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Minha Transiçao Política Capilar

Eu não comecei a alisar o meu cabelo porque queria ter o cabelo liso. Eu nunca achei o cabelo liso mais bonito que cabelo cacheado, nem quando eu era criança, nem adolescente, nem agora.

Isso é algo importante sobre a minha história capilar: eu era pirralha, mas tinha noção da minha cor de pele e tinha noção que meus cachos, de certa forma, me identificavam como pessoa.

Daí, quando eu comecei ir pra escola aos 7 anos, aconteceu uma mágica!

Uma mágica chamada “ensino fundamental de uma escola de periferia onde cabelo crespo é cabelo ruim”.

Isso, aliado ao fato de eu ter uma fada madrinha cabeleireira que me incentivou a começar o relaxamento pra “amaciar”, foi o start da minha vida quimicada.

Eu relaxei o cabelo a primeira vez (era isso que o produto, Hair Life, dizia – creme de relaxamento) porque era muito, muito difícil penteá-lo de manhã antes de ir pra escola. Como outras garotas de cabelo crespo, eu também não gostava dele muito cheio e muito menos do aspecto seco. O relaxamento soltava os cachos, facilitava o pentear e controlava o volume.

#tudocomportado

Se eu soubesse o trabalhão que ia dar pra retomar a minha textura natural – 12 anos depois de relaxar pela primeira vez – não teria aceitado a sugestão da minha madrinha. Mas naquela época ninguém (ou pouca gente) falava de negritude, de liberdade, de Black Power como moda (eca ¬¬), nem nenhum dos “incentivos” que hoje existem para que mulheres de todo tipo libertem-se dos padrões e descubram sua identidade, origem e beleza real (que, vale dizer, não deve ser ditada por ninguém).

Mesmo com o cabelo “bonito” (lê-se: com cachos perfeitinhos, outra merda que domina a cabeça das cacheadas, com o perdão do trocadilho), eu ainda usava muito ele preso, porque tinha vergonha do volume.

Meu penteado favorito. Sorry, amiguinhas 🙁

Depois dos 15/16 anos, comecei a admirar cabelos cacheados com volume. Eu via mulheres com black ou com o cabelão volumoso na rua e pensava: essa tem atitude. Aí comecei a tomar coragem pra usar o meu solto mais vezes também, e isso foi muito importante para o desfecho dessa história.

Colagem Transição 2

#vemnimimvolume

Eu até gostava do meu cabelo na adolescência. Tinha minhas brigas com ele, mas em geral gostava de como a química moldava os cachos e raramente tive problemas de ressecamento, queda e essas coisas. Ainda assim, o tratamento era chato e maldoso.

Eu comecei perto dos 10, parei aos 23. Era uma dependência química das bravas e, grazadeus, há algum tempo ,inspirada por uma amiga que também se livrou da química e por blogs de cacheadas não-anônimas (alguns links no final do post), comecei a minha saga ao resgate da minha identidade capilar (e étnica também).

Eu devo ter feito chapinha/escova umas 10 vezes nesses 13 anos (acho muito artificial, mas às vezes queria “uma cara diferente”, pff.), mas uma coisa eu digo: é chato. Dói. Queima. E, definitivamente, não é “mais fácil do que manter os cachos” como muitas meninas que alisam dizem. E, não, NÃO É PRECISO SOFRER PRA FICAR BONITA.

A pergunta que foi decisiva para eu tomar a decisão de entrar na transição foi: como é mesmo o meu cabelo natural?

Aí eu comecei a cortar e bingo: comecei a ouvir merda.

DSC01597

Primeiro corte rumo ao BC em Mar/2014

— Nossa, mas seu cabelo era tão lindo!

— Que você tá fazendo no seu cabelo?

— Por que você cortou tão curto?

— Depois de velha decidiu ter o cabelo ruim. (pasmem! :o)

— Mas você não passa nada pra controlar o volume?

— Nossa, mas na raiz ele é bem ruinzinho, né?

— Faz progressiva só pra soltar a raiz. (queria soltar minha mão na tua cara ¬¬)

— É moda agora usar assim, né? (NÃO, NÃO É! E você pode entender porque aqui)

São algumas das coisas que eu ouço de fevereiro de 2014 pra cá. Isso, plus olhares tortos, plus uma completa ignorância da importância do processo pra mim e outras garotas crespas/cacheadas, plus a minha própria insegurança e bingo: #tátendodificuldade, mas eu tenho certeza que vale a pena.

— Mas você é maluquinha mesmo!

Sou nada.

Maluquice é sofrer por, gastar por e ostentar um identidade que nunca será sua.

Maluquice é permanecer refém da sociedade medíocre, opressora e racista, que continua dizendo – e é só fazer o teste do pescoço para confirmar – que nosso cabelo crespo/cacheado é feio e ruim.

Maluquice é não curtir a chuva, ter vergonha do cabelo na praia/piscina, submeter-se àquele processo cruel e fedorento da progressiva.

O que eu estou fazendo é deixando de ser maluca e indo ao encontro, apaixonado e sincero, da minha FELICINDENTIDADE. =D

Update: Escrevi esse post antes de fazer o big chop, mas aí está meu cabelinho 3 meses depois do BC (que fiz na Clínica dos Cachos em SP e pretendo escrever sobre depois ;P)

Ge2015

O negócio tá começando a ficar BOM \o/

Links de blogs/canais que me ajudaram a chegar aqui:

http://blogueirasnegras.org/

http://cacheia.com/

http://www.rayzanicacio.com/

https://www.youtube.com/user/blzinterior

https://www.youtube.com/user/veganmariii

3 thoughts on “Minha Transiçao Política Capilar

  1. Camilla Pacheco says:

    O seu comentário entre parênteses sobre “cachos perfeitinhos” caiu MUITO bem! Eu, que tenho cachos mas nunca sofri com eles, vejo que muitas meninas que começam a transição entram numa neura absurda de chegar no que parece ser um novo padrão de cabelo. As que antes se submetiam a químicas para alisar, agora se metem em longuíssimos processos diários para se sentirem seguras com o cabelo fora de casa. Uma escravidão por outra.

    O resgate de raízes e a busca de identidade é essencial, principalmente para os que mais sofrem opressão, e eu entendo que a vaidade deve acompanhar esse processo, mas a adequação vai em confronto com o objetivo primário. É muito importante perceber a sutil linha entre o que nos faz bem e o que nos padroniza para a ilusão de estar bem. Muito disso é culpa do mercado, que nota novas tendências e se apropria – é só notar como o número de produtos para este tipo de cabelo aumentaram (até mesmo em empresas que antes só faziam alisantes), como pipocaram propagandas sobre cachos “perfeitos” e “comportados”, como há mulheres negras com cabelo “natural” na TV (ainda que sejam uma minoria gritante). Isso mexe com o imaginário da sociedade: é como se nos dissessem “ok, podem ter cachos. mas só se forem perfeitos”. A conscientização sobre isso é importantíssima, ela evita que caiamos num novo ciclo ditado pelo capital e evita a despolitização dessa luta.

    Enfim, me alonguei muito. Só quis vir te elogiar pelo pequeno adendo que você fez no seu post. Te desejo sucesso com o blog e com os cachos 🙂

    • Gessica Borges says:

      Camilla!

      Que vergonha ler seu comentário só agora.
      Ando um tanto inconstante na vida, enfim … obrigada mesmo assim por ter aparecido ^^
      Concordo plenamente com você: vivia total a ditadura do cacho perfeito. Agora que estou crespa, percebo a escala ridícula de aceitação que existe. Menos cacho, menos aceitação. E a TV só ajuda esse cenário hostil.
      Mas a ideia é sempre conscientizar, né?
      A luta continua 😉

      Um beijo.

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