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Eu não quero mais ser uma garota rock n’ roll

Eu sabia que não era a pessoa mais legítima do mundo quando tinha quinze anos.

Pudera, meus looks da escola eram um carnaval de estilos: peças floridas, camiseta de rock com jeans e coturno, calça pink com camiseta nerd. No dia que eu apareci com short e tênis de skatista e boné no cabelo, um amigo levantou as sobrancelhas e me disse: quem é você e o que fez com a minha amiga?!

Eu juro que não sabia a resposta.

Ansiosa por fazer parte, como (acho) é natural da idade, eu não me encontrava em lugar nenhum e pulei de galho em galho em busca do rótulo de autenticidade que, claro, não podia ser dado a mim por nenhum dos grupos que pertenci, senão por mim mesma.

Nessa época, um milagre (cof cof) chamado rock n’ roll aconteceu na minha vida, e eu até achei que tinha achado o meu lugar. A maior parte do grupinho da escola era roqueiro, incluindo a minha melhor amiga e o garoto por quem me apaixonei. Comprei coturno, uns trecos com spike, umas camisetas. Baixei uns CDs, pesquisei no Google sobre Metallica, Kiss, System of a Down. Fui ao show do Evanescence e até pendurei pôster do Slipknot e Green Day no meu quarto.

Foi bem louco.

Eu não sabia de verdade o que essas bandas significavam, não conhecia nem 50% do repertório de nenhuma delas (com exceção, talvez, de SOAD) e também não era uma fã inveterada. Mas integrar a roda e manter uma aparência ~diferentona~ era tão importante, que eu sustentei um disfarce, curtindo aqui e ali os nuances dele.

Os shows foram ótimos, eu chorei inúmeras vezes com “Beth”, “Always” e outras tantas. E, claro, escuto muitas bandas até hoje.

E daí que esses dias vi um cara no trem. Aparentava uns 40 anos, estava todo de preto, com camiseta do Iron Maiden. Eu me recordei nele e achei ridículo. Lembrei de quando eu achava que seria “roqueira” pra sempre, de quando eu achava superimportante afirmar uma identidade única, um estilo próprio, característico e marcante, porque seria ruim demais imaginar que eu “não tinha uma personalidade forte”. Muitas vezes, “personalidade forte” é um eufemismo para intolerância, preconceito e egoísmo. Faz o tipo de gente que sustenta o discurso “me ama ou me odeie” sem o menor senso de empatia.

Muita coisa mudou em dez anos.

Ter doado o coturno (que custou metade do meu salário na época!) foi um ato simbólico de quando eu caí na realidade que eu não precisava sustentar estilo nenhum, muito menos um que me representava tão pouco. Quando li o texto do Fred Di Giacomo sobre como o rock “nos fez ter vergonha da nossa cultura, dos nossos cabelos e dos nossos sotaques” foi ao mesmo tempo um orgasmo e um tapa na cara.

Todas os meus ídolos roqueiros eram brancos. Todas as roqueiras que eu admirava, idem. Isso ferrou com o meu amor-próprio de uma forma tão natural (ou melhor, estrutural) que óbvio, como a lógica racista pede, eu sabia, eu sa-bia, que nunca ia ser tão cool, atraente e bonita quanto aquelas pessoas. Simplesmente porque, não tem jeito (?!), todo mundo acha e sempre vai achar cabelão, rosto fino e pele de porcelana mais legal, não é?

NÃO É. NÃO TEM QUE SER.

Um som originalmente negro (diz aí, Chuck Berry!) que foi embranquecido, tornou-se conservador e arrogante, fechado num grupo chato de pseudo-elite-pseudo-intelectual. Aqui no Brasil ainda mais, com a questão da língua intrínseca. Que máximo saber cantar/falar inglês, quando a realidade é que apenas 5% dos brasileiros têm fluência na língua, né? NÃO É. No contexto em que vivemos, ninguém deveria ter vergonha de não compreender inglês. Essa vergonha tem muito de complexo de vira-lata.

Não me importar mais em me afirmar uma garota rock n’ roll para mim também significa a liberdade de ser a boa merda que eu quiser. A liberdade de conhecer outros sons que negligenciei por causa do rock, por causa da maldita baixa autoestima, insegurança e etc. que, claro, é irmã da adolescência, mas mais que isso: é filha primogênita do racismo.

Hoje eu escuto uma música como “To be Young, Gifted and Black” interpretada pela fucking Nina Simone e me sinto REPRESENTADA. Aquilo sim é sobre mim! É sobre os meus anseios como mulher negra! É sobre como muitos de nós [negros] nos sentimos. E foi uma preta maravilhosa que trouxe isso ao mundo, não é incrível? É.

A importância da representatividade até então, para mim, estava dissimulada de necessidade de pertencimento. Como e para quê pertencer a um grupo que não te representa? Obviamente, este é um processo totalmente ligado à formação de identidade e, por isso, leva tempo. Mas eu ainda vejo pessoas adultas numa luta ingrata por afirmação, por pertencimento, sem refletir sobre o que realmente condiz com a sua personalidade, origens, trajetória de vida, luta.

Se desligar de estereótipos vai além de liberdade, é também sobre empoderamento. É dizer para si mesmo (e para quem quiser ouvir): eu não quero me encaixar e apenas fazer parte, eu quero SER parte, quero sentir.

Eu não quero ser uma história única. (Thanks, Chimamanda.)

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