Verão

Verão. Dia ócio e frio… estranho? Pois sim, ela acordou cega.

Sem o seu mais precioso sentido, passou a ignorar todas as outras coisas.
Não falava, não chorava, não sentia quando tocada, nem mesmo sorria enquanto abraçada.
Sentia-se traída pela vida, por não ter o que julgava seu destino… ficava enraivecida todo o tempo…não compreendia a razão de tanta ilusão e isolamento, mas estava convencida de que não se importava com isso.

Não se arrependia de nada, não considerava soluções para nenhum problema, nem mesmo cedia à vontade de voltar atrás.

“O que os olhos não vêem, o coração não sente” ? Ótimo, vida eterna à sua cegueira.

Estava certa de uma coisa: aquele ordinário acontecimento a qual todos cediam não lhe ocorreria mais, a paixão era uma palavra riscada de seu, ora tão rico, vocabulário.

Das coisas que só o coração poderia entender, tornar-se-ia ignorante, rendida à cega frieza da ociosidade em que se encontrava.

Estranho, era verão.

Revelação Contrária

Sua “caneta” digital não se movia há dias. De tão inutilizadas, as teclas de seu teclado eram agora um tapete muito convidativo à poeira já inerente do escritório. Não tinha nada na cabeça e isso o perturbava como nunca.

Desde que entrara naquela sala pela primeira vez, seu ofício era pensar: e fazer com que seus leitores se identificassem com seu sentimento forjado e suas idéias de uma vida melhor propositalmente comerciais e irresistíveis.

O cursor piscava desesperadamente na tela do monitor – também empoeirado – como se dissesse: “Mova-se, mova-me.” inúmeras vezes.

Há anos fora incumbido de desenhar com palavras o caminho para a felicidade dos outros, e isso (pensara inocentemente) lhe serviria como base para o traçado de sua própria felicidade. Coitado.

Escondeu o rosto em suas mãos, esperando que o vazio dos olhos lhe mostrasse a luz que lhe daria o reconhecimento do dia seguinte. Foi em vão. Digitou ao menos 15 vezes a mesma palavra: “pense” , numa tentativa de indução do cérebro pela repetição..
Acordou. Então era isso : a repetição, não! A mudança !

A robótica de suas ações havia, inevitavelmente, enferrujado. Ocorreu-lhe então que as palavras que tanto buscava não podiam ser descobertas sem que ele mudasse o curso de seu raciocínio, justamente a novidade lhe proporcionaria estabilidade, e a mudança lhe traria bonança.

Naquele momento de revelação, seu computador apagou junto com a luz geral do prédio, lamentou não poder colocar sua claridade mental espontânea em ação de imediato, mas sabia que ela seria durável o suficiente para que ele voltasse ao escritório pela manhã e limpasse de bom grado seu teclado empoeirado. Seria então o que havia sido há 47 anos: novo.

Confessionário 1 – Adotando livros

Ok, essa é a nova tag do blog. Veio na minha cabeça, depois que o assunto #twittesuainfancia bombou no twitter. Aí pronto. Comecei a lembrar das maluquices que fazia e surgiu esse primeiro texto.

Recentemente, o twittero @RapaduraMan postou coisas que ele aprontava quando menor, com a hashtag #crimesdeinfancia

POPUP: Hashtag é, basicamente, um link que “identifica” sobre o que o seu post se trata, isso facilita a pesquisa de interesses e assuntos relevantes, e serve como forma de ranquear os melhores papos.

 Foi o sopro que faltava para que eu iniciasse essa “série” por aqui.

Identifiquem-se, revoltem-se, divirtam-se, mas o mais importante: leiam.

Enfim?

Eu roubava livros da biblioteca da escola.

É isso mesmo, e quase chego a me orgulhar disso, e explico:

A Biblioteca da minha antiga escola não era bem assim…uma biblioteca. Era uma sala totalmente desorganizada e esquecida, em que se amontoavam os melhores escritores do século, apertados e perdidos no que deveria ser uma forma de divulgar cultura.

Olha o que diz em um dos livros que peguei:

“Este livro faz parte do acervo do Programa Nacional Biblioteca da Escola, composto por diversas obras literárias. Eles foram encaminhados a sua escola com o objetivo de garantir a vocês, alunos, alunas, professores, professoras, e demais profissionais da escola, o acesso à cultura, à informação, estimulando a leitura …”

 Aquilo, definitivamente não era “uma forma de garantir acesso à cultura informação e estímulo à leitura.” Aquilo era é uma forma de juntar ratos e baratas e, muitas vezes, um esconderijo para os casais mais assanhadinhos ºO

Então, eu resolvi “divulgar a cultura” por mim mesma (depois de ter me oferecido várias vezes para organizar a biblioteca e até ter tentado, uma vez). E aposto que faço direitinho o trabalho que o Ministério da Educação deveria fazer.

 Ok, se a minha mãe lesse esse post, ela diria:

Não interessa se a biblioteca funcionava ou não! Os livros não são seus, então você não pode pegar!

 Hmmm, é. Ou não. Acontece que, já naquela época, era ela quem se matava para trabalhar, garantindo o meu sustento. E 4 meses desse trabalho já iam para o governo! Que deveria destinar uma parte desses impostos pagos num programa de acesso à cultura que realmente ajude o povo a ser menos cabeça dura, e não que tranque numa sala de 4m² um montoeira de livros, implorando para serem usados 😉 #drama.

Então, foi assim que eu conheci Machado de Assis, Franz Kafka, Marcos Rey e Pedro Bandeira. Foi assim que eu consegui uma fileira de livros do que viria a ser (e está se tornando!) a minha coleção de títulos.

E eu empresto pra qualquer um que tenha o mínimo de cuidado.

Como “roubar” é uma palavra forte demais (hehe), eu digo que adotei os livros 😀

Porque era disso que eles precisavam, de alguém que lhes tratasse com cuidado e ouvisse o que tinham pra falar.

Esse post tem quase um cunho político, foi sem querer, mas se tiver que ser, então …

Hoje, sempre que posso, doo livros para uma biblioteca em Santo Amaro, de coração, porque ela é uma biblioteca viva. Amém, forever.