batendo o ônibus!
– Gente assim não tem jeito não … é doença.

Foi nessa hora que eu me dei conta da loucura do homem. Não a loucura que era dirigir um ônibus enquanto envolvido em outra atmosfera (ele quase parecia cego), mas a loucura que o fazia dirigir um ônibus, mesmo totalmente disperso. Devia ser doença mesmo, loucura das bravas!Eu nunca via pessoas tão apaixonadas por uma coisa daquele tipo, dava pra ver que a tensão que emanava do motorista envolvia cada um que fazia parte da “espécie”, inclusive eu. Bipolaridade talvez? Quem sabe…

– SAI, SAAAI! … UUUUUHH! AÊÊÊÊ, JÁ DEU! JÁ DEU! 3 MINUTOS? PUTA MERDA!

Os três minutos seguintes, pareceram durar 10, pra mim. O coitado devia estar com a sensação que duravam, pelo menos, mais 45min.

– AEEEEW JUIZÃO! ACABOOOU! TAMO NA FINAL ! VAAAAI CORINTHIANS!!! “AQUI TEM UM BANDO DE LOUCO ….”

E a gritaria durou até que eu deixasse o ônibus, sorrindo com a situação, e com o alívio de saber que tudo tinha acabado bem, pelo menos aquela noite.
O homem, ah, ele não estava sozinho apesar de sua voz ser a única a explodir naquele espaço, pelo menos mais 25 milhões de corações espalhados pelo Brasil gritavam o mesmo hino, a mesma vitória.

Deitei-me aquele dia ainda com a cena em minha cabeça, o sorriso no rosto e uma música de fundo que dava o tom perfeito pro acontecimento.

♪ “…. eternamente, dentro dos nossos corações …” ♪ 

Que burocracia, que nada!

Se tinha uma coisa que Júlia não suportava, era pedir dinheiro ao seu padrasto. Ele a adorava e fazia tudo por ela. Ela só falava com ele aos gritos, descarregando no coitado suas frustrações e desesperos inventados. Um dia precisou dele, mas foi esperta:

A enteada do Gerente de Comunicação daquele banco, na sessão de empréstimos, com um ar superior:

– Preciso de R$10.000,00 para pagar em 15 vezes, sem juros, ainda hoje.

O Gerente de Contas espantado com a ousadia da garota:

-Isso não será possível , o seu limite de empréstimos está realmente muito abaixo do que a senhora necessita e não abrimos exceções sob hipótese alguma.

Uma ligação :

– Pai, preciso de R$10.00,00 pra hoje e o imprestável Gerente de Contas desse banco não quer liberar o empréstimo só porque o meu limite é menor do que eu preciso. Danem-se os limites! Eu preciso disso agora.

O Gerente de Comunicação, assustado com a irritação da enteada preferida, assume uma voz grave e pede que ela passe o telefone para o homem à sua frente:

Uma frase.

-Eu impedi que o escândalo do desvio de dinheiro que o senhor fez se espalhasse. É a hora da retribuição.

Naquele dia, a garota saiu do prédio aos pulos pensando: Com aquele vestido novo combinado com a jóia daquela loja, por onde eu passar na festa, se jogarão aos meus pés. Quero só ver se ele não volta pra mim.

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Você já chegou a contar quantas vezes se comunica com algo, ou alguém durante o dia? Desde decodificar as letras no jornal até a última palavra antes de dormir?
A comunicação está em tudo, todo o tempo, é tão importante que pode ser “confundida com a própria vida.”¹

Pois bem, networking e comunicação são a base do elixir da evolução (e da consignação?)
É simples assim: quem não se comunica, se trumbica.

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¹ É o que diz sobre a comunicação Juan E. Díaz Bordenave no livro “O que é comunicação” (Ed. Brasiliense).

Estranho Lunático Fantástico

Um espírito sarcástico, um estranho lunático, um poema ático e o circo estava armado.
venham, venham conferir : a menina que roubava e-mails do consumidor fantástico!

Em sua busca incansável por novidade, a garota aproveitava toda e qualquer oportunidade. Do quê? De quê? De se dar bem em meio à insanidade.

Já vinha com detector de criatividade embutido em sua mente, passava horas a fio procurando atentamente algum texto, foto e até som que fosse diferente.

Um dia então, a menina o encontrou, numa ironia digna de Sócrates, a ousadia do homem a paralisou. O que podia, pobre menina, fazer para curar esse torpor?

Oh, grande era da tecnologia!

Num e-mail tímido e sucinto, sua admiração mostrou, e nas entrelinhas implorou: Dê a este ensejo mais sabor! E não é que funcionou?

Uma resposta ela recebeu e seu queixo em espanto cedeu. Indelicadamente audacioso, o homem se mostrou tão jeitoso, que até deu medo, o que dizia exatamente aquele e-mail…espectadores, é segredo.

Fato é que se sucedeu então nesse vai-e-vem de palavras, uma coisa que a menina nunca pensava: pôde perceber que a juventude em que estava, perdera o encanto.

Onde foi parar o tempo do casamento santo, de vestido branco e de medo infanto-juvenil que a perna faz tremer? Oh, jovens espectadores, onde está o prazer em desconhecer?

Mesmo triste com a conclusão, a menina só pode render-se então ao humor inescrupuloso do Sr. Falante, continuaria em sua busca, aventureira errante num mundo em que o até o mais chulo, e manjado (manjado?) dizer de pensamentos, era fascinante.

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Eu conheci um cara, cheio de malícia carioca e experiência de vida (é o que parece), vi nele mais que um consumidor revoltado, (foi através de um e-mail rebelde à uma filiada da Semp Toshiba que eu o achei), eu vi nele um escritor/cronista/humorista muito talentoso. Então lhe enviei um e-mail com as minhas parabenizações, ele respondeu, e aí escrevi esse .. bom, sei lá o que é isso, só pra guardar esse capítulo da minha história em algum lugar … 

Agora ela era bixo

Agora ela era bixo, pode?

Aquela menina magricela do cabelo de bombril que, por artimanhas com a diretoria da escola (era o que diziam) foi jogada na 2º série do Fundamental, quase sem passar pela primeira.
Coitada!
Vieram os apelidos.
– Aêêê, “primeira série”! Sabe soletrar a palavra BOCHECHUDA sem errar?

Ela não sabia. Mas acabou aprendendo, pela força do hábito.
Agora ela era bixo, pode?

Aquela estranha que se vestia da cabeça aos pés de vermelho, sentava na primeira carteira, de cara com a professora e mesmo assim falava pelos cotovelos. Na reunião bimestral de pais era sempre a mesma coisa:
– Ela tem ótimas notas, só precisa calar a boca.

Ela não calou. Força do hábito.
Agora ela era bixo, pode ?

Aquela vizinha esquisita, não brincava com as garotas da mesma idade, vivia em casa, trancada à chave, o que gostava fazia lá dentro? Ninguém sabe.
– Oxem,tinha era se entrosar, parece até bicho do mato!

Ela não se entrosou. Eles estavam certos.
Força do hábito?
Agora ela era bixo.

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Me perguntaram o que eu espero do 1º dia de Faculdade.
Resposta:
– De verdade? Só espero que não me pintem muito 😉

Descobrimento [2]

“Quem um dia irá dizer, que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”

Engraçado como funciona o começo de uma amizade. Chega sem pedir licença (como as borboletas quando se está amando) então vai tomando cada íntimo e cada filete de pensamento aleatório, então, quando você se dá conta, está torcendo pra aqueles seus amigos (mas já amigos?) estarem de bobeira sentados numa calçada à luz do crepúsculo.

Assim aconteceu com ela.

Enquanto vagava pelo caminho tão conhecido e comum, ela estava apenas ligeiramente consciente do lugar aonde ia. Seus pés moviam-se na direção a que estava acostumada a ir : aquela rua alegre e movimentada que era o endereço de sua mais próxima amiga. Diminuiu o passo subitamente : Pois é , nunca se sabe o que está na direção antes do derradeiro alcance do ponto.

No momento em que se aproximava deles, seu coração se enchia de um sentimento que ela havia experimentado poucas vezes : uma delas aconteceu quando ela foi finalmente aceita como “colega de mesa” daquela menina branquinha e inteligente da 2º série.

Não podendo ser diferente, juntou-se aos homens que estavam sentados na calçada em frente à casa que outrora era seu destino.

Deu-se início então ao descobrimento, mais um.

Um dos senhores, era sereno e quieto… escondido sob um sorriso tímido e inteligente, pensador.

O outro era o seu problema, o seu grande ponto de interrogação, um estranho do qual ela – subliminarmente – preferia não conhecer: de um gênio extrovertido e irrequieto (ou achava ela que era assim), fazia ele as mesmas piadas e comentários de sempre – que nunca perdiam a graça – e falava do amor como sua maior dádiva, enquanto demonstrava o seu descontentamento com o casamento,bem… um estranho com certeza.

Citava a liberdade de expressão, a fusão de pensamentos e sua total descrença para com a opinião da menina:
– Como pode a mim desconhecer, se te falo com toda clareza sobre meu ser, meu querer .. se exponho em tamanha liberdade o meu saber, se canto com toda a minha alma límpida o que vive em mim?

Ela, a garota, não tinha respostas para isto, sabia apenas que não sabia. Não via como descobrir quem realmente ele era, ou o que guardava por trás dos versos que inventava… não sentia seu íntimo apesar do gostoso conforto em que se encontrava em sua presença e não dispunha de nenhum recurso para sonda-lo, pois parecia que tudo na prisma daquele homem era o acaso, o momento, a instabilidade, senso assim: se conseguisse uma resposta para um de seus questionamentos, no dia seguinte a mesma não valeria mais.

Naquele momento, enquanto a noite brilhava no céu quente de nuvens desenhadas, ela se conformou, desistindo de buscar o “eu” do estranho que lhe fazia bem, oras, ele lhe fazia bem, já não era bom?
(…)
Nem frustração, nem pesar e nem angústia tomaram a garota aquele dia, pelo contrário: um conhecimento tinha sido somado á sua vivência: o homem muda, a mente evolui e o corpo se altera, e isso não devia ser visto com olhos pessimistas, como mais uma prova de que nunca chegaremos à solução para os problemas humanitários, a procura pela resolução é tanta… que se esquece o que quer resolver. Suas buscas de respostas para as coisas mais simples, impediam-na de apreciá-las.

Sim, leitores… o homem muda, a mente evolui e o corpo altera: isso é a valorização da alma!

Então, quando o escuro estava lá em cima, no meio da noite, meia noite, a menina fez o que não conseguia fazer normalmente há dias: dormiu.

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Aos “Irmões” , esse texto que começa como uma reflexão sobre a amizade, passa pela reflexão sobre o comportamento do homem e termina na reflexão sobre a vida.
Não há aqui, nada que alguém já não tenha pensado e escrito, mas isso não quer dizer que não vale a pena … 

Verão

Verão. Dia ócio e frio… estranho? Pois sim, ela acordou cega.

Sem o seu mais precioso sentido, passou a ignorar todas as outras coisas.
Não falava, não chorava, não sentia quando tocada, nem mesmo sorria enquanto abraçada.
Sentia-se traída pela vida, por não ter o que julgava seu destino… ficava enraivecida todo o tempo…não compreendia a razão de tanta ilusão e isolamento, mas estava convencida de que não se importava com isso.

Não se arrependia de nada, não considerava soluções para nenhum problema, nem mesmo cedia à vontade de voltar atrás.

“O que os olhos não vêem, o coração não sente” ? Ótimo, vida eterna à sua cegueira.

Estava certa de uma coisa: aquele ordinário acontecimento a qual todos cediam não lhe ocorreria mais, a paixão era uma palavra riscada de seu, ora tão rico, vocabulário.

Das coisas que só o coração poderia entender, tornar-se-ia ignorante, rendida à cega frieza da ociosidade em que se encontrava.

Estranho, era verão.

Revelação Contrária

Sua “caneta” digital não se movia há dias. De tão inutilizadas, as teclas de seu teclado eram agora um tapete muito convidativo à poeira já inerente do escritório. Não tinha nada na cabeça e isso o perturbava como nunca.

Desde que entrara naquela sala pela primeira vez, seu ofício era pensar: e fazer com que seus leitores se identificassem com seu sentimento forjado e suas idéias de uma vida melhor propositalmente comerciais e irresistíveis.

O cursor piscava desesperadamente na tela do monitor – também empoeirado – como se dissesse: “Mova-se, mova-me.” inúmeras vezes.

Há anos fora incumbido de desenhar com palavras o caminho para a felicidade dos outros, e isso (pensara inocentemente) lhe serviria como base para o traçado de sua própria felicidade. Coitado.

Escondeu o rosto em suas mãos, esperando que o vazio dos olhos lhe mostrasse a luz que lhe daria o reconhecimento do dia seguinte. Foi em vão. Digitou ao menos 15 vezes a mesma palavra: “pense” , numa tentativa de indução do cérebro pela repetição..
Acordou. Então era isso : a repetição, não! A mudança !

A robótica de suas ações havia, inevitavelmente, enferrujado. Ocorreu-lhe então que as palavras que tanto buscava não podiam ser descobertas sem que ele mudasse o curso de seu raciocínio, justamente a novidade lhe proporcionaria estabilidade, e a mudança lhe traria bonança.

Naquele momento de revelação, seu computador apagou junto com a luz geral do prédio, lamentou não poder colocar sua claridade mental espontânea em ação de imediato, mas sabia que ela seria durável o suficiente para que ele voltasse ao escritório pela manhã e limpasse de bom grado seu teclado empoeirado. Seria então o que havia sido há 47 anos: novo.