Práxis

Eles voltam das férias falando de uma porção de lugares que só depois vou conhecer, através das minhas pesquisas cibernéticas.
Da minha cadeira dura, finjo estar atenta às tarefas entediantes ao computador, enquanto minha atenção viaja para a sala ao lado, cheia de gravatas, ternos importados e abotoaduras descoladas. Pouca coisa entendo das palavras, mas insisto na atenção, como se tivesse sido convidada a participar dos relatos das visitas aos lugares aos quais os nomes aliciam minha imaginação e movem meus dedos à Wikipedia.
Eu contribuo com o silêncio.
— E a Capadócia?
Imagino uma igreja cheia de cores e estátuas, como me parece ser tudo que tem a ver com a Europa.
— Sim, fui lá! Lindo! Rodei por tudo… ah, sim! os balões, claro.
Segundos depois entendo o que são os balões, resgatada intelectualmente pela internet.
Os sorrisos da sala ao lado evoluem e agregam às palavras a mim nunca apresentadas. Na tentativa de capturar todas, me perco entediada em um sonho desperto, em que eu viajo num balão por um cenário parecido com os filmes de Indiana Jones. Uma câmera na mão, uma paixão ao lado e uma sensação singularidade que, na segurança da minha implicância social, duvido que eles tenham experimentado em suas vidas blindadas e seus esforços colossais em completar dezoito anos, os quais são recompensados com um carro automático.
Enquanto pairo por terras imaginárias de cor marrom (fruto da minha breve pesquisa de “Capadócia” no Google), visualizando balões coloridos, pessoas deslumbradas e a sensação utópica de vento no rosto, não percebo quando um deles entra em minha sala, furando o balão com uma quente pontada de realidade:
— Lia, leve três cafés até a minha sala, por favor.
Levanto apática e infeliz.
Ao caminhar até a copa, tropeço no nada e dobro os joelhos no carpete. A cena soa como uma metáfora maldosa da minha vida primária, em detrimento das biografias relevantes dos que aguardam as xícaras de porcelana.
Atesto a minha insignificância, sorrio amarelo para o vidro que testemunhou a queda e preparo caprichosamente os cafés, que sirvo como se aquele fosse o ofício mais valioso que pudesse realizar.