(Des)engano

Eu me espreguicei e desenrolei só para me enrolar de novo na coberta por mais um tempo. É tipo um jogo que eu faço, sabe? Para enganar a vida. Eu finjo que vou fazer uma coisa, quase faço, mas aí volto atrás e faço outra coisa diferente. É legal enganar a vida assim, faz eu me sentir no comando das coisas, como uma garota esperta.

Eu não estou na minha casa de verdade. Na verdade, eu não tenho uma casa. Eu, a Mãe e o pai dormimos num só quarto, que é cozinha e sala também. Não sei dizer o nome do lugar. Eu sei que aqui é Parelheiros. Mas eu sempre erro o nome, porque é uma palavra difícil. A minha mãe diz que eu tenho que ficar aqui com a Mãe Sara e o Pai Nê durante a semana, para ela poder trabalhar bastante e construir uma casa pra gente.

A Mãe Sara é minha madrinha e o Pai Nê é meu padrinho, e eu chamo eles assim desde quando dava para contar minha idade numa só mão. Agora, eu conto a minha idade com todos os dedos da mão direita e mais um dedo da mão esquerda.

Dessa vez eu acordei para levantar de verdade. Fico escutando o barulho da casa, mas hoje está tudo superquieto. A minha barriga está falando comigo, então o plano é descer até a cozinha e ficar sentadinha até a madrinha perguntar se estou com fome. Aí eu digo que sim, e ela me dá alguma coisa.

Eu saio do quarto e o Pai Nê está no corredor. — Mas você dorme, ein, mocinha? Não sei o que responder, então só sorrio e fico esperando ele dizer outra coisa. Ele não diz nada. Em vez disso, estende os braços para me pegar no colo. Ele nunca fez isso antes, mas, como tenho que ser obediente, simplesmente subo.

Não saímos do lugar. Os segundos estão passando rápido e devagar ao mesmo tempo quando a mão trêmula dele toca a minha calcinha por debaixo do vestido. Meu coração começou a bater tão forte que acho que dá para escutar. Ele continua não dizendo nada, e parece que passou tempo demais até eu arregalar os olhos, e começar a lutar para descer do colo. Ele me segura mais um pouco. Mas aí eu empurro o peito dele com força, ele me solta, e eu corro para a escada.

Tenho que respirar fundo e disfarçar a cara de susto antes de entrar na cozinha, para o caso da Mãe Sara estar aqui. Mas ela não está. Eu não sei se sinto medo ou alívio. Vou ficar lá na frente da casa esperando ela voltar da rua. Quando ela voltar, eu conto o que ele fez. Mas o que ele fez? Acho que eu não estou pensando direito. Deve ter sido sem querer. Eu devo estar exagerando. Acho que a madrinha vai ficar brava comigo, pensar que eu estou vendo coisa. Acho que a Mãe ia ficar triste e começar a beber mais. Também tem que eu fico aqui de favor. Se eu conto pra Mãe, ela ia ficar sem saber onde me deixar. Fora a amizade delas, desde antes de mim. Ai meus Deus, e se? Mas, nem. E agora? Agora não posso chorar. Nem sei como estou pensando tudo isso.

Acho que só vou ficar aqui sentada. Se ele fizer de novo, eu conto pra Mãe. Se não fizer, eu vou enganar a vida de novo: vou fingir pra ela que inventei isso. Sei lá, criança é boa em inventar as coisas.

Nota da autora: primeira vez que escrevo sobre a #meuprimeiroassedio. Assumi o papel narrativo da Gessica de 6 anos de idade e… foi libertador.

Carinhoso

Ele cantarolou Pixinguinha a manhã inteira. Arrumou a cama, tirou o pó da estante de livros, limpou o banheiro com desinfetante de lavanda, colocou as roupas na máquina e preparou o almoço, ninando a abóbora ao som de Rosa. Estátua majestosa.

Depois de almoçar, lavar e guardar a louça, assistiu o jornal da tarde e tirou um cochilo. Acordou para um banho e um bom moletom. O perfume da vez era cítrico. Ao sair, virou a chave quatro vezes, para garantir. O encontro com  Leco estava combinado às catorze, no posto de saída da Rua 19.

Quando chegou, ela ainda estava lá. Escondida entre galões estocados num canto. Encaixou-a com cuidado na cueca, ao lado direito do pênis. Minutos depois, Leco buzinou duas vezes, e ele embarcou no banco do passageiro.

Não teve papo no caminho e, ao entrar no restaurante, tudo aconteceu muito rápido. Todos do chão. Quietinhos. Vai, moça, eu quero só o dinheiro. Leco mira os clientes. Vários com boca cheia, olhos de desespero. A moça ia pegando o papel do caixa e depositando no saco verde e amarelo com as duas mãos. Habilidade e cabeça baixa.

Então ele decidiu checar a área. Leitura dinâmica, como de costume. Viu a criança. O coração bateu feliz não-sei-porquê. Foi até a menina com o cuidado de esconder a arma. Ninguém se mexia. O cafuné foi sincero e o sorriso esforçado. Sob os seus dedos, ela só estremeceu um pouco. Calma, linda, não vou fazer nada com você.

Nem ele nem o Leco perceberam a Juíza lá no fundo. Não deu tempo de assimilar o estampido, nem os gritos, nem o choro instantâneo da garota. O encontro dos joelhos com o chão fez um barulho oco, mas Leco não ouviu, já cruzando a porta.

Na redação do jornal, pairou a dúvida em publicar a versão Preto & Pólvora.

E aí, chefe, sessão Cotidiano?

Não, bora variar um pouco. Foca no carinho.

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Texto baseado na manchete:

Criminosos invadem restaurante e ‘acalmam’ criança com carinho” Globo.com, 02/08/2016.

Diz para ela

Volta lá e diz para ela parar de ser besta. Que esse negócio de ser feliz para sempre com um homem é exercício utópico e que nunquinha funciona na real. O negócio é ser feliz agora. Aliás, ela é livre para escolher homem, mulher, o que ela quiser, viu? Só para deixar claro.

Diz para ela parar de se comparar com as garotas brancas da escola, que o nome desse complexo de inferioridade é racismo, e que essa busca por ser diferentona através do rock não vai dar em nada se ela não parar e olhar para si mesma, de verdade. Sem vergonha do corpo, cabelo, cor, trejeito.

Outra coisa: já passou da hora de deixar de ser trouxa. Não importa se o cara é superdotado e descoladão. Não se sente confortável para falar? Tá na hora de cair fora. Faz ela sentir que nunca pode ser feliz com outra pessoa? Cai fora. Quanto mais machuca, mais ela quer ficar? Fora. Se diz entendido das mulheres, mas não dá prazer? Fo-ra. Tem muita gente no mundo para gastar energia.

Chega! Acabou a invejinha da gatinha branca classe média. Envolvida com artes e nerd de carteirinha meu ovo. Com papai pagando a HQ edição definitiva e mamãe fazendo comidinha gostosa para o jantar fica fácil ter tempo e cabeça para isso. Não adianta ela tentar explicar para boy porque sofre. Diz para ela que há mais o que fazer do que ficar recalcada com gente que usa a expressão “não sou tuas nega”.

Aliás, já que ela gosta das artes, cinema e livro tudo, pergunta se ela já ouviu falar do Jean Basquiat, da Ava DuVernay, e da Chimamanda Adichie, só para começar. Existe uma coisa chamada representatividade que vai mudar a vida dela. É tipo assim: superlegal assistir um filme bacana com o Morgan Freeman e tal, mesmo ele sendo quase sempre o clássico “Magical Negro”, mas quando ela experimentar ver Middle Of Nowhere, Faça a Coisa Certa, ou mesmo o “sessão da tarde” Waiting to Exhale láááá de mil novecentos e bolinha, nossa, aí ela vai ver o que é magia negra. Nada como fazer parte. O “Americanah” da Chimamanda vai causar a mesma sensação, com o bônus dos tapas na cara dos que gostam de cortar discurso de oprimido com a famigerada desculpa de exagero.

Com um pouquinho mais de autoconhecimento, menos blá blá blá de gente que nunca passou pela luta, e mais (bastante mais) de amor próprio, ela vai ficar bem, você vai ver. É tudo tão diferente quando a gente entende porque é e de onde vem! Dói para caralho. Dói mesmo. Mas a resistência compensa, eu juro.

Vai, volta lá e diz para ela parar de se culpar por não ser feliz.