Refluxo

No último dia, ele fumou um cigarro com a lentidão de um domingo. Era quarta-feira e ele estava pensando nela, em como o lado esquerdo dos seus lábios subiam quando ela falava, especialmente se o comentário era perspicaz. Depois do sorriso torto, ela tragava no estilo bonequinha de luxo, fazia uma careta adorável e cruzava as pernas distraída. Tudo muito excitante. Depois subia levemente com a cabeça, indicando que era a vez dele de falar e então estreitava os olhos enquanto escutava. Ele nunca soube se por causa da fumaça ou por causa do discurso, mas lembrar da cena deu vontade de fumar. O celular tocou e era o Dr. Rubens libertando-o do devaneio. Não era supersticioso, nem nada, mas soube antes de atender.

No penúltimo dia, ele mascou o chiclete com um prazer incomum. O ônibus jogava seu corpo pro lado direito nas curvas e fazia a cabeça dançar espremida contra a janela. O sol brincava um pouco em seu colo coberto por um cachecol azul. Ele fechava os olhos na esperança de absorver a sensação do calor aconchegante e de movimento, mas a viagem em sua cabeça ficava demasiada obscura e ele voltava forçado à realidade das ruas passantes e fachadas cinzentas com um lento piscar de olhos. A falta de controle sobre seus pensamentos e o fato de que eles exerciam uma força angustiante sobre ele ao simples gesto de fechar os olhos fez ele ter vontade de fumar. Como alternativa, abriu a embalagem de chicletes que trazia no bolso.

No antipenúltimo dia antes do resto, uma mulher sacudiu seu ombro e ele tentou distinguir as palavras em meio ao torpor matinal. Mas não era dia. Alguns segundos e solavancos depois ele acordou e tentou focar o rosto da mãe. Ela trazia uma xícara de café forte. O dia tinha passado sob seu sono altamente intoxicado e ele se mexia devagar. Sentou-se na cama e começou a tomar o café devagar. A mulher abraçou sem permissão seu ombro magro e disse que ficaria tudo bem, mas as palavras não faziam sentido. Ele não tinha mais mulher, nem trabalho, nem nada que o fizesse parecer um homem digno. Sua vida era tragada junto com os cigarros que se acumulavam nos bolsos das roupas sujas e nas gavetas do quarto mofado.

Sua esperança de recuperação fora lentamente engolida como o líquido das garrafas que ele largava pelas ruas por onde passava aos tropeços. A depressão, outrora um mito para frescos, agora tinha sido injetada de uma só vez na rotina dele que só tinha algum prazer enquanto injetava heroína.

Ela quebrou o silêncio contando-lhe que o Dr. Rubens tinha dito que assim que saísse o resultado ele avisaria pelo celular. Que os exames apontavam para uma alteração no número de linfócitos, mas que ele precisava de outros exames para ter certeza. Ele olhou-a sem expressão, respirou fundo e teve vontade de fumar.