Aparte

Sobre tornar-se negra(o)

Sou negra desde que nasci. Não obstante, apenas nos últimos anos examino os reflexos do racismo sobre mim. Até hoje, tenho sido considerada uma mulher inteligente e dedicada, em termos acadêmicos e profissionais. Sempre boa aluna, sempre guerreira, a menina pobre e negra (mas não tão negra assim) que é forte, instruída e articulada.

Tudo muito bom, até o momento em que eu me enxerguei como uma mulher negra. Neusa Santos Souza, psicanalista negra baiana, publicou em 1982 o renomado “Tornar-se negro”, livro onde discorre sobre a complexidade emotiva de um sujeito negro em busca de identidade, no contexto (passado e atual) em que tudo é construído em com base ao que se conhece por branquitude: as normas profissionais (a quem serve os frutos do sucesso em uma lógica capitalista?), os ideais de aparência (apenas digite “penteados profissionais” no Google e conte os crespos), e mesmo os moldes de comportamento, como postura “fina”, elegância, controle emocional, delicadeza, características que raramente são associadas a pessoas negras.

Pensar sobre tudo isso na minha pele é um processo bastante doloroso e, também, confuso. Se antes estava no tronco social sendo açoitada com roupa, agora estou nua. Enxergo a minha cor sem forro, e consigo ter orgulho dela, mas me tortura a consciência. Às vezes, a dor paralisa, o que por sua vez, gera mais angustia, e então forma-se o círculo de culpabilização de um(a) negro(a) em processo de descobrimento: além de não saber-se como parte da raça, e nem como indivíduo, há todo um contexto de depressão, ansiedade e aflição latentes que nos afastam de um cotidiano normal.

Sempre gostei de escrever e atualmente, que tenho produzido textos com frequência, uma coisa me enerva: quase não produzo textos ficcionais. É uma contradição, pois ao mesmo tempo que me incomoda escrever sobre experiências e percepções pessoais, em frente ao Word apenas vivências vem à cabeça. Sou tragada pela minha própria realidade, luta, ansiedade. Isso quando simplesmente não consigo produzir em questão da insegurança alimentada por uma trajetória solitária em que praticamente não tive exemplos a seguir.

Eu sou, como outras tantas pessoas negras, alguém que, mesmo com a sensibilidade e inteligência aguçada para o aprendizado desde pequena, sinto o peso de ter crescido em um ambiente familiar hostil e nada estimulante intelectualmente, o peso de ter a autoestima ferida, inclusive por amigos, por não me encaixar no padrão estético e comportamental estruturalmente branco, o peso da dessemelhança na bagagem intelectual comparada a pessoas que tiveram o privilégio de melhores condições de estudo e acesso à culturas, e também o peso de ser mulher: muitas vezes diminuída à importância de saber apenas o que é relacionado às tarefas domésticas e tendo que defender constantemente minha propriedade intelectual frente a brancos e machistas.

Não é fácil. É realmente pôr em xeque a minha capacidade, e pior: me deparar com a realidade de que, não importa aos outros como me sinto em relação a tudo isso ou se não tive condições de me “equiparar profissionalmente” a colegas (meritocracia manda lembranças). Importa o status. E o status já é considerado inferior desde a base. É preciso tomar muito cuidado para não se perder e desesperar nesse labirinto do racismo: o caminho é sempre complicado e não parece haver saída certa, daí a sensação de impotência. Neste caso, a afirmação da identidade negra e a consciência de questões relevantes como o machismo são, ao mesmo tempo, a luz e a sombra do caminho. Ora impulsionam pela ótica da resistência, ora retardam pela lógica da opressão.

Um dos agravantes do quadro é ser a exceção ao meio. Justamente por vivermos numa sociedade em que a ascensão social está diretamente ligada à clareza da pele, quanto mais eu cresço econômica e intelectualmente, menos estou entre os meus. Na universidade era exceção, nos empregos até hoje, idem, nos cursos extraclasse, também. É triste perceber uma presença tão pequena de pessoas negras em lugares mais diversos que apenas os postos de segurança, os balcões de serviços diversos, os quartos homeopáticos de empregada nos apartamentos-casa-grande. Isso não é por acaso, mas eu demorei para entender o porquê e, apesar de ter conseguido me esquivar do status quo que a mim era designado como mulher preta, sou totalmente sensível e desperta de que não é por falta de vontade e esforço que outras pessoas não conseguem. Ter que lidar diariamente com o peso da cor é exaustivo. Não à toa, mulheres e homens, sem perceber, tentam afastar-se de sua negritude e, automaticamente, adequar-se à lógica branca das mais diversas formas: na vestimenta, na linguagem mais adequada à norma culta, na omissão em conversas com maioria branca, no hidróxido de sódio no cabelo.

Foi pensando sobre isso que eu entendi o real significado da gíria “fortalecer”. “Fortalece os irmão!”. Fortalecer é compartilhar da mesma dor, é dividir o peso da luta, é compensar (com uma conversa, com uma ajuda material, com compreensão) um ao outro por todo dano psicológico, social e econômico causado pela sociedade racista que, aliás, nega a culpa com indulgências do tipo “quem quer, consegue”, “fale menos e faça mais”, “você nunca ouviu falar do Joaquim Barbosa?”.

Eu já ouvi falar do Joaquim Barbosa, mas não sou ele. Ele, inclusive, também é exceção. Eu sou eu, sou mulher, preta, única, e quero ter o direito de ser humana e viver toda a minha humanidade como individuo, com consciência sobre as mazelas que afetam as pessoas negras no Brasil e no mundo. Não por fraqueza, não por complexo de inferioridade, mas por justiça. Por verdadeira equidade frente à máscara branca, cisgênera, machista e de preconceito religioso que chamam de #somostodosiguais.

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