Estado

Volta

24

Os olhos dela estão arroxeados

A gaze na boca reflete a morbidez do quarto de UTI

Ela não responde, o pulmão muito menos

Ao sair de lá, ajeito o meu black power recém-assumido no espelho, como se não tivesse morrendo por dentro

24

Mesmo ofegante eu entendo o que ela pede

“Ai ai ai”

“ Me dá..”

O que, mãe?

“Vida.”

23

O ano passa tão rápido que a minha memória não tem tempo de fotografar tudo

Era o amor da minha vida ali atrás?

Era um trabalho apenas para pagar as contas ali na frente?

Era a cadeira de rodas dela emperrando ali no meio?

Era eu em algum momento?

22

Ufa!Formada.

A vida mais cada vez mais bagunçada

Só conheço o significado de três palavras:

Inércia

Angústia

Desespero

Que esse 13 acabe logo

Espero…

21

Último ano da faculdade

Aí, no ano que vem…

Mas esse ano,

AVC.

Ai.

Traição.

Ai.

TCC.

Ai.

Subo no palco do auditório com o grupo para receber o prêmio pelo trabalho. De novo: orgulho de quem eu sou?

20

Eu trabalho para uma instituição que lucra 5 bi/ano enganando pessoas e acredito que o meu TCC mudará minha vida.

19

Alô?

Oi, tia.

Não, foi mais uma convulsão.

Não sei, tia. Tô esperando o médico.

Não, não vou trabalhar hoje. Sei lá… invento uma desculpa.

18

Eu choro descontroladamente ao ganhar a bolsa

Publicidade.

De graça.

Caraca, isso vai mudar a minha vida.

Ninguém da minha família entende o orgulho.

o.v.e.l.h.a.n.e.g.r.a.

17

Adolescência, que merda.

16

Uma semana de namoro e, nossa, eu sou a garota mais feliz do mundo.

Ele diz que é apaixonado pela minha melhor amiga.

Dá pra morrer de amor?

Foco no trabalho e resto só Deus sabe.

15

Ele é o cara mais inteligente que eu já conheci. Tô apaixonada. A gente conversa sobre nanotecnologia enquanto o sereno cai e eu viajo olhando as luzes do posto de gasolina. Como será beijar um cara?

Começo a escutar rock n’ roll.

A paraninfa da turma me entrega troféu de melhor aluna do curso e eu sei que aquele é o começo da minha carreira brilhante.

14

Passo pelo dedo pela lista e meu coração dispara porque não estou entre as Jéssicas.

Ah, calma, são 3 letras pra cima.

Gessica. Correia. Borges.

Eu começo a chorar porque vou começar um curso que pode resultar no meu primeiro emprego e, quem sabe, orgulhar pra valer a minha família.

13

Álcool e outras drogas correm pelas veias do meu pai, mãe e irmão. Acho que o efeito é mais forte em mim do que neles.

12

Minha mãe não foi trabalhar hoje. Eu finjo que ela não está dormindo totalmente bêbada no quarto enquanto eu e meus amigos fazemos trabalho na sala.

Minha madrinha passa uma química no meu cabelo pra ficar mais fácil de pentear. Eu sinto menos vergonha dele agora.

11

Primeiro dia na nova escola. Não tenho uma roupa nova pra ir. Na entrada, todo mundo olha estranho pra minha calça peluda e meu cabelo crespo com chiquinhas.

Levanto a mão toda hora pra responder as perguntas da professora e, bingo, acharam a CDF da sala.

10

Na última reunião do ano, a professora diz que eu estou a frente dos colegas e jura que darei muito certo.

Mamãe está bêbada e desvia o assunto.

09

Os dois não param de gritar.

“Sua ordinária, filha da puta”

‘Seu vagabundo descarado”

Eu tento gritar mais alto pedindo pra eles pararem. Ninguém me escuta nessa casa. Subo pra laje pra chorar sozinha.

08

Ela não conseguiu levantar pra ir à primeira reunião do ano na escola e eu encontro camisinhas na mala do meu pai, mas eles já não estão juntos há anos.

07

Uns caras vieram aqui no portão hoje cobrar os cheques sem fundo que meu irmão passou pra usar droga.

Minha mãe me carrega pela mão pelas ruas do bairro, acho que está procurando ele, mas não entendo direito.

07

Primeiro mês da primeira série e a professora me transfere pra segunda série, porque eu acabo as tarefas muito rápido e durmo o resto da aula.

Na sala, um menino branco me alopra todos os dias: pela minha idade, pela minha cor, pelo meu cabelo desgrenhado, pelos meus dentes tortos e orelha de abano. Ainda bem que eu achei um canto pra ficar sozinha às vezes.

A escola não tem uniforme, mas eu tenho. É a única roupa nova do ano.

06

Fizeram uma festinha de aniversário pra mim. Na hora do parabéns eu escondo o rosto pra chorar porque tô com vergonha dos meus pais, que estão muito bêbados.

05

Ele me parou no corredor e me abraçou de um jeito estranho. Senti sua mão correr por uma parte que eu sabia que não era permitida e saí correndo. Nunca vou falar disso com ninguém.

04

Minha mãe tá me carregando pelo colo e andando apressado em direção à avenida escura. Acho que meu pai chegou louco em casa.

03

02

01

0

44 anos? Grávida?

Rute, Rute … você precisa parar de fumar.

Essa menina já é um milagre.

Estado

~ALERTA DE TEXTÃO~ Não, eu não tenho Facebook.

— Como assim você não tem Facebook?

Assim. Não tendo. Não querendo. Não gostando.

Obviamente, não decidi isso do nada. Por uns dois ou três anos estive exatamente como o resto da humanidade: logada naquela página horas por dia, passeando por perfis do primo-da-vizinha-da-menina-que-tem-uma-amiga-que-estuda-comigo.

Não era legal. O tempo passava e aquele monte de fotos, status, blá blá blá de pessoas desesperadas por se autoafirmarem esquerdistas, niilistas, patriotas, revoltadas, #focoforçaefé e etc. começou a minar minha capacidade de discernimento.

De repente eu estava julgando todo mundo em silêncio.

Daí eu caí na real sobre como aquilo ali, uma simples (sorry, Mark) página de internet, alterava absurdamente o comportamento das pessoas.

“Você viu quem a Juana tá namorando? Ela postou ontem uma foto.”
“Pelo que o Juão têm postado no Face, tá mesmo querendo emagrecer”

“Postar” virou sinônimo de “existir”. E eu me assustei como quanto eu me engrenei nessa rede. Não era (nem sou) do tipo polêmica, mas nos bastidores eu corria por perfis, páginas, comentários, fotos de pessoas as quais não tinha o menor vínculo e nem, supostamente, interesse.

Ué, mas a ideia não é essa? Conhecer gente diferente?

Hmmmmm, é, mahomeno. Mas quantas pessoas diferentes a gente realmente CONHECE no Face?

Não falo de adicionar e falar no chat por um dia, ou fuçar o perfil até dar dor nas costas. Eu falo sobre conhecer. De verdade. Fazer realmente um amigo.

Eu realmente acredito em fazer amizades e conhecer gente pela internet (namoro um carioca por causa disso, yay o/), mas percebo que esse objetivo não é nem de longe um dos mais visados por lá.

Assim como outras (e maybe, qualquer) rede social, o Facebook é um lugar de aparências.

Aí partimos para os 3 motivos práticos pelos quais eu não tenho Facebook:

1) O Facebook é um bicho malvado que engole as pessoas.

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Você entra pra ver se tem alguma atualização na sua página. Uma hora depois e você está lendo/vendo/procrastinando com, como minha mãe diria, necas de pitibiribas. Nem adianta mentir e se enganar, é assim mesmo.

2) O Facebook afasta as pessoas.

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Simples: no ano que eu saí do Facebook, apenas um, UM amigo lembrou do meu aniversário. Dos 300 e poucos que eu tinha por lá. =D Não é só questão de recalque.

Se você não curte o post/foto ou sei lá mais o quê de alguém, isto é motivo pra estranhamentos e climas esquisitos.

Qual foi a última vez que você viu aquele amigo do Face que você vive dizendo “a gente precisa se ver! Que saudade!”? Não vale mentir.

3) O Facebook tem funcionalidades não-funcionais att all e um algoritmo malvado que te faz de idiota pois lidera as suas leituras. 

facebook-ecard

Você pode montar um álbum pra cada cerveja que tomar no bar com amigos (e eu nem bebo).

Pode escrever um texto de 63.206 caracteres (!) para falar que odeia a Dilma (por isso adoro o Twitter e os singelos 140 ♥).

Pode (e acho essa função tão tosca que nem sei como comentar) dizer através de um texto pré-determinado que “está se sentindo/triste/feliz/sozinho/o raio que o parta”.

ISSO É SUCKS TOTAL.

Além disso, mesmo tendo anunciado uma “otimização” do algoritmo afim de aumentar a qualidade do conteúdo compartilhado na rede, na prática, tudo que eu escuto de amigos que tem Facebook se resume a: 1 não tem nada de interessante 2 tô de saco cheio daquela timeline 3 só não saio pra não perder contato com a família.

Então, né?

— Nossa, mas uma publicitária sem Facebook?

A única coisa que perco não estando lá é mais chance de autopromoção. Qualquer novidade da rede enquanto ferramenta eu posso acompanhar nos sites que já costumo visitar sobre mídias sociais e afins. Pronto. Tá resolvido.

Uma coisa que é importante: esse texto não é exatamente anti-Facebook. Só achei que, como aqui é um blog pessoal, seria importante registrar esse momento histórico da minha vida, onde sou parte uma extradigirrestre 😉

E viva à liberdade!

Update 30.06.2015: Tive que voltar para o FB para gerenciar a página do novo emprego, Deus me ajude 🙁

Vídeo

Dove. De novo.

Acho que uma dos primeiros cases que estudei na faculdade foi sobre a Dove e sua companha da real beleza. Eu lembro que na época, pensei: “Ahn ham, tá, real beleza, uma marca grande dessas? Conta outra.”.

Anos se passaram (eu fiquei velha) e o mote continua aí, inclusive como título do site oficial no Brasil. Eles não desistiram. Eles insistem em dizer que mulheres são lindas como são.

E não é a primeira vez que me emociono com uma campanha da Dove, são várias criações incríveis no canal oficial no youtube, mas obviamente eu não tinha como não me identificar com esta, cujo slogan #LoveYourCurls e o depoimento de garotinhas lindas sobre a autorrejeição de seus cachos encheu meus zóios de água salgada, porque eu já tive as exatas mesmas neuras.

Pois bem: é só da o play aí em cima e preparar o lencinho 😉

Nota

E não sou a causa dessa cicatriz

Nem vem

Que não tem

Eu não tenho culpa se não és feliz

Eu não sou a culpa da tua desculpa

Escuta,

Não existe multa

Pra direção escolhida.

E se sofre,

E se alegra,

E se irrita,

Eu não sou a causa da sua birita.

E a sua alma

Tão viva

Aplástica

Açoitada

Eu não produzi

Veio de fábrica.