Depoimento

Sonhou por semanas com o sujeito. Daqueles sonhos forçados pelo pensamento constante, e quando acordava, era atacada pela frustração de voltar à realidade, somada com o espírito preguiçoso de ter que viver, sem ele.

Quem se importa?

A cada passo da rotina, procurava o olhar que (lá no fundo, sabia) nunca mais poderia desfrutar.
Nenhum indício de sua presença poderia amenizar a dor da ausência. Até um pequeno pedaço de pano estampado com aquelas manchinhas, trazia à tona a sentença tão dolorosa: há muito tempo já não era sua companheira e amiga. E vice-versa.

Agora, sua mais fiel companheira era a saudade.

Não sabia se era mágica (das mais macabras), ou apenas força do pensamento (ela não era cética à isso?), acontece que o encontrava sempre que, quando andando distraída, seu pensamento chamava inconscientemente – e calorosamente – o nome. Era assim mesmo, como convocar com varinha mágica, ou teletransportar com a mente: só um nome e, shaaazaaan! Ele aparecia.

Falar em “magia do amor” quase soava cômico perante o instante de angústia.

A reação era sempre a mesma: com o pulo do coração, as mãos se moviam num movimento de aceno enquanto os lábios se levantavam num sorriso, que frustrado, esperava que o outro lhe espelhasse. Enquanto isso, a mente, com a ajuda dos olhos levemente distantes (será que ele perceberia?), captava o máximo possível da cena, que seria repassada pelas noites seguintes.

Afinal, os olhos não mentem, não é mesmo?

Presa ao histórico da vida meio esquizofrênica que tinha com o dito cujo, espantava a vontade de ter qualquer contato mais próximo, pois tinha medo do que poderia fazer quando o a corrente elétrica do corpo do indivíduo a alcançasse. Lembrava vagamente das conseqüências desse contato, já que seu cérebro insistia em guardar apenas a sensação dos toques, mas ainda assim, estava certa que era preferível que evitasse.

Hora após hora de um mês, ano após ano das cinco décadas seguintes, a pobre mulher repetia a cena. Sempre que o via, e sempre que deitava a cabeça nas películas do cinema que se tornava o seu quarto à noite.

Ignorava todas as datas românticas do ano: dia dos namorados, do pais, das mães e até o natal familiar… que passaram a significar apenas a evidência de que estava sozinha, sem seu mais querido e admirável gato malhado.

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Beatriz tem 68 anos e é fascinada por gatos. Para compensar a perda do primeiro, que teve o coração (e o corpo) roubados por uma felina de rua, hoje convive com 13 siameses, 4 balineses e 2 bengalis, mas nenhum deles conseguiu ocupar espaço do malhado em sua vida, que nunca mais retornou à sua casa. 

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