Nota

Um quase-conto idiota adolescente que não vale a pena ser lido

Prometeu não exercitar lembranças do bendito, mas a cabeça fazia questão em ser uma parte separada do corpo.
Aquelas aulas de ciências!
“O corpo humano é constituído por três partes principais: o tronco, os membros e a cabeça.”
Por que não junta tudo numa coisa só?
Não entendia onde entrava o pescoço neste conceito, mas que diferença fazia? Se pudesse simplesmente deixa-lo de lado (ela morreria?), como a ex-professora fazia na escola, talvez pudesse se ver livre da maldita tatuagem atrás da orelha, que quase parecia uma escarificação: pesada, irremediável…eterna. Ugh. Eterna.

Depoimento

Sonhou por semanas com o sujeito. Daqueles sonhos forçados pelo pensamento constante, e quando acordava, era atacada pela frustração de voltar à realidade, somada com o espírito preguiçoso de ter que viver, sem ele.

Quem se importa?

A cada passo da rotina, procurava o olhar que (lá no fundo, sabia) nunca mais poderia desfrutar.
Nenhum indício de sua presença poderia amenizar a dor da ausência. Até um pequeno pedaço de pano estampado com aquelas manchinhas, trazia à tona a sentença tão dolorosa: há muito tempo já não era sua companheira e amiga. E vice-versa.

Agora, sua mais fiel companheira era a saudade.

Não sabia se era mágica (das mais macabras), ou apenas força do pensamento (ela não era cética à isso?), acontece que o encontrava sempre que, quando andando distraída, seu pensamento chamava inconscientemente – e calorosamente – o nome. Era assim mesmo, como convocar com varinha mágica, ou teletransportar com a mente: só um nome e, shaaazaaan! Ele aparecia.

Falar em “magia do amor” quase soava cômico perante o instante de angústia.

A reação era sempre a mesma: com o pulo do coração, as mãos se moviam num movimento de aceno enquanto os lábios se levantavam num sorriso, que frustrado, esperava que o outro lhe espelhasse. Enquanto isso, a mente, com a ajuda dos olhos levemente distantes (será que ele perceberia?), captava o máximo possível da cena, que seria repassada pelas noites seguintes.

Afinal, os olhos não mentem, não é mesmo?

Presa ao histórico da vida meio esquizofrênica que tinha com o dito cujo, espantava a vontade de ter qualquer contato mais próximo, pois tinha medo do que poderia fazer quando o a corrente elétrica do corpo do indivíduo a alcançasse. Lembrava vagamente das conseqüências desse contato, já que seu cérebro insistia em guardar apenas a sensação dos toques, mas ainda assim, estava certa que era preferível que evitasse.

Hora após hora de um mês, ano após ano das cinco décadas seguintes, a pobre mulher repetia a cena. Sempre que o via, e sempre que deitava a cabeça nas películas do cinema que se tornava o seu quarto à noite.

Ignorava todas as datas românticas do ano: dia dos namorados, do pais, das mães e até o natal familiar… que passaram a significar apenas a evidência de que estava sozinha, sem seu mais querido e admirável gato malhado.

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Beatriz tem 68 anos e é fascinada por gatos. Para compensar a perda do primeiro, que teve o coração (e o corpo) roubados por uma felina de rua, hoje convive com 13 siameses, 4 balineses e 2 bengalis, mas nenhum deles conseguiu ocupar espaço do malhado em sua vida, que nunca mais retornou à sua casa. 

Ensandecer

Quarta feira, vinte e três horas e quarenta e cinco minutos de uma noite gelada em São Paulo.
Sentadas nos bancos frios, as pessoas se recostam em seu espaço como podem, ou acotovelam-se no corredor cheio de mochilas e pastas. Estudantes, na certa. Eu também.

Transporte público não é muito divertido, principalmente quando você está perto de desabar de sono ou cansaço, depois da batalha diária. Mas, naquele dia, ao menos alguma coisa aconteceu. Alguma coisa que despertou alguns da sonolência, irritando-os. A mim, apenas divertindo. Até que enfim.

Sentado no banco do motorista, o homem inquieto apertava cada vez mais o fone no ouvido, talvez na esperança que pudesse fazer parte do universo que ouvia; então, durante as manobras nas curvas molhadas pelas quais direcionava o ônibus, ele gritava, num surto de emoção visível em seus olhos repentinamente arregalados:

– TIRA ISSO DAÍ! ….ACABA LOGO COM ISSO PELO AMOR DE DEUS!

Eu ria. Me divertindo com o nervoso do homem, que, no limite das possibilidades, dava pulos em sua cadeira e se mexia sem parar. Alguns passageiros reclamavam aos sussurros da imprudência do homem.

– Como ele pode dirigir desse jeito? Vai acabar batendo o ônibus!
– Gente assim não tem jeito não … é doença.

Foi nessa hora que eu me dei conta da loucura do homem. Não a loucura que era dirigir um ônibus enquanto envolvido em outra atmosfera (ele quase parecia cego), mas a loucura que o fazia dirigir um ônibus, mesmo totalmente disperso. Devia ser doença mesmo, loucura das bravas!Eu nunca via pessoas tão apaixonadas por uma coisa daquele tipo, dava pra ver que a tensão que emanava do motorista envolvia cada um que fazia parte da “espécie”, inclusive eu. Bipolaridade talvez? Quem sabe…

– SAI, SAAAI! … UUUUUHH! AÊÊÊÊ, JÁ DEU! JÁ DEU! 3 MINUTOS? PUTA MERDA!

Os três minutos seguintes, pareceram durar 10, pra mim. O coitado devia estar com a sensação que duravam, pelo menos, mais 45min.

– AEEEEW JUIZÃO! ACABOOOU! TAMO NA FINAL ! VAAAAI CORINTHIANS!!! “AQUI TEM UM BANDO DE LOUCO ….”

E a gritaria durou até que eu deixasse o ônibus, sorrindo com a situação, e com o alívio de saber que tudo tinha acabado bem, pelo menos aquela noite.
O homem, ah, ele não estava sozinho apesar de sua voz ser a única a explodir naquele espaço, pelo menos mais 25 milhões de corações espalhados pelo Brasil gritavam o mesmo hino, a mesma vitória.

Deitei-me aquele dia ainda com a cena em minha cabeça, o sorriso no rosto e uma música de fundo que dava o tom perfeito pro acontecimento.

♪ “…. eternamente, dentro dos nossos corações …” ♪