Programa Thompson 20/20 promove diversidade real na publicidade

Programa em parceria com a Empregueafro prevê medidas efetivas para garantir maior equidade racial

Um dos temas mais falados ultimamente no universo da comunicação é a tal da diversidade. Marcas e organizações se mostram em uma corrida maluca em busca de se apresentarem cada vez mais engajadas com causas como a racial, LGBT e outras questões de minorias. Mas o que está sendo feito por trás dessas ações?

Este mês, entre os dias 23 e 26, acontece na agência de publicidade J Walter Thompson a Semana da Equidade Racial. O evento promove o lançamento do Programa Thompson 20/20, criado pela agência em parceria com a Empregueafro – Consultoria em RH e Diversidade, para buscar estagiários nas áreas de criação, mídia, atendimento e planejamento, em um processo seletivo focado na equidade racial, ou seja, na contratação de estudantes negros.

A semana conta com a presença de diversos profissionais engajados com a promoção da diversidade dentro da publicidade, que apresentam palestras e painéis com o objetivo de levar para dentro da casa discussões acerca da importância da pluralidade, não só nas campanhas que vão para a rua, mas nos profissionais que estão por trás delas.

Se você é estudante universitário do 1º ao 3º ano de qualquer curso, pode participar do desafio e tentar uma vaga em uma das maiores agências do país no hotsite do programa.

Todas as apresentações do evento ficarão disponíveis na íntegra nos canais da Thompson Brasil  e da EmpregueAfro no YouTube

Update 21.06.2017: confira o vídeo com os melhores momentos do evento:

 

Pinga

Não há pinga que cure. Pinga pura, descendo quente na garganta de fome. Dorme que passa. Trabalha que cansa. Lava, torce, amassa. Coloca na cabeça e atravessa a mata. Em casa, pinga. Dose para criança. Solução homeopática de vida miserável. Vai para a cidade, moça. Lá não pinga, escorre fartura. Só que pinga, sim. Pingão grosso que escorre da parede e molha o colchão surrado. Alaga o quarto. Vai, menina: lava, puxa, limpa. Se não guentar, pinga que passa. Pinga que passa a tristeza. Passa canseira, passadeira, passa até saudade da terra onde há tempos não pinga. A gente aqui não tem vereda, só vive. Vai vivendo, assim, nesse pingue-pongue, às vezes punga, e no final sempre pinga, queimando a garganta. Alívio de alma vendida. Já no fim da vida, a menina, azoada, cai de boba. Não dorme sem pinga. Não acorda sem pingar o olho. História que amarga a boca. O rosto enruga, murcho de esperança. Lá se foi a criança. Não há pinga que cure.

Estado

Diário de um golpe

Aqui onde
A mulher preta tampa
O rosto, a cor, a alma
Com base branca
Onde são quatro
Os filhos da moça
Dois descalços
Dois sem touca
Na cinza manhã fria
O orelhão ainda é
Uma ponte pra Bahia
Aqui onde
Sente como uma mocinha!
Preto não sai da linha
Que a senhora tricota
Com o cerne entristecido
Aqui onde
O homem vende espetinho
Alheio aos direitos dos bichos
E dos humanos
O chicote estrala na viela
O soco cala a boca dela
Eles invadem
Sem mandado, sem sequela
E eu sou livre
Para cobiçar o pulo
Da plataforma de ferro acobreado
Aqui onde todo dia é 64
E nada está nos trilhos.

Ela, eu, e o parabéns.

Então ela vem
De uma vez só
Muita vezes
Na rua, no quarto, enquanto olho para as paredes
Ou amarro meu turbante
Vem em forma de um cômodo vazio
De um lembrança cheia
Ou de um simples fumante
Alheio a tudo.

É súbita e aguda
Como quando a gente bate o dedo mindinho num canto
E são muitos cantos agora
E a dor não cessa nunca
Só se esconde entre risadas
E volta escancarada
Em lágrimas de saudade

Um quarto de século de vida
Três meses destituída
“Filha, deus te abençoe, muitos anos de vida”.
A dor vem
Eu engulo o seco e respondo
Para todo mundo
Obrigada, gente.

(Des)engano

Eu me espreguicei e desenrolei só para me enrolar de novo na coberta por mais um tempo. É tipo um jogo que eu faço, sabe? Para enganar a vida. Eu finjo que vou fazer uma coisa, quase faço, mas aí volto atrás e faço outra coisa diferente. É legal enganar a vida assim, faz eu me sentir no comando das coisas, como uma garota esperta.

Eu não estou na minha casa de verdade. Na verdade, eu não tenho uma casa. Eu, a Mãe e o pai dormimos num só quarto, que é cozinha e sala também. Não sei dizer o nome do lugar. Eu sei que aqui é Parelheiros. Mas eu sempre erro o nome, porque é uma palavra difícil. A minha mãe diz que eu tenho que ficar aqui com a Mãe Sara e o Pai Nê durante a semana, para ela poder trabalhar bastante e construir uma casa pra gente.

A Mãe Sara é minha madrinha e o Pai Nê é meu padrinho, e eu chamo eles assim desde quando dava para contar minha idade numa só mão. Agora, eu conto a minha idade com todos os dedos da mão direita e mais um dedo da mão esquerda.

Dessa vez eu acordei para levantar de verdade. Fico escutando o barulho da casa, mas hoje está tudo superquieto. A minha barriga está falando comigo, então o plano é descer até a cozinha e ficar sentadinha até a madrinha perguntar se estou com fome. Aí eu digo que sim, e ela me dá alguma coisa.

Eu saio do quarto e o Pai Nê está no corredor. — Mas você dorme, ein, mocinha? Não sei o que responder, então só sorrio e fico esperando ele dizer outra coisa. Ele não diz nada. Em vez disso, estende os braços para me pegar no colo. Ele nunca fez isso antes, mas, como tenho que ser obediente, simplesmente subo.

Não saímos do lugar. Os segundos estão passando rápido e devagar ao mesmo tempo quando a mão trêmula dele toca a minha calcinha por debaixo do vestido. Meu coração começou a bater tão forte que acho que dá para escutar. Ele continua não dizendo nada, e parece que passou tempo demais até eu arregalar os olhos, e começar a lutar para descer do colo. Ele me segura mais um pouco. Mas aí eu empurro o peito dele com força, ele me solta, e eu corro para a escada.

Tenho que respirar fundo e disfarçar a cara de susto antes de entrar na cozinha, para o caso da Mãe Sara estar aqui. Mas ela não está. Eu não sei se sinto medo ou alívio. Vou ficar lá na frente da casa esperando ela voltar da rua. Quando ela voltar, eu conto o que ele fez. Mas o que ele fez? Acho que eu não estou pensando direito. Deve ter sido sem querer. Eu devo estar exagerando. Acho que a madrinha vai ficar brava comigo, pensar que eu estou vendo coisa. Acho que a Mãe ia ficar triste e começar a beber mais. Também tem que eu fico aqui de favor. Se eu conto pra Mãe, ela ia ficar sem saber onde me deixar. Fora a amizade delas, desde antes de mim. Ai meus Deus, e se? Mas, nem. E agora? Agora não posso chorar. Nem sei como estou pensando tudo isso.

Acho que só vou ficar aqui sentada. Se ele fizer de novo, eu conto pra Mãe. Se não fizer, eu vou enganar a vida de novo: vou fingir pra ela que inventei isso. Sei lá, criança é boa em inventar as coisas.

Nota da autora: primeira vez que escrevo sobre a #meuprimeiroassedio. Assumi o papel narrativo da Gessica de 6 anos de idade e… foi libertador.

Carinhoso

Ele cantarolou Pixinguinha a manhã inteira. Arrumou a cama, tirou o pó da estante de livros, limpou o banheiro com desinfetante de lavanda, colocou as roupas na máquina e preparou o almoço, ninando a abóbora ao som de Rosa. Estátua majestosa.

Depois de almoçar, lavar e guardar a louça, assistiu o jornal da tarde e tirou um cochilo. Acordou para um banho e um bom moletom. O perfume da vez era cítrico. Ao sair, virou a chave quatro vezes, para garantir. O encontro com  Leco estava combinado às catorze, no posto de saída da Rua 19.

Quando chegou, ela ainda estava lá. Escondida entre galões estocados num canto. Encaixou-a com cuidado na cueca, ao lado direito do pênis. Minutos depois, Leco buzinou duas vezes, e ele embarcou no banco do passageiro.

Não teve papo no caminho e, ao entrar no restaurante, tudo aconteceu muito rápido. Todos do chão. Quietinhos. Vai, moça, eu quero só o dinheiro. Leco mira os clientes. Vários com boca cheia, olhos de desespero. A moça ia pegando o papel do caixa e depositando no saco verde e amarelo com as duas mãos. Habilidade e cabeça baixa.

Então ele decidiu checar a área. Leitura dinâmica, como de costume. Viu a criança. O coração bateu feliz não-sei-porquê. Foi até a menina com o cuidado de esconder a arma. Ninguém se mexia. O cafuné foi sincero e o sorriso esforçado. Sob os seus dedos, ela só estremeceu um pouco. Calma, linda, não vou fazer nada com você.

Nem ele nem o Leco perceberam a Juíza lá no fundo. Não deu tempo de assimilar o estampido, nem os gritos, nem o choro instantâneo da garota. O encontro dos joelhos com o chão fez um barulho oco, mas Leco não ouviu, já cruzando a porta.

Na redação do jornal, pairou a dúvida em publicar a versão Preto & Pólvora.

E aí, chefe, sessão Cotidiano?

Não, bora variar um pouco. Foca no carinho.

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Texto baseado na manchete:

Criminosos invadem restaurante e ‘acalmam’ criança com carinho” Globo.com, 02/08/2016.

Diz para ela

Volta lá e diz para ela parar de ser besta. Que esse negócio de ser feliz para sempre com um homem é exercício utópico e que nunquinha funciona na real. O negócio é ser feliz agora. Aliás, ela é livre para escolher homem, mulher, o que ela quiser, viu? Só para deixar claro.

Diz para ela parar de se comparar com as garotas brancas da escola, que o nome desse complexo de inferioridade é racismo, e que essa busca por ser diferentona através do rock não vai dar em nada se ela não parar e olhar para si mesma, de verdade. Sem vergonha do corpo, cabelo, cor, trejeito.

Outra coisa: já passou da hora de deixar de ser trouxa. Não importa se o cara é superdotado e descoladão. Não se sente confortável para falar? Tá na hora de cair fora. Faz ela sentir que nunca pode ser feliz com outra pessoa? Cai fora. Quanto mais machuca, mais ela quer ficar? Fora. Se diz entendido das mulheres, mas não dá prazer? Fo-ra. Tem muita gente no mundo para gastar energia.

Chega! Acabou a invejinha da gatinha branca classe média. Envolvida com artes e nerd de carteirinha meu ovo. Com papai pagando a HQ edição definitiva e mamãe fazendo comidinha gostosa para o jantar fica fácil ter tempo e cabeça para isso. Não adianta ela tentar explicar para boy porque sofre. Diz para ela que há mais o que fazer do que ficar recalcada com gente que usa a expressão “não sou tuas nega”.

Aliás, já que ela gosta das artes, cinema e livro tudo, pergunta se ela já ouviu falar do Jean Basquiat, da Ava DuVernay, e da Chimamanda Adichie, só para começar. Existe uma coisa chamada representatividade que vai mudar a vida dela. É tipo assim: superlegal assistir um filme bacana com o Morgan Freeman e tal, mesmo ele sendo quase sempre o clássico “Magical Negro”, mas quando ela experimentar ver Middle Of Nowhere, Faça a Coisa Certa, ou mesmo o “sessão da tarde” Waiting to Exhale láááá de mil novecentos e bolinha, nossa, aí ela vai ver o que é magia negra. Nada como fazer parte. O “Americanah” da Chimamanda vai causar a mesma sensação, com o bônus dos tapas na cara dos que gostam de cortar discurso de oprimido com a famigerada desculpa de exagero.

Com um pouquinho mais de autoconhecimento, menos blá blá blá de gente que nunca passou pela luta, e mais (bastante mais) de amor próprio, ela vai ficar bem, você vai ver. É tudo tão diferente quando a gente entende porque é e de onde vem! Dói para caralho. Dói mesmo. Mas a resistência compensa, eu juro.

Vai, volta lá e diz para ela parar de se culpar por não ser feliz.

Nota

Sobre tornar-se negra(o)

Ultimamente tenho refletido muito sobre o reflexo do racismo sobre mim: é, complicado. Até hoje, tenho sido considerada uma garota inteligente, dedicada e ~diferenciada~, em termos acadêmicos e profissionais. Sempre boa aluna, sempre “batalhadora”, a menina pobre e negra (mas não tão negra assim) que é forte, possui boa bagagem cultural, fala e escreve bem.

Tudo muito bom, até eu começar a me enxergar como uma mulher negra. Neusa Santos Souza explica esse processo no livro “Tornar-se negro” (1982), onde discorre sobre a complexidade emotiva de um sujeito negr@ em busca da identidade, no contexto (passado e atual) em que tudo é construído em cima de uma branquitude: os ideais profissionais (de sucesso na lógica capitalista, a quem ela serve?), os ideais de aparência (apenas digite “penteados profissionais” no Google e conte os crespos), e mesmo os ideais de comportamento (Postura fina! Elegância! Controle emocional! Quando isso é associado a negr@s?)

É um processo bastante doloroso e, também, confuso. Antes estava no tronco com roupa, agora estou pelada. Enxergo a minha cor sem forro, e tenho orgulho dela, mas o chicote dói mais. E a dor, às vezes, paralisa, o que por sua vez, gera mais angustia, e aí está formado o círculo de culpabilização de um negr@ em processo de descobrimento: além de não saber-se como parte da raça, e nem como indivíduo, há todo um contexto de depressão, ansiedade e angústia presentes que nos afastam de um cotidiano normal.

Sempre gostei de escrever e atualmente, que tenho produzido textos com frequência, uma coisa me enerva: eu quase não produzo textos ficcionais. É uma loucura porque ao mesmo tempo que acho um saco escrever sobre experiências e percepções pessoais, quando pego na caneta é só isso que vem à cabeça. Eu sou tragada pela minha própria realidade, luta, ansiedade. Isso quando simplesmente não consigo produzir em questão da insegurança, medo, questionamento e desgosto de ser quem eu sou.

E eu sou, como outros tantos negr@s, alguém que, mesmo com a sensibilidade e inteligência aguçada para o aprendizado desde pequena, sinto o peso de ter crescido em um ambiente familiar hostil e nada estimulante (criativamente), o peso de ter a autoestima ferida, inclusive por amigos, por não me encaixar no padrão estético e comportamental estruturalmente branco, o peso da dessemelhança na bagagem intelectual comparada a pessoas que tiveram o privilégio de melhores condições de estudo/intercâmbio/acesso à cultura, e também o peso de ser mulher: muitas vezes diminuída à importância de saber apenas o que é relacionado às tarefas domésticas e tendo que defender a minha propriedade intelectual frente a branc@s e machistas.

Não é fácil. É realmente pôr em cheque a minha capacidade, e pior: me deparar com a realidade de que, não importa aos outros como me sinto em relação a tudo isso ou se não tive dinheiro para me “equiparar profissionalmente” a colegas (meritocracia manda lembranças), importa o status. E o status já é considerado inferior desde a base. É preciso tomar muito cuidado (só que é sabe o quanto) para não se perder e desesperar nesse labirinto: o caminho é sempre complicado e a gente nunca sabe se realmente vai achar a saída, daí a sensação de impotência. Nesse caso, a afirmação da identidade negra e a consciência de questões relevantes como o machismo são, ao mesmo tempo, a luz e a sombra do caminho. Ora impulsiona pela ótica da resistência, ora retarda pela lógica da opressão.

Um dos agravantes da atuação é ser a exceção ao meio. Justamente por vivermos numa sociedade em que a ascensão social está diretamente ligada à clareza da pele, quanto mais eu cresço (econômica e intelectualmente) menos estou “entre os meus”. Na faculdade era exceção, nos empregos até hoje, idem, nos cursos extraclasse, também. É triste perceber uma presença tão pequena de negr@s em lugares mais diversos que apenas os postos de segurança, os balcões de serviços, os quartos homeopáticos de empregada nos apartamentos-casa-grande. Isso não é por acaso, mas eu demorei para entender o porquê e, apesar de ter “conseguido” fugir do status quo que a mim era designado como mulher preta, sou totalmente sensível e desperta de que não é por falta de vontade que outr@s não conseguem. Ter que lidar diariamente com o peso da cor é exaustivo. Não à toa, mulheres e homens, sem perceber, tentam se livrar da negritude (e, automaticamente, se adequar à lógica branca) das mais diversas formas: na vestimenta, na linguagem mais adequada à norma culta possível, na omissão em conversas com maioria branca, no hidróxido de sódio no cabelo (ou máquina zero).

Foi assim que eu entendi o real significado da gíria “fortalecer”. “Fortalece os irmão!”. Fortalecer é compartilhar da mesma dor, é dividir o peso da luta, é compensar (com uma conversa, com uma ajuda material, com compreensão) um ao outro por todo dano psicológico, social e econômico causado pela sociedade racista que, aliás, nega a culpa com indulgências do tipo “quem quer, consegue”, “fale menos e faça mais”, “você não conhece o Joaquim Barbosa?”.

Eu conheço o Joaquim Barbosa, mas não sou ele. Eu sou eu, sou mulher, sou única, e quero ter o direito de ser humana e sentir toda a minha humanidade como individuo, sem ignorar a consciência sobre as mazelas que afetam grande parte da minha raça. Não por frescura, não por complexo de inferioridade, mas por justiça, por igualdade efetiva frente à máscara branca, cisgênera, machista e de preconceito religioso que chamam de #somostodosiguais.

Estado

Status Quo

Acaso me queira, segundas, às oito ou oito e quinze, estarei na estação. Entre a primeira e segunda porta do vagão da frente, onde o sol poetiza a periferia.

Às terças, mais ou menos vinte e duas horas, vou atravessar o farol da Rua Padre Adelino com a Avenida Álvaro Ramos, guiada pela lua mutante, fixamente perdida em pensamentos não-ditos.

Às quartas, treze ou treze e dez, cruzarei algum ponto entre a Japão e a Antônio Felício, conversando com duas, três ou quatro mulheres entre risos pré-gastronômicos, que num lapso de hora transformam-se em tristeza anafada.

Quintas, às dezoito, meus pés apressados alcançarão a Avenida São Gabriel, contando vantagem de ligeirice entre os carros no trânsito, a caminho de alguém pago para me compreender.

Às sextas não me encontro.
Sábado, nem toco.
Domingo, domingo.

Nota

Mais do mesmo

“ […] Ela fitou João, incrédula, e disse:

— Mas, casar?

— Casar.

— Hmmm, só com casa.

— Casa?

— Pra casar, ué.

— Se casar, vai coser?

— Casualmente.

— Êêê, sua Coisa!

— Coisa, é?!

— … — Assim não caso.

— Ah! Casa, vai?! …

— Tá bem, caso. Se…

— Qual coisa?

— A casa.

— Cozinhar?

— Caso sério…

— Cacete! Não me dá coisa nenhuma?

— Uma coisa.

— ?

— Cu.

— Casaremos!

— Com casa?

— Com tudo!”

Malu terminou de ler, fechou o livro, se recostou na cama, e constatou com tristeza:

— Meu Deus, que coisa machista.

Hugo, que tinha lido o mesmo texto minutos antes e achado engraçado, apenas disse:

— Pois é. E você vê, né… escrito por uma mulher. Tá vendo como é?

— Isso também é machista, Hugo. Machista e sexista, aliás.

— O quê?

— Atribuir características negativas necessariamente ao sexo feminino. Se fosse um homem o autor do texto, você provavelmente não teria dito isso. É a mesma lógica de “mulher no volante, perigo constante” e outras tantas asneiras machistas.

— Nossa, Malu, eu só fiz um comentário. Deixa de ser doida, paranoica. Tudo pra você é motivo de discussão.

— Gaslighting.

— O quê?

— Isso que você está fazendo. É gaslighting. Um termo em inglês que explica como abusadores, majoritariamente homens, distorcem e desacreditam o que mulheres dizem, querendo que elas duvidem da própria memória e sanidade. Não é à toa a nossa fama de histéricas. Mais um joguinho do patriarcado pra manter a gente sob controle.

— Nossa senhora. Lá vem! Então tudo que eu disser agora é machismo?!

— Eu não disse isso, Hugo. A gente mal começa a conversar e você já perde a paciência. Por que será? Mulher é tudo burra, né? Deve ser difícil descobrir que você faz parte da escória masculina. E o machismo nosso de cada dia? Não pode. Não pode mais elogiar a coleguinha gostosa da firma. Não pode mais fiu-fiu. Se chegar em casa e não tiver comida pronta e roupa lavada, não pode mais reclamar. Também não pode…

— Ai, Malu. Chega! Você me cansa. Tá vendo como você é louca? Você tem que entender, é natural mulher fazer as coisas de casa, Deus fez cada um de um jeito…

— Lá vem você com o mansplaining! Tem que explicar tudinho, até desenhar, pra ver se eu entendo, né? Um mais um é dois. O sol é redondo. Homem é forte e mulher é fraca… sempre a mesma ladainha. Qual a próxima babaquice que vai sair da sua boca?

— Tô achando melhor eu ficar quieto. Não dá para discutir com você assim. Não vamos chegar a lugar nenhum.

— Esse é justamente o problema, Hugo! Ultimamente a gente quase não conversa. Tudo que eu falo parece exagero, parece briga. Faz um exercício: imagina você ter nascido mulher. Sempre gorda demais ou magra demais. Atirada demais ou se faz de sonsa. Se a roupa é curta, vadia. Se é longa, brega ou crente do rabo quente. Se o cara erra, ele é filho da puta. Veja bem, o filho, porque a puta ninguém quer ser, né? Aí toda vez que eu tento falar disso, você me interrompe, diz que não é bem assim, quer me explicar que o mar é azul. Caralho! É ou não é pra ficar possessa? Tenho que colocar pra fora mesmo! Até ver se algo do que eu falo entra na sua cabeça!

— …

— Vai ficar quieto dessa vez? Não vai dizer nada?

— … Você até que é uma mulher inteligente.

Estado

Eu não quero mais ser uma garota rock n’ roll

Eu sabia que não era a pessoa mais legítima do mundo quando tinha quinze anos.

Pudera, meus looks da escola eram um carnaval de estilos: peças floridas, camiseta de rock com jeans e coturno, calça pink com camiseta nerd. No dia que eu apareci com short e tênis de skatista e boné no cabelo, um amigo levantou as sobrancelhas e me disse: quem é você e o que fez com a minha amiga?!

Eu juro que não sabia a resposta.

Ansiosa por fazer parte, como (acho) é natural da idade, eu não me encontrava em lugar nenhum e pulei de galho em galho em busca do rótulo de autenticidade que, claro, não podia ser dado a mim por nenhum dos grupos que pertenci, senão por mim mesma.

Nessa época, um milagre (cof cof) chamado rock n’ roll aconteceu na minha vida, e eu até achei que tinha achado o meu lugar. A maior parte do grupinho da escola era roqueiro, incluindo a minha melhor amiga e o garoto por quem me apaixonei. Comprei coturno, uns trecos com spike, umas camisetas. Baixei uns CDs, pesquisei no Google sobre Metallica, Kiss, System of a Down. Fui ao show do Evanescence e até pendurei pôster do Slipknot e Green Day no meu quarto.

Foi bem louco.

Eu não sabia de verdade o que essas bandas significavam, não conhecia nem 50% do repertório de nenhuma delas (com exceção, talvez, de SOAD) e também não era uma fã inveterada. Mas integrar a roda e manter uma aparência ~diferentona~ era tão importante, que eu sustentei um disfarce, curtindo aqui e ali os nuances dele.

Os shows foram ótimos, eu chorei inúmeras vezes com “Beth”, “Always” e outras tantas. E, claro, escuto muitas bandas até hoje.

E daí que esses dias vi um cara no trem. Aparentava uns 40 anos, estava todo de preto, com camiseta do Iron Maiden. Eu me recordei nele e achei ridículo. Lembrei de quando eu achava que seria “roqueira” pra sempre, de quando eu achava superimportante afirmar uma identidade única, um estilo próprio, característico e marcante, porque seria ruim demais imaginar que eu “não tinha uma personalidade forte”. Muitas vezes, “personalidade forte” é um eufemismo para intolerância, preconceito e egoísmo. Faz o tipo de gente que sustenta o discurso “me ama ou me odeie” sem o menor senso de empatia.

Muita coisa mudou em dez anos.

Ter doado o coturno (que custou metade do meu salário na época!) foi um ato simbólico de quando eu caí na realidade que eu não precisava sustentar estilo nenhum, muito menos um que me representava tão pouco. Quando li o texto do Fred Di Giacomo sobre como o rock “nos fez ter vergonha da nossa cultura, dos nossos cabelos e dos nossos sotaques” foi ao mesmo tempo um orgasmo e um tapa na cara.

Todas os meus ídolos roqueiros eram brancos. Todas as roqueiras que eu admirava, idem. Isso ferrou com o meu amor-próprio de uma forma tão natural (ou melhor, estrutural) que óbvio, como a lógica racista pede, eu sabia, eu sa-bia, que nunca ia ser tão cool, atraente e bonita quanto aquelas pessoas. Simplesmente porque, não tem jeito (?!), todo mundo acha e sempre vai achar cabelão, rosto fino e pele de porcelana mais legal, não é?

NÃO É. NÃO TEM QUE SER.

Um som originalmente negro (diz aí, Chuck Berry!) que foi embranquecido, tornou-se conservador e arrogante, fechado num grupo chato de pseudo-elite-pseudo-intelectual. Aqui no Brasil ainda mais, com a questão da língua intrínseca. Que máximo saber cantar/falar inglês, quando a realidade é que apenas 5% dos brasileiros têm fluência na língua, né? NÃO É. No contexto em que vivemos, ninguém deveria ter vergonha de não compreender inglês. Essa vergonha tem muito de complexo de vira-lata.

Não me importar mais em me afirmar uma garota rock n’ roll para mim também significa a liberdade de ser a boa merda que eu quiser. A liberdade de conhecer outros sons que negligenciei por causa do rock, por causa da maldita baixa autoestima, insegurança e etc. que, claro, é irmã da adolescência, mas mais que isso: é filha primogênita do racismo.

Hoje eu escuto uma música como “To be Young, Gifted and Black” interpretada pela fucking Nina Simone e me sinto REPRESENTADA. Aquilo sim é sobre mim! É sobre os meus anseios como mulher negra! É sobre como muitos de nós [negros] nos sentimos. E foi uma preta maravilhosa que trouxe isso ao mundo, não é incrível? É.

A importância da representatividade até então, para mim, estava dissimulada de necessidade de pertencimento. Como e para quê pertencer a um grupo que não te representa? Obviamente, este é um processo totalmente ligado à formação de identidade e, por isso, leva tempo. Mas eu ainda vejo pessoas adultas numa luta ingrata por afirmação, por pertencimento, sem refletir sobre o que realmente condiz com a sua personalidade, origens, trajetória de vida, luta.

Se desligar de estereótipos vai além de liberdade, é também sobre empoderamento. É dizer para si mesmo (e para quem quiser ouvir): eu não quero me encaixar e apenas fazer parte, eu quero SER parte, quero sentir.

Eu não quero ser uma história única. (Thanks, Chimamanda.)

Master of None e tudo aquilo que angustia a gente

 

Master of None é de fuder.

Claro que essa não é uma opinião crítica com base técnica, mas, bem, a experiência vale como opinião, não vale? Vale.

Aziz Ansari, criador, produtor e protagonista da série, fez um ótimo trabalho comigo como espectadora, sem que eu percebesse. Ao final de cada episódio, fui tomada por uma emoção problemática, que mistura identificação e, ao mesmo tempo, angústia.

A série trata de temas atuais e importantíssimos, como preconceito, feminismo e… deslocamento psicossocial que todo jovem entre 25 (eu!) e 30 (eu, daqui a pouco =/) passa. Mas também trata de coisas simples da vida, que muitas vezes a gente nem percebe acontecer, nessa chuva de atualizações e interações digitais que vivemos. Essas coisas simples transforma-se em alguns dos filtros que usamos para encarar a vida.

Em um dos episódios, por exemplo, Dev (Aziz) ganha uma máquina de fazer massa, fica superfeliz porque massa é seu prato predileto, mas nunca a utiliza, por que “gosta de massa, ama massa, mas é muito mais fácil comê-la pronta”. Isso não diz muito sobre que tipo de geração estamos construindo com todos esses facilitadores que temos hoje? Uma geração que acha velha e inadequada a expressão “mão na massa”. Ahn?! 😉

Além disso, a produção é uma colagem interessante de personagens. Não é sempre que se vê descendentes de indianos, asiáticos e uma negra no elenco principal de uma série (os brancos já são comuns, o que não é demérito nenhum para Arnold – amigo supersincero e meio maluco de Dev – e Rachel – seu par romântico.).

Essa colagem reflete em temáticas ácidas e que, ao mesmo tempo que nos faz rir, nos joga numa piscina de reflexão sobre como estamos impregnados de racismo e sexismo, como menosprezamos a nossa relação (e a história) dos nossos pais, como encaramos os papéis de gênero, a velhice, o casamento e a relação do tempo com as nossas escolhas de vida (sempre a sensação de que “estamos velhos para”, né?).

Parece tudo muito complexo, e acho mesmo que é, mas a mágica da série é justamente essa: esse tudo de coisas passa em episódios de 30 minutos, muito bem ilustrados (mesmo, a fotografia é demais), didáticos e engraçados. Vale tão a pena!

A trilha sonora é um show à parte (tem no Spotify!) e suscita uma melancolia gostosa (sim!) e um saudosismo que não dá pra saber de onde vem. De novo, Aziz e sua equipe são mestres em mexer com nossos sentimentos de forma muito sutil e filha da puta.

No season finale, além da saudade daqueles com quem você compartilhou por dez episódios suas neuras, inseguranças, gostos e expectativas, fica uma coceirinha moral incontrolável e a necessidade de uma (ou várias) sessões de terapia que te ajudem a responder a fiel e inevitável pergunta da crise dos vinte e poucos anos: what the fuck eu quero da minha vida?

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Sobre a Dona Rute

Essa mulher de braços abertos é minha mãe, Dona Rute.

Nesse feriado do dia 07, ela escolheu a morte, porque a independência já não era possível.

Vinda lá de Santo Estevão, na Bahia, contava que na infância era farinha, água, feijão e muito sol na cabeça nos dias de roça.

A gente nunca vai saber como é isso.

Daí, no final da adolescência, a moça veio pra nossa terra prometida: mais uma das milhares de pretas arrumando a casa, as roupas, os filhos e um pouco da vida de gente que tinha dinheiro. Ela enriqueceu várias famílias.

Na época, o dia inteirinho era tomado pelo trabalho e o tempo dentro da condução para chegar da casa da patroa até o extremo sul da cidade.

“E o colchão de dormir era uma pedra”, ela dizia.

A gente nunca vai saber como é isso.

Mas a preta, além de valente, tinha uma vontade de viver e espalhar vida que, olha: era de dar gosto.

Eu soube que ela andava toda emperiquitada na praça, vestia roupa de patroa e uma peruca linda. Para as crianças da família, era tipo a Xuxa.

Numa dessas se engraçou com um baiano de Vitória da Conquista.

Reparem nesse nome: Vitória. Da Conquista.

Era pra ser isso o casamento, né? Não foi muito, não. Mas tudo bem, vieram “dois filhos lindos e PREfeitos”, ela dizia.

Eu fui a raspinha de tacho. Quando descobriu, ela já tinha 43 anos, e eu, cinco meses de vida.

Naquela época, ela era a tia do café no Cel Lep. Uma escola de línguas onde “Tinha ingrês, francêis e portuguêis”, ela dizia.

Como é que se diz café em inglês, mãe?
— Cófi.
E chá?
— Ti.
E açúcar?
— Xuga.

E caía na gargalhada.

Engraçado como esses momentos são clássicos que eu sei que não vou esquecer nunca.

Só tenho flashs de como foi a vida dela antes de eu vir ao mundo, mas, considerando as bebedeiras desde que eu era pequena, acho que não foi fácil.

Ainda assim, ela era marcante pela gargalhada e as histórias que faziam qualquer um rir.

“Nóis nunca viu Rute triste”, disseram na oração do velório.

Eu lembrei de “Maria, Maria”, interpretada pela Elis Regina. Acho que a música foi inspirada nela.

A gente ainda morava de aluguel lá no Parque Alto quando eu era pequena. Não lembro do cômodo, mas soube que teve uma época que ela deu abrigo pra um bando de irmãos. Cozinhava, passava e lavava pra todo mundo.

Não conhecia o significado da palavra machismo. Pra ela, era só bondade e amor ao próximo mesmo.

Desconfio que a gente não sabe muito bem o que é isso.

Sabe que só veio reclamar de uns anos pra cá?

“Eu cuidei de toda aquela gente e hoje ninguém vem me visitar”, ela dizia.

É de dar raiva, né? Mas ela também me ensinou uma coisa que é bem maior que isso: fazer o bem e não olhar a quem.

Ô coisa linda para se aprender, viu? Quando a gente pratica isso, o coração ilumina. Igualzinho quando eu ouvia o portão de casa abrir tarde da noite e corria para abraçá-la. Sempre tinha bolacha ou um chocolatinho na bolsa.

Enquanto eu crescia, rolou um montão de coisas difíceis em casa. Teve droga, hostilidade, solidão, desamor.

Ela afogou muita mágoa no álcool e queimou muita dor no cigarro. A luta diária seguia. E ela também, à frente de tudo, “tocando o barco” e sempre buscando melhoria onde dava.

Comprou um terreno. Construiu uma casa pra gente.

“Eu acendia a luz todo dia e me perguntava: será que isso é meu mesmo?”, ela dizia.

Hoje em dia a gente não se deslumbra com quase nada.

A escada foi feita à mão com a ajuda da minha madrinha. Sem nenhuma lição de engenharia, claro, pois ela só sabia escrever o próprio nome.

Quem é que podia estudar quando tinha que trazer o de comer pra casa?

E aquele montão de dívida pra pagar, que ela fazia questão de honrar uma por uma, afinal, “coisa mais bonita é você andar limpo da praça”.

Obrigada por mais uma lição, Dona Rute.

Teve muito arroz com feijão e bife aqui em casa, e mais um montão de comida que só ela sabia temperar de um jeito que fazia qualquer um repetir.

Isso eu não aprendi, que burrice a minha.

De uns quinze anos pra cá, depois de muita casa limpa, roupa lavada e passada com perfeição, filhos de patrão criados com educação, noites mal dormidas de preocupação, ajuda até a quem ela não tinha nenhuma ligação, vieram coisas muito boas também.

Eu cresci, parei de reclamar que só tinha um tênis e, aos quinze, comecei a trabalhar para comprar minhas coisas. Até me formei num negócio que ela não sabia para que servia (“comé que é mesmo, fia? publi, publi-ci-dade?”), mas tinha muito orgulho.

Meu irmão parou de dar trabalho e deu o maior presente que ela poderia ganhar: Kadu, que virou o xodó da vó e pelo qual ela soltava os sorrisos e choros mais sinceros. Ano passado veio até o Dudu, “coisa fofa da vó”, responsável pela alegria geral da casa.

A gente não era de conversar muito, mas se ela soubesse o tanto que aprendi apenas observando a sua luta, saberia que foi a minha melhor amiga anônima.

Vieram os últimos anos. Um AVC, uma prisão chamada cadeira de rodas, e a alegria se esvaindo aos poucos.

Quando vovó Baza morreu, há dois anos e meio, ela começou a contar sua própria hora também.

“Se Deus quiser logo, logo, eu vou pra perto de mamãe”, ela dizia.

A gente não esperava pela internação de nove meses. Uma feridinha no pé, uma pneumonia, DPOC, meses na UTI.

Um dia o médico me disse: “olha, é um caso muito complicado, a gente não espera muita coisa”.

E quando ela acordou: “a equipe inteira não acredita na força da sua mãe”.

É difícil acreditar mesmo.

Foi difícil pra mim. Questionei fé, destino, eu mesma, os outros.

Conheci a raiva absurda de ver alguém amado impossibilitado de fazer o que gosta.

Mas mesmo lá no hospital, ela fez amizades, provocou muitas risadas e virou o xodó da enfermaria, com seu “au au” brincalhão espalhado pelos corredores.

“Au au” era o seu “poxa, vida!” que servia para qualquer situação.

Foram 247 dias de luta até ela ir embora na última segunda.

E, nossa: como tá doendo!

Mas eu sei que tem muita lembrança feliz para, eventualmente, encobrir a dor e raiva latente. A saudade fica. Pra sempre.

Muita gente veio se despedir: os patrões, as amigas, primos de todo o canto, os seis irmãos, gente que foi acolhida e de alguma forma tocada por esse tal de ser Dona Rute.

Eu não sou lá muito mística, mas aquele sol abrindo depois de tanta chuva logo depois do último adeus pareceu uma poesia natural saudando a guerreira.

Eu aprendi tanto com a história da minha mãe, que precisava forçar a memória e contar um pouco do que lembro. Assim, quem sabe, ela faça alguma diferença para quem está lendo também.

Dona / tia / prima / irmã / amiga / mamãe Rute abriu os braços para muita gente em sua jornada. Provocou mudanças eternizadas pelas lágrimas de todo aquele povo em comboio atrás das flores, e de tantos outros que não puderam estar lá.

A vida não é isso? Uma colagem de pessoas que a gente toca e coisas que a gente transforma.

A colagem dela é a melhor que eu já vi até agora.

Au au, mamãe, muito obrigada.

Missão cumprida.

Estado

Minha Transiçao Política Capilar

Eu não comecei a alisar o meu cabelo porque queria ter o cabelo liso. Eu nunca achei o cabelo liso mais bonito que cabelo cacheado, nem quando eu era criança, nem adolescente, nem agora.

Isso é algo importante sobre a minha história capilar: eu era pirralha, mas tinha noção da minha cor de pele e tinha noção que meus cachos, de certa forma, me identificavam como pessoa.

Daí, quando eu comecei ir pra escola aos 7 anos, aconteceu uma mágica!

Uma mágica chamada “ensino fundamental de uma escola de periferia onde cabelo crespo é cabelo ruim”.

Isso, aliado ao fato de eu ter uma fada madrinha cabeleireira que me incentivou a começar o relaxamento pra “amaciar”, foi o start da minha vida quimicada.

Eu relaxei o cabelo a primeira vez (era isso que o produto, Hair Life, dizia – creme de relaxamento) porque era muito, muito difícil penteá-lo de manhã antes de ir pra escola. Como outras garotas de cabelo crespo, eu também não gostava dele muito cheio e muito menos do aspecto seco. O relaxamento soltava os cachos, facilitava o pentear e controlava o volume.

#tudocomportado

Se eu soubesse o trabalhão que ia dar pra retomar a minha textura natural – 12 anos depois de relaxar pela primeira vez – não teria aceitado a sugestão da minha madrinha. Mas naquela época ninguém (ou pouca gente) falava de negritude, de liberdade, de Black Power como moda (eca ¬¬), nem nenhum dos “incentivos” que hoje existem para que mulheres de todo tipo libertem-se dos padrões e descubram sua identidade, origem e beleza real (que, vale dizer, não deve ser ditada por ninguém).

Mesmo com o cabelo “bonito” (lê-se: com cachos perfeitinhos, outra merda que domina a cabeça das cacheadas, com o perdão do trocadilho), eu ainda usava muito ele preso, porque tinha vergonha do volume.

Meu penteado favorito. Sorry, amiguinhas 🙁

Depois dos 15/16 anos, comecei a admirar cabelos cacheados com volume. Eu via mulheres com black ou com o cabelão volumoso na rua e pensava: essa tem atitude. Aí comecei a tomar coragem pra usar o meu solto mais vezes também, e isso foi muito importante para o desfecho dessa história.

Colagem Transição 2

#vemnimimvolume

Eu até gostava do meu cabelo na adolescência. Tinha minhas brigas com ele, mas em geral gostava de como a química moldava os cachos e raramente tive problemas de ressecamento, queda e essas coisas. Ainda assim, o tratamento era chato e maldoso.

Eu comecei perto dos 10, parei aos 23. Era uma dependência química das bravas e, grazadeus, há algum tempo ,inspirada por uma amiga que também se livrou da química e por blogs de cacheadas não-anônimas (alguns links no final do post), comecei a minha saga ao resgate da minha identidade capilar (e étnica também).

Eu devo ter feito chapinha/escova umas 10 vezes nesses 13 anos (acho muito artificial, mas às vezes queria “uma cara diferente”, pff.), mas uma coisa eu digo: é chato. Dói. Queima. E, definitivamente, não é “mais fácil do que manter os cachos” como muitas meninas que alisam dizem. E, não, NÃO É PRECISO SOFRER PRA FICAR BONITA.

A pergunta que foi decisiva para eu tomar a decisão de entrar na transição foi: como é mesmo o meu cabelo natural?

Aí eu comecei a cortar e bingo: comecei a ouvir merda.

DSC01597

Primeiro corte rumo ao BC em Mar/2014

— Nossa, mas seu cabelo era tão lindo!

— Que você tá fazendo no seu cabelo?

— Por que você cortou tão curto?

— Depois de velha decidiu ter o cabelo ruim. (pasmem! :o)

— Mas você não passa nada pra controlar o volume?

— Nossa, mas na raiz ele é bem ruinzinho, né?

— Faz progressiva só pra soltar a raiz. (queria soltar minha mão na tua cara ¬¬)

— É moda agora usar assim, né? (NÃO, NÃO É! E você pode entender porque aqui)

São algumas das coisas que eu ouço de fevereiro de 2014 pra cá. Isso, plus olhares tortos, plus uma completa ignorância da importância do processo pra mim e outras garotas crespas/cacheadas, plus a minha própria insegurança e bingo: #tátendodificuldade, mas eu tenho certeza que vale a pena.

— Mas você é maluquinha mesmo!

Sou nada.

Maluquice é sofrer por, gastar por e ostentar um identidade que nunca será sua.

Maluquice é permanecer refém da sociedade medíocre, opressora e racista, que continua dizendo – e é só fazer o teste do pescoço para confirmar – que nosso cabelo crespo/cacheado é feio e ruim.

Maluquice é não curtir a chuva, ter vergonha do cabelo na praia/piscina, submeter-se àquele processo cruel e fedorento da progressiva.

O que eu estou fazendo é deixando de ser maluca e indo ao encontro, apaixonado e sincero, da minha FELICINDENTIDADE. =D

Update: Escrevi esse post antes de fazer o big chop, mas aí está meu cabelinho 3 meses depois do BC (que fiz na Clínica dos Cachos em SP e pretendo escrever sobre depois ;P)

Ge2015

O negócio tá começando a ficar BOM \o/

Links de blogs/canais que me ajudaram a chegar aqui:

http://blogueirasnegras.org/

http://cacheia.com/

http://www.rayzanicacio.com/

https://www.youtube.com/user/blzinterior

https://www.youtube.com/user/veganmariii

Nota

O Nimoy e a Dona Rute

Essa semana morreu Leonard Nimoy, ícone nerd/pop intérprete do personagem Spock, cujo jargão, “Vida longa é próspera” é uma das frases mais famosas da história do entretenimento.
Nimoy tinha DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), resultado das décadas como fumante.

Essa semana está numa sala de UTI do Hospital Regional Sul a senhora Rute Correia Borges, vulgo minha mãe, ícone de luta pessoal/étnica/socialmente minimizada cujo jargão “au au” e “o que é certo é certo e o que é errado é errado” tornou-a conhecida entre muitas pessoas.
Dona Rute tem DPOC, resultado das décadas como fumante.

Nimoy parou de fumar 30 anos antes de morrer, aos 83 anos.

Dona Rute parou de fumar um dia antes da internação que já dura 56 dias, dos 67 anos que ela tem de vida.

Nimoy teve uma vida brilhante em seu ofício, criando, dirigindo, atuando e, então, consagrando-se como um dos atores mais talentosos da história do entretenimento.

Dona Rute, em seu ofício, deixava brilhante diversas superfícies, do chão à móveis, loucas, roupas. Consagrou-se como uma das empregadas mais talentosas da história de suas patroas. Não restava uma mancha.

Em seus últimos tweets, Nimoy escreveu sobre as consequências gravíssimas de seus anos como fumante, aconselhando seus seguidores a jamais darem chance ao vício, extremamente nocivo e cruel.

Em suas últimas palavras audíveis antes de colocarem um cano em sua garganta, Dona Rute, com a respiração ofegante e desesperada, balbuciou as palavras “Me dá… vida”.
A cena, que não ficará famosa como tantas já protagonizadas por Nimoy, seria altamente recomendada para qualquer pessoa que, por incentivo traumático, possa vir a nunca – ou nunca mais – levar um cigarro à boca.

Nimoy não conheceu Dona Rute e Dona Rute nunca ouviu falar de Nimoy, apesar de seus pulmões compartilharem da mesma história.

Estado

Volta

24

Os olhos dela estão arroxeados

A gaze na boca reflete a morbidez do quarto de UTI

Ela não responde, o pulmão muito menos

Ao sair de lá, ajeito o meu black power recém-assumido no espelho, como se não tivesse morrendo por dentro

24

Mesmo ofegante eu entendo o que ela pede

“Ai ai ai”

“ Me dá..”

O que, mãe?

“Vida.”

23

O ano passa tão rápido que a minha memória não tem tempo de fotografar tudo

Era o amor da minha vida ali atrás?

Era um trabalho apenas para pagar as contas ali na frente?

Era a cadeira de rodas dela emperrando ali no meio?

Era eu em algum momento?

22

Ufa!Formada.

A vida mais cada vez mais bagunçada

Só conheço o significado de três palavras:

Inércia

Angústia

Desespero

Que esse 13 acabe logo

Espero…

21

Último ano da faculdade

Aí, no ano que vem…

Mas esse ano,

AVC.

Ai.

Traição.

Ai.

TCC.

Ai.

Subo no palco do auditório com o grupo para receber o prêmio pelo trabalho. De novo: orgulho de quem eu sou?

20

Eu trabalho para uma instituição que lucra 5 bi/ano enganando pessoas e acredito que o meu TCC mudará minha vida.

19

Alô?

Oi, tia.

Não, foi mais uma convulsão.

Não sei, tia. Tô esperando o médico.

Não, não vou trabalhar hoje. Sei lá… invento uma desculpa.

18

Eu choro descontroladamente ao ganhar a bolsa

Publicidade.

De graça.

Caraca, isso vai mudar a minha vida.

Ninguém da minha família entende o orgulho.

o.v.e.l.h.a.n.e.g.r.a.

17

Adolescência, que merda.

16

Uma semana de namoro e, nossa, eu sou a garota mais feliz do mundo.

Ele diz que é apaixonado pela minha melhor amiga.

Dá pra morrer de amor?

Foco no trabalho e resto só Deus sabe.

15

Ele é o cara mais inteligente que eu já conheci. Tô apaixonada. A gente conversa sobre nanotecnologia enquanto o sereno cai e eu viajo olhando as luzes do posto de gasolina. Como será beijar um cara?

Começo a escutar rock n’ roll.

A paraninfa da turma me entrega troféu de melhor aluna do curso e eu sei que aquele é o começo da minha carreira brilhante.

14

Passo pelo dedo pela lista e meu coração dispara porque não estou entre as Jéssicas.

Ah, calma, são 3 letras pra cima.

Gessica. Correia. Borges.

Eu começo a chorar porque vou começar um curso que pode resultar no meu primeiro emprego e, quem sabe, orgulhar pra valer a minha família.

13

Álcool e outras drogas correm pelas veias do meu pai, mãe e irmão. Acho que o efeito é mais forte em mim do que neles.

12

Minha mãe não foi trabalhar hoje. Eu finjo que ela não está dormindo totalmente bêbada no quarto enquanto eu e meus amigos fazemos trabalho na sala.

Minha madrinha passa uma química no meu cabelo pra ficar mais fácil de pentear. Eu sinto menos vergonha dele agora.

11

Primeiro dia na nova escola. Não tenho uma roupa nova pra ir. Na entrada, todo mundo olha estranho pra minha calça peluda e meu cabelo crespo com chiquinhas.

Levanto a mão toda hora pra responder as perguntas da professora e, bingo, acharam a CDF da sala.

10

Na última reunião do ano, a professora diz que eu estou a frente dos colegas e jura que darei muito certo.

Mamãe está bêbada e desvia o assunto.

09

Os dois não param de gritar.

“Sua ordinária, filha da puta”

‘Seu vagabundo descarado”

Eu tento gritar mais alto pedindo pra eles pararem. Ninguém me escuta nessa casa. Subo pra laje pra chorar sozinha.

08

Ela não conseguiu levantar pra ir à primeira reunião do ano na escola e eu encontro camisinhas na mala do meu pai, mas eles já não estão juntos há anos.

07

Uns caras vieram aqui no portão hoje cobrar os cheques sem fundo que meu irmão passou pra usar droga.

Minha mãe me carrega pela mão pelas ruas do bairro, acho que está procurando ele, mas não entendo direito.

07

Primeiro mês da primeira série e a professora me transfere pra segunda série, porque eu acabo as tarefas muito rápido e durmo o resto da aula.

Na sala, um menino branco me alopra todos os dias: pela minha idade, pela minha cor, pelo meu cabelo desgrenhado, pelos meus dentes tortos e orelha de abano. Ainda bem que eu achei um canto pra ficar sozinha às vezes.

A escola não tem uniforme, mas eu tenho. É a única roupa nova do ano.

06

Fizeram uma festinha de aniversário pra mim. Na hora do parabéns eu escondo o rosto pra chorar porque tô com vergonha dos meus pais, que estão muito bêbados.

05

Ele me parou no corredor e me abraçou de um jeito estranho. Senti sua mão correr por uma parte que eu sabia que não era permitida e saí correndo. Nunca vou falar disso com ninguém.

04

Minha mãe tá me carregando pelo colo e andando apressado em direção à avenida escura. Acho que meu pai chegou louco em casa.

03

02

01

0

44 anos? Grávida?

Rute, Rute … você precisa parar de fumar.

Essa menina já é um milagre.

Estado

~ALERTA DE TEXTÃO~ Não, eu não tenho Facebook.

— Como assim você não tem Facebook?

Assim. Não tendo. Não querendo. Não gostando.

Obviamente, não decidi isso do nada. Por uns dois ou três anos estive exatamente como o resto da humanidade: logada naquela página horas por dia, passeando por perfis do primo-da-vizinha-da-menina-que-tem-uma-amiga-que-estuda-comigo.

Não era legal. O tempo passava e aquele monte de fotos, status, blá blá blá de pessoas desesperadas por se autoafirmarem esquerdistas, niilistas, patriotas, revoltadas, #focoforçaefé e etc. começou a minar minha capacidade de discernimento.

De repente eu estava julgando todo mundo em silêncio.

Daí eu caí na real sobre como aquilo ali, uma simples (sorry, Mark) página de internet, alterava absurdamente o comportamento das pessoas.

“Você viu quem a Juana tá namorando? Ela postou ontem uma foto.”
“Pelo que o Juão têm postado no Face, tá mesmo querendo emagrecer”

“Postar” virou sinônimo de “existir”. E eu me assustei como quanto eu me engrenei nessa rede. Não era (nem sou) do tipo polêmica, mas nos bastidores eu corria por perfis, páginas, comentários, fotos de pessoas as quais não tinha o menor vínculo e nem, supostamente, interesse.

Ué, mas a ideia não é essa? Conhecer gente diferente?

Hmmmmm, é, mahomeno. Mas quantas pessoas diferentes a gente realmente CONHECE no Face?

Não falo de adicionar e falar no chat por um dia, ou fuçar o perfil até dar dor nas costas. Eu falo sobre conhecer. De verdade. Fazer realmente um amigo.

Eu realmente acredito em fazer amizades e conhecer gente pela internet (namoro um carioca por causa disso, yay o/), mas percebo que esse objetivo não é nem de longe um dos mais visados por lá.

Assim como outras (e maybe, qualquer) rede social, o Facebook é um lugar de aparências.

Aí partimos para os 3 motivos práticos pelos quais eu não tenho Facebook:

1) O Facebook é um bicho malvado que engole as pessoas.

facebook-timeline-h

Você entra pra ver se tem alguma atualização na sua página. Uma hora depois e você está lendo/vendo/procrastinando com, como minha mãe diria, necas de pitibiribas. Nem adianta mentir e se enganar, é assim mesmo.

2) O Facebook afasta as pessoas.

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Simples: no ano que eu saí do Facebook, apenas um, UM amigo lembrou do meu aniversário. Dos 300 e poucos que eu tinha por lá. =D Não é só questão de recalque.

Se você não curte o post/foto ou sei lá mais o quê de alguém, isto é motivo pra estranhamentos e climas esquisitos.

Qual foi a última vez que você viu aquele amigo do Face que você vive dizendo “a gente precisa se ver! Que saudade!”? Não vale mentir.

3) O Facebook tem funcionalidades não-funcionais att all e um algoritmo malvado que te faz de idiota pois lidera as suas leituras. 

facebook-ecard

Você pode montar um álbum pra cada cerveja que tomar no bar com amigos (e eu nem bebo).

Pode escrever um texto de 63.206 caracteres (!) para falar que odeia a Dilma (por isso adoro o Twitter e os singelos 140 ♥).

Pode (e acho essa função tão tosca que nem sei como comentar) dizer através de um texto pré-determinado que “está se sentindo/triste/feliz/sozinho/o raio que o parta”.

ISSO É SUCKS TOTAL.

Além disso, mesmo tendo anunciado uma “otimização” do algoritmo afim de aumentar a qualidade do conteúdo compartilhado na rede, na prática, tudo que eu escuto de amigos que tem Facebook se resume a: 1 não tem nada de interessante 2 tô de saco cheio daquela timeline 3 só não saio pra não perder contato com a família.

Então, né?

— Nossa, mas uma publicitária sem Facebook?

A única coisa que perco não estando lá é mais chance de autopromoção. Qualquer novidade da rede enquanto ferramenta eu posso acompanhar nos sites que já costumo visitar sobre mídias sociais e afins. Pronto. Tá resolvido.

Uma coisa que é importante: esse texto não é exatamente anti-Facebook. Só achei que, como aqui é um blog pessoal, seria importante registrar esse momento histórico da minha vida, onde sou parte uma extradigirrestre 😉

E viva à liberdade!

Update 30.06.2015: Tive que voltar para o FB para gerenciar a página do novo emprego, Deus me ajude 🙁

Vídeo

Dove. De novo.

Acho que uma dos primeiros cases que estudei na faculdade foi sobre a Dove e sua companha da real beleza. Eu lembro que na época, pensei: “Ahn ham, tá, real beleza, uma marca grande dessas? Conta outra.”.

Anos se passaram (eu fiquei velha) e o mote continua aí, inclusive como título do site oficial no Brasil. Eles não desistiram. Eles insistem em dizer que mulheres são lindas como são.

E não é a primeira vez que me emociono com uma campanha da Dove, são várias criações incríveis no canal oficial no youtube, mas obviamente eu não tinha como não me identificar com esta, cujo slogan #LoveYourCurls e o depoimento de garotinhas lindas sobre a autorrejeição de seus cachos encheu meus zóios de água salgada, porque eu já tive as exatas mesmas neuras.

Pois bem: é só da o play aí em cima e preparar o lencinho 😉

Nota

E não sou a causa dessa cicatriz

Nem vem

Que não tem

Eu não tenho culpa se não és feliz

Eu não sou a culpa da tua desculpa

Escuta,

Não existe multa

Pra direção escolhida.

E se sofre,

E se alegra,

E se irrita,

Eu não sou a causa da sua birita.

E a sua alma

Tão viva

Aplástica

Açoitada

Eu não produzi

Veio de fábrica.

Estado

Instavida

instavida

Daí a gente muda o filtro e a vida fica mais bacana.

É como aquela foto não-tão-boa-assim que você tirou, ficou em dúvida se valia postar no Instagram, mas quando postou, com um toque de Earlybird, teve gente pra caramba curtindo.

O filtro, no caso, da vida, pode ser um objetivo novo, um romance, a cor do cabelo, ou a combinação de tudo isso.

Se for a combinação de tudo isso, as chances são que você transpareça confiança e então ganhe mais coraçõezinhos. Se for uma coisa só, também é ótimo, basta usar as hashtags certas e voilà!

As hashtags, no caso, da vida, são as coisas as quais você dá prioridade. Se forem coisas #materiais e #físicas, as chances são que acabem mais rápido, mas não tem problema, você pode ostentar e ser feliz enquanto dura.

Se forem coisas #espirituais e #abstratas, pode ser que as pessoas não entendam, nem valorizem, nem apoiem, mas também não tem problema, internamente você continuará feliz e o melhor: isso ninguém bloqueia.

O importante é escolher um bom filtro.

Pode demorar um tempo, daí você vai se sentir perdido, inerte e meio inútil, mas – de novo  – não tem problema: quando você olhar sua imagem final vai saber que valeu a pena.