Máquina de charme

Estava se achando.

A blusinha colada no corpo, com aqueles detalhes rendados que levavam qualquer olhar até seu colo, sem espaço, coitado, de tanto os seios pularem.

E aquela saia super fashion de retalhos? Só retalhos, diga-se de passagem, que quase não cobriam a região da danada.

Nos pés, uma sandália trançada até a batata da perna que contrastava com o próprio humor da garota: nem um pouco amarrada.

As unhas, uma de cada cor, denunciavam o desprezo pela preferência de cores e amores.

O cabelo, geralmente preso, corria pelos ombros ainda molhados, esperando que qualquer um pudesse secá-los. Ou, quem sabe, encharcá-los ainda mais.

Todas as atenções estavam, distraidamente, voltadas para ela.

E a figura, consciente disso, espalhava o charme tanto quanto o ventilador fazia com o cheiro de seus cabelos.

Só um detalhe, um único detalhe, não permitiu que a situação lhe deixasse perfeita: da nuca, sem a menor vergonha, um fio se mostrava, vermelho e vívido, esperando a conexão de vida.

5 thoughts on “Máquina de charme

  1. puta texto!!!!!!!!!!!!!!

    que fio seria esse???? (notei agora, que li pela 2ª vez, que esse fio tinha ficado (para mim) em aberto…

    Seria o fio que amarra a parte de cima da blusinha?
    que espera que alguém o desamarre para cobri-la de beijos em algum cantinho mais discreto, fazendo-a conectar-se mais uma vez, com a vida que ela não tem?

    às vezes, complico muito…
    🙂

  2. O charme da escrita é esse: as milhões de interpretações possíveis.

    Aqui de onde eu enxergo, Sylvio, essa mulher era pura e simplesmente um robô que deveria ser ligado na tomada.

    … mas você é mais romântico que eu 😀

  3. 'Mais', não sei…
    Talvez, menos…; beeem menos….
    Ou, talvez, igual.

    Tudo tem que estar naturalmente em equilíbrio; sem esse devido 'equilíbrio', até (ou, também), o romantismo pode ser uma coisa babaca.

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