Estranhamento

Mais um delírio literário que volta no tempo, que tenta entender o que é esse tal negócio de “crescer”. Dizem que uma hora isso para, mas eu acho que vamos ter que crescer até quando já formos velhos, porque algumas coisas são eternamente incompreensíveis, até para a suposta maturidade.

Então, sem mais delongas e viagens, o poema abaixo trata:

  • Do garoto cauteloso, ao homem ousado.
  • Da garota romântica, que não mudou de lado.
  • Das mudanças óbvias do que um dia foi o primeiro amor vivido.
  • Da vida, crescida, que não faz sentido.

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 Há anos, estranhei sua paciência.

Donde vem tanta presença e companheirismo?

Nessa minha vida que só fazia rodar, sem lirismo algum.

Há meses, estranhei seu estilo

Donde vem esse cabelo da moda e essa calça descolada?

Achei que tu era tu, e mais nada.

Há dias, estranhei seu humor.

Donde vem essa alegria espontânea, gritando a necessidade de sorrir?

Você, que a cada noite calada parecia ruir.

Há horas, estranhei seu olhar.

Donde vem essa coragem para elogiar a garota?

Na testa, do suor, nenhuma gota.

Há minutos, estranhei sua liberdade.

Donde vem essa verdade estampada no rosto?

Onde está a vergonha, seu moço?

Outrora escondida nos versos angustiados

Agora estampada nos olhares falados

Que nem sei como interpretar.

Em segundos, estranhei tu, estranhei a mim.

Sem saber se sentia assado, se sentia assim,

Sobre o que, agora, tu é.
Donde vem esse deslocamento, essa perdição de sentimento, que não sei onde colocar?

Desconhecendo tu,

Acreditando em mim.

Sempre achei que ia ser assim,

No fim,

Uma desconexão rebelde entre nós

Fruto de uma confusão inerte dos nós

Do primeiro amor.

O Crachá

Quarta, dia de revê-la. Será que isso continuará depois das férias?

Provavelmente não.

A voz firme por trás do rosto delicado e corpo quebradiço não nega que é uma moça decidida. Deve estar se formando em advocacia, ou algo sim.

Droga! As aulas reiniciarão em menos de uma semana, e lá se vão as minhas noites iluminadas de quarta feira…

Sete horas. Está perto, logo ela passará pela porta, conversando com um dos amigos, sempre rindo. Como eu queria ser um deles, como eu queria saber o que a faz sorrir daquele jeito, sempre me surpreendendo, como o sol numa tarde de chuva.

Sete e quarenta e três. Lá vem ela. 15 passos até a bilheteria, 35 até aqui. E se ela escolher outra fila? Não. Não posso pensar nisso. Por 2 meses inteiros foi a mim que ela pediu …

— Um Combo Mega, por favor!

Deus, que voz, quantas perguntas ainda tenho até que ela se vá?

— Qual será o refrigerante, Senhora?

— Coca.

— Coca grande, Senhora?

Babaca! Que pergunta besta é essa? Se o Combo é mega, lógico que a Coca é grande!

— Ahm ham.

— A pipoca acompanha manteiga, Senhora?

Como se eu não soubesse…

— Ahn ham. E com capricho, ein?!

Sou incapaz de dizer qualquer coisa que não seja ..

— Pois não.

Acabaram-se as perguntas. Agora vou dizer quanto custou, ela vai pagar, virar a costas e ir embora, mais uma semana até que eu possa ter qualquer vestígio de sua presença, ou de um cheiro que não seja dessas malditas máquinas de pipoca e refrigerante. Ô vida! Será que ela vai se importar se eu fingir que …

— A Senhora quer manteiga na pipoca?

— Sim, por favor.

O sorriso. Quão idiota eu estou parecendo? Idiota e surdo. Provavelmente estou babando no balcão agora mesmo …tudo bem, tudo bem, vale a pena.

— Combo Mega totalizando dezesseis e cinqüenta, Senhora.

Preciso de mais uma pergunta! Mais uma chance de ouvir a voz! Em menos de 20 segundos ela não estará mais aqui. Deve estar atrasada pra sessão pois batuca o cartão de crédito nervosamente no granito. Droga! Não consigo pensar em outra coisa.. nada mais inteligente que …

— Cartão ou dinheiro, Senhora?

Sem dizer nada, nenhum som de impaciência, ela estende a mão. Os dedos demasiados na ponta para que eu possa tocá-la.

Senha.

O “piii” infernal da máquina.

Fim.

— Obrigado e tenha um ótimo filme, Senhora.

O balançar discreto da cabeça em agradecimento, o meio sorriso que eu mais adoro nesse mundo, e ela está de costas para mim em 1…2…

— Gostei do novo corte de cabelo, Mardel.

Deus, o que é isso? Meu coração fugindo do peito? Mais uma vez, sou incapaz de dizer qualquer coisa melhor que … ei!

— Na verdade, é Mardem, Senhora.

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Co-autoria de Telma Amorim. (Perfil no Orkut) =D

Obrigada pela ideia, querida.